domingo, novembro 10, 2019

Descrições da Natureza em Álcman: fragmentos 89 e 90

[89]
Apolônio Sofista, Léxico p.101 – Knodála, “assombros”)
Homero [usa a palavra] uma vez só, [para designar] qualquer animal selvagem. Mas alguns falam que theras ou thería (“animal selvagem”) são os leopardos, lobos e quaisquer outros que sejam bem parecidos com esses; herpetá (“serpeante”) é usado como um termo geral para a espécie das serpentes,  knodála (“assombros”)para os grandes peixes do mar, baleias e outros desse tipo. Álcman os distingue falando assim:

Dormem cimos dos montes e precipícios
promontórios e leitos de rios;
as greis serpeantes que a terra negra nutre
e as feras montesas; a raça das abelhas,
os assombros nos abismos do purpúreo salso;
dorme a grei das aves de asas longas...

*Talvez o poema prosseguisse: "só eu não durmo". Outra leitura possível sugere um lugar comum da poesia grega: o silêncio absoluto da natureza também é o espaço de agência das divindades.
  

[90]
Escólio a Sófocles, Édipo em Colono, v. 1248
[Ele] fala das montanhas chamadas Ripe. Outros a chamam assim: “Montanhas Ripeias”. Falam delas como “envoltas pela noite” por que estão situadas junto ao poente. Álcman as menciona, falando assim:

Ripe, montanha em flor e floresta
o seio da negra noite

sábado, outubro 26, 2019

Alceu - Fragmentos 45, 50, 58, 352


Fragmento 45
[Papiro de Oxirrinco 1233, fr.3 8-15, 9.9, 18 +2166 (b) 2]
Ó Hebro, dos rios o mais belo junto ao Eno,
[deságuas no] purpúreo mar
surgindo em terra trá[cia]...
...cav[alos]?
...
e muitas virgens te visitam
...as coxas, com mãos tenras,
]a encantadas por ti, qual bálsamo
tua di[vi]na água

[Escoliasta a Teócrito 7, v.112]
Alceu diz que o Hebro é o mais belo dos rios, que ele se precipita pela Trácia saindo do Monte Ródope e deságua na cidade de Eno.


O poema é um hino ao rio Hebro, atual Maritza. O rio corria pela Trácia e desembocava na cidade de Eno (atual Enez, na Turquia). Era uma colônia de Mitilene no séc. VI a.C. As menções ao rio Hebro e à Trácia sugerem que o poema poderia se desenvolver como uma narração do mito de Orfeu - figura arquetípica e fundadora da poesia - cuja cabeça decepada foi lançada ao rio e foi dar em Lesbos. Cabe registrar o erotismo presente na segunda estrofe, potencializado pela linguagem extremamente gráfica das jovens meninas que se banham e deixam-se acariciar pelo fluir das águas do Hebro - suaves e embelezadoras como um bálsamo. 

Fragmento 50
[Papiro de Oxirrinco 1233, fr.32, 2-7]
Pela tão s[ofrida cabeça verte unguento
e pelo gri[salho peito]...
que eles bebam, os males[ (deuses?)
deram, e com outr[os]
h]om[e]ns, mas aquele que não...
... dizes perec[er]


[Plutarco, Questões Conviviais, 647e, iii..3]
Alceu  testemunha (sc. de que se untava o peito com unguento) ao exortar derramar unguento pela tão sofrida cabeça e pelo grisalho peito.

Fragmento 58* 
Papiro de Berlim 9810, séc. II d.C (publicado por Schubart e Wilamowitz em 1907)
], morrer[
]...nas casas
...
r]eceber
]...nem...
...
]n a concha na enorme ânfora
]esforçado, me entendas nisto...
]...de outro modo
]...ébrio tu cantes[
]poupamos o mar, oh sk...ron[
]...frio da manhã...levantamo-nos(?)[
]...o mais rápido...[
]...em remos[?] pegamos...[
]...às paredes[?]
]...e mais alegres
]...com propício coração[
]o trabalho seria beber de um só trago[
]...as mãos...longe de minhas roupas
...
]...coloca...
]...a canção...
]vamos! Para mim isto[
] ateia(?) enorme fogo
]colocas...

