quarta-feira, julho 22, 2015

Alceu, fr.38 L-P

Bebe, [e te embriaga], Melanipo, comigo. O que pensas?
Que quando a grande voragem do rio Aqueronte
atravessar[es], a pura luz do [s]ol verás [outra vez?]
Ora, vamos, não almejes grandes coisas:
pois até mesmo o rei Sísifo Eólida,
dos homens o mais entendido, [pensou ser senhor da morte]
mas mesmo muito esperto, por obra do Destino [duas vezes]
cruzou a voragem do rio Aqueronte e ο [Rei] Cronida então
tramou para ele um castigo [nas profundezas]
da terra negra. Vamos, não tenhas essas grandes esperanças,
enquanto somos jovens[convém suportar agora]
quaisquer sofrimentos [que o Deus nos faça passar]
...o vento Boreal...

πῶνε[καὶ μεθύ ὦ] Μελάνιππ' ἄμ' ἔμοι. τι[φαῖς
⸏†ὄταμε[...]διννάεντ' Ἀχέροντα μέγ̣[αν πόρον

ζάβαι[ς ἀ]ελίω κόθαρον φάος [ἄψερον
⸏ὄψεσθ', ἀλλ' ἄγι μὴ μεγάλων ἐπ[ ιβάλλεο

καὶ γὰρ Σίσυφος Αἰολίδαις βασίλευς [ἔφα
⸏ἄνδρων πλεῖστα νοησάμενος [θανάτω κρέτην

ἀλλὰ καὶ πολύιδρις ἔων ὐπὰ κᾶρι [ δις
⸏δ̣ιννάεντ' Ἀχέροντ' ἐπέραισε, μ[έμηδε δ ὦν

α]ὔτω<ι> μόχθον ἔχην Κρονίδαις βα̣[σιλευς κατώ
⸏]μ̣ελαίνας χθόνος. ἀλλ' ἄγ̣ι μὴ τα[δ ἐπέλπεο

Θᾶς] αβάσομεν αἴ ποτα κἄλλοτα.[νῦν πρέ[πει
φέρ]ην ὄττινα τῶνδε πάθην τα[χα δώι θέος
......ἄνε]μος βορίαις ἐπι.[

[Tradução: Rafael Brunhara]

Alceu, fragmento 130 L-P; Eurípides, Troianas, vv.924-944 ("O Julgamento de Páris"), Rufino (Antologia Palatina V.35 e V.36)

A competição (ágon) era um aspecto proeminente no mundo grego, e se manifestava em diversas esferas de sua sociedade: um exemplo está nos concursos de beleza, masculinos ou femininos. Alceu de Mitilene (fr. 130 L-P, v.13, 17-20) nos informa que esses concursos também faziam parte da vida religiosa, sendo provavelmente parte integrante de cultos à deusa Afrodite na ilha de Lesbos:

Lá, na terra consagrada aos deuses venturosos,
(...)
Onde as lésbias, sendo julgadas pela formosura,
vão e vêm arrastando os peplos, e em volta freme
o eco divino das mulheres,
o sagrado alarido das mulheres, ano a ano...

.].[...].[..]. μακάρων ἐς τέμ[ε]νος θέων
(...)
ὄππαι Λ[εσβί]αδες κριννόμεναι φύαν
πώλεντ' ἐλκεσίπεπλοι, περὶ δὲ βρέμει
ἄχω θεσπεσία γυναίκων
⸏ἴρα[ς ὀ]λολύγας ἐνιαυσίας

No entanto, um dos exemplos mais marcantes está no mito, no célebre julgamento de Páris. Na passagem abaixo da peça Troianas (v. 924-944) Eurípides apresenta Helena referindo-se ao episódio para o marido, Menelau:

E ele [Páris] julgou o trio de Deusas:
o presente de Palas para Alexandre era
se tornar general dos Frígios e destruir a Grécia;
Hera prometeu-lhe de Ásia e fronteiras de Europa
ser regente, se Páris a escolhesse.
Mas Cípris, espantada com minha