O sentido exato do poema se perdeu. É possível que  fosse uma exortação a deixar o combate e tomar parte de uma navegação ou de um combate naval. Parece exortar a beber "de um só trago", i.é, sem interrupção - prática comum entre os bárbaros trácios. 

Fragmento 352*
Ateneu, Banquete dos Eruditos, I 22 e-f
Bebamos, pois o astro faz sua volta.

* O astro é Sírio, maior estrela da Constelação de Cão Maior.  No verão (geralmente entre meados de julho e de agosto) o sol nascia e se punha simultaneamente com Sírio e  tinha-se a Canícula ("dias de cão") - os dias mais quentes do ano. Para combatê-la, Alceu exorta ao vinho.

segunda-feira, setembro 30, 2019

Alceu - fragmento 6

Do Papiro de Oxirrinco 1789:

Esta onda, outra vez, [como?] antes avança
em marcha e nos dará muito trabalho
exauri-la depois que entrar no navio
...Reforcemos o mais rápido....
...a um porto seguro corramos...
...Mole medo não tome nenhum de nós,
o grande [prêmio?] já se vê:
com o pensamento nas provações do passado,
cada homem seja resistente!

E não envergonhemos [com covardia?]
os nobres pais que repousam sob a terra
el[es]
a ur[be]
sendo... dos pais...
dos... o nosso coraç[ão]
parece...rápido...

...

Mas nós..?

...

O poder de um só
..não aceit[emos]?


τόδ᾽ αὖτε κῦμα τὼ προτέρω +νέμω+
στείχει, παρέξει δ᾽ ἄμμι πόνον πόλυν
ἄντλην, ἐπεί κε νᾶος ἔμβαι
]. όμεθ᾽ ἐ[
]. . [ . . ] ·[
[ ]
φαρξώμεθ᾽ ὠς ὤκιστα [
ἐς δ᾽ ἔχυρον λίμενα δρό[μωμεν
καὶ μή τιν᾽ ὄκνος μόλθ[ακος ἀμμέων
λάβη· πρόδηλον γάρ μεγ[ἀέθλιον
μνάσθητε τὼ πάροιθε μ[όχθω·
νῦν τις ἄνηρ δόκιμος γε[νέσθω.

καὶ μὴ καταισχύνωμεν[ανανδρίᾳ
ἔσλοις τόκηας γᾶς ὔπα κε[ιμένοις
..] τᾶνδ[
τὰν πό[ . . .
ἔοντε[ς ] ἂπ πατέρω[ν
τὼν σφ[ ]αμμος θῦμ[
ἔοικε[ ]ων ταχήαν[
ταῖ[ς ]. νητορεν .[
ἀλλ.[ ] τᾶσδεπαλ[
..].[ ]. οισα . ελ .[
[ ]. τοι . [
π[ . . ] .[ ]. συν .[
μ[η]δ᾽ ἄμμ[.] λω[. . .
γε[ . ]ος μενέ[
μοναρχίαν δ . [
μ]ηδὲ δεκωμ[

[ ]. . ιδημφ . [
[] . οισί τ᾽ ὔποπ[
[ ]αίνων· ἐκ[



De Heráclito, Alegorias Homéricas (5):

Ὁμοίως δὲ τὰ ὑπὸ τούτου αἰνιττόμενος ἑτέρωθί που λέγει·

Τὸ δ' ηὖτε κῦμα τῶν προτέρων +νέμω+
στείχει, παρέξει δ' ἄμμι πόνον πολὺν
ἄντλην, ἐπεί κε νᾶος ἐμβᾷ.

Κατακόρως ἐν ταῖς ἀλληγορίαις ὁ νησιώτης θαλαττεύει καὶ τὰ πλεῖστα τῶν διὰ τοὺς τυράννους ἐπεχόντων κακῶν πελαγείοις χειμῶσιν εἰκάζει.

Igualmente com enigmas [Alceu] fala  das ações dele [sc. o tirano Mirsilo] alhures: 

E a onda, outra vez, [como?] antes avança
em marcha e nos dará muito trabalho
exauri-la depois que entrar no navio

O ilhéu usa expressões náuticas sem moderação em suas alegorias e compara a maioria dos males que o acometem por causa dos tiranos a tormentas no mar.


Notas:

- Famoso fragmento de Alceu, que mobiliza a alegoria da nave do estado, que o tornou notório (juntamente com seus poemas sobre o simpósio e o vinho). A turbulência política na pólis é comparada a um navio em perigo no alto mar, como esclarece já uma das antigas fontes do poema.

- A princípio conhecia-se apenas os 4 primeiros versos, conservados na obra Alegorias Homéricas, de Heráclito. A descoberta de um papiro datado do primeiro século d.C. acrescentou novos versos, alguns muito significativos: temos aqui, por exemplo, a primeira referência negativa à tirania, explicitada pelo termo μοναρχίαν (monarkhían, "poder de um só"), da qual  Alceu consagrou-se como o mais feroz opositor.

- Adoto o texto de Eva-Maria Voigt (Sappho et Alcaeus, fragmenta. Amsterdam: Athenaeum - Pollak & Van Gennep 1971) embora adote algumas emendas propostas por Campbell (Greek Lyric I - Sappho and Alcaeus. Cambridge: Harvard University Press, 1982).




terça-feira, setembro 03, 2019

Os Trenos de Simônides (Trad. Rafael Brunhara)


Os trenos são um subgênero da poesia propriamente lírica. Consistem, basicamente, em uma reflexão fúnebre sobre a condição humana. Pouco nos restou deste gênero senão fragmentos. Boa parte deles se encontra na poesia de Simônides de Céos, que teria sido um de seus maiores cultores.

[Fragmento 520]
Plutarco, Consolação a Apolônio, 11, 107ab
...a opinião que prevalece entre alguns de que é melhor morrer do que viver. Simônides por exemplo, diz:

Da humanidade, pequena
a força, inúteis seus cuidados,
na vida breve é dor atrás de dor;
e sobre todos a mesma morte inescapável:
igual quinhão recebem dela os bons
e quem seja mau.

[Fragmento 521]
Estobeu, Excertos 4.41.9
De Simônides:

Humano, nunca digas o que acontece amanhã
E se vires um homem feliz, por quanto tempo será;
Mais célere que o bater de asas de uma mosca:
assim a mudança

Estobeu, Excertos 4.41, 62
De Favorino: “Humano, nunca digas o que acontece amanhã/E se vires um homem feliz, por quanto tempo será” E nem mesmo uma casa. Repara como o poeta narra a ruína completa dos Escópadas.

[Fragmento 522]
Estobeu, Excertos 4.51.7
De Simônides:

Tudo chega a uma só horrenda Caríbdis:
Até mesmo grandes excelências e a riqueza.

[Fragmento 523]
Estobeu, Excertos 4.34.14
Dos trenos de Simônides:

Pois nem os que viveram outrora
E nasceram semideuses filhos de soberanos Deuses
alcançaram a velhice sem cumprir
vida sem dor sem morte sem perigo

[Fragmento 524]
Estobeu, Excertos 4.51.7
De Simônides:

E a morte pega até quem foge à guerra

[Fragmento 525]
Estobeu, Excertos 2.1.10
De Simônides:

Fácil aos Deuses roubar a razão humana.

[Fragmento 526]
Teófilo de Antioquia, Para Autólico, 2.8
E Simônides [disse]:

Ninguém sem Deus
conquista excelência, nem urbe nem homem
Deus é todo astúcia: a salvo
nada está entre os mortais.

[Fragmento 527]
Teófilo da Antioquia, Para Autólico, 2.37
Que o julgamento de Deus está prestes a ocorrer e os males inopinadamente recairão nos criminosos, também isso...indicou...Simônides:

Não há mal aos humanos
inesperado: em pouco tempo
Deus subverte tudo.

Trad. Rafael Brunhara


terça-feira, julho 23, 2019

Guilherme IX de Aquitânia (1071-1126) - Trad. Arnaldo Saraiva

Farai un vers de dreit nien
Non er de mi ni d'autra gen
Non er d'amor ni de joven
Ni de ren au
Qu'enans fo trobatz en durmen
Sus un chivau

No sai en qual hora.m fui natz
No soi alegres ni iratz
No soi estranhs ni soi privatz
Ni no.n puesc au
Qu'enaisi fui de nueitz fadatz
Sobr'un pueg au

No sai cora.m fui endormitz
Ni cora.m veill s'om no m'o ditz
Per pauc no m'es lo cor partitz
D'un dol corau
E no m'o pretz una fromitz
Per saint Marsau

Malautz soi e cre mi morir
E re no sai mas quan n'aug dir
Metge querrai al mieu albir
E no.m sai tau
Bos metges er si.m pot guerir
Mas non si amau

Amigu'ai ieu non sai qui s'es
C'anc no la vi si m'aiut fes
Ni.m fes que.m plassa ni que.m pes
Ni no m'en cau
C'anc non ac Norman ni Franses
Dins mon ostau

Anc non la vi et am la fort
Anc no n’aic dreit ni no.m fes tort
Quan no la vei be m'en deport
No.m prez un jau
Qu'ie.n sai gensor e belazor
E que mais vau

No sai lo luec on s’esta
Si es rn pueg ho es en pla
Non aus dire lo tort que m’a
Albans m’en cau
E peza.m be quar sai rema
Per aitan vau

Fait ai lo vers no sai de cui
Et trametrai lo a celui
Que lo.m trameta per autrui
Enves Peitau
Que.m tramezes del sieu estui
La contraclau


Farei versos de puro nada:
de mim, de gente desvairada,
da juventude ou da amada,
de nada falo,
que os trovei ao dormir na estrada
sobre um cavalo.

Não sei em que hora vim ao mundo,
não sou jocundo ou furibundo,
não sou caseiro ou vagabundo,
sou sempre o tal
que o fado à noite marcou fundo
num monte astral.

Não sei se durmo ou velo, não,
sem a alheia opinião;
quase se parte o coração
com dor cordial,
não ligo mais que a um formigão,
por S.Marcial.

Doente estou, creio que morro,
e só o sei por algum zorro.
A um bom médico recorro,
e não sei qual;
bom é, se obtenho o seu socorro;
mau, se estou mal.

Tenho amiga, não sei quem é,
pois nunca a vi, por minha fé;
para mim, santa não é, nem ré,
o que é igual:
normando ou francês nem ao pé
do meu quintal.

Nunca a vi, e tem meu amor;
nunca me fez dano ou favor;
se a não vejo não sinto dor,
não ganho um galo;
sei de mais bela e bem melhor
e que mais vale.

Não sei qual é seu horizonte,
se o da planície ou do monte,
nem digo o mal de que ela é fonte;
bom é que cale;
sofro que fique aqui defronte,
parto, afinal.

Fiz os versos, de quem não sei,
e por alguém os mandarei
que os mandará por outro meio
a Anjou ideal
para que venha do seu seio o
contrassinal.

Tradução de Arnaldo Saraiva

Fonte: SARAIVA, A. Guilherme IX de Aquitânia. Poesia. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009. 

domingo, junho 30, 2019

Aristóteles: Hino à Virtude (fr. 842 PMG)

ἀρετά, πολύμοχθε γένει βροτείῳ,
   θήραμα κάλλιστον βίῳ,
σᾶς πέρι, παρθένε, μορφᾶς
   καὶ θανεῖν ζαλωτὸς ἐν Ἑλλάδι πότμος
καὶ πόνους τλῆναι μαλεροὺς ἀκάμαντας·
   τοῖον ἐπὶ φρένα βάλλεις
καρπὸν ἰσαθάνατον χρυσοῦ τε κρεῖσσον
καὶ γονέων μαλακαυγήτοιό θ' ὕπνου.
σεῦ δ' ἕνεκεν <καὶ>ὁ Διὸς
   Ἡρακλέης Λήδας τε κοῦροι
 πόλλ' ἀνέτλασαν ἔργοις
   σὰν ἀγρεύοντες δύναμιν·
σοῖς δὲ πόθοις Ἀχιλεὺς Αἴ-
   ας τ' Ἀίδαο δόμους ἦλθον·
σᾶς δ' ἕνεκεν φιλίου μορφᾶς Ἀταρνέος
   ἔντροφος ἀελίου χήρωσεν αὐγάς.
τοιγὰρ ἀοίδιμος ἔργοις,
    ἀθάνατόν τε μιν αὐξήσουσι Μοῦσαι,
Μναμοσύνας θύγατρες, Δι-
   ὸς ξενίου σέβας αὔξου-
   σαι φιλίας τε γέρας βεβαίου.

Virtude, tão custosa à raça humana,
   és o melhor espólio em vida;
   por ti, donzela, por tua beleza,
   até a morte é destino invejável na Grécia
e suportar terríveis incansáveis penas;
no espírito infundes tal
   fruto imortal, melhor que ouro,
que nossos pais, que o lânguido sonhar.
Por tua causa o brilhante
   Héracles e os meninos de Leda
muito em trabalhos padeceram,
   pois caçavam teu poder;
desejando-te, Aquiles e Ájax
   à casa de Hades desceram;
Por tua amada beleza, o filho da terra
   de Atarneu* desolou a luz do sol.
Por isso é celebrado por seus feitos,
   e imortal o exaltarão as Musas,
as filhas de Memória, exaltando
   a grandeza de Zeus Hospitaleiro
   e o firme privilégio da amizade.

Tradução: Rafael Brunhara

*Segundo a fonte deste poema (Ateneu, Banquete dos Eruditos, Livro 15) o poema foi composto para Hérmias, tirano da cidade de Atarneu, na Ásia Menor. Ex-aluno da academia de Platão, quando da morte deste, Hérmias convida Aristóteles para se estabelecer em sua corte e oferece a mão de sua filha adotiva Pítia. Aristóteles lá permanece entre 347 a 345 a.C. e em 342 a.C., já na Macedônia, quando se encarregava da educação de Alexandre, recebe a notícia da morte do amigo nas mãos do rei Persa Artaxerxes III. Quando enfim regressa a Atenas, Aristóteles ergue um monumento no Liceu em homenagem ao amigo e estabelece o costume, nos jantares, de cantar este Hino à Virtude (ou Excelência, ἀρετά) em honra ao falecido amigo.

sexta-feira, junho 28, 2019

Sófocles: Ode ao homem (vv.332-375) - Trad. Barão de Paranapiacaba (1909)


Entre os muitos prodígios do mundo,

O homem forma o prodígio maior;

Ele doma o oceano profundo,

Que, espumante, lhe muge em redor,

Ao sopro dos nimbosos

Nótos impetuosos.



Volve, do arado ao gume,

Em annual semeio

Da Terra, antigo Nume,

O inexhaurível seio.

Tem, para auxilial-o,

A força do cavallo.



Para as aves, que giram na esphera,

Dispõe visco, gaiola e boiz;

Arma laços nos bosques á féra

E nas agoas aos peixes subtis.

Com rêde, facho e engodo

Cardumes colhe, a rôdo.



Da opaca selva tira

Cavallo de amplas crinas

E o touro, que respira

Ar flammeo das narinas;

A'quelle um freio ageita,

Ao jugo este sujeita.



Fala; e tem altas cousas expresso;

Dá leis sábias e povos dirige;

Contra os riscos ha feito recesso

Nas seguras moradas, que erige.



Dalli um desafio

Arroja ao vento, ao frio.

E firme na insistencia

De tudo prevenir

Estende a providencia

Aos males ]do porvir.

E, sem que a morte vença,

Dá golpes na doença



Engenhoso da industria no invento,

Habil, destro, qual não se imagina,

Ora, ao bem elle applica o talento,

Ora, a força do mal o domina;

E abusa do poder

Para as leis corromper.



Si é chefe e as leis arrostra,

De crimes polluido

Seja eloquente amostra

De um rei destituido.

Mas nunca o mesmo abrigo

Comparta elle comsigo.*

[*Nota do Tradutor. Literalmente: "Grande ao Estado, ajuntando a esta industria as leis de sua patria e o direito sagrado dos Deoses, mas indigno do nome de cidadão é aquelle a quem o que não é bello se prende por causa de sua audacia. Jamais o que pratica estas cousas, se assentará ao mesmo lar, nem pensará como eu.


FONTE:
SOPHOCLES. Antigone, tragédia em 4 actos. Versão poética portugueza de Barão de Parapiacaba.Rio de Janeiro: Oficinas da Renascença. 1909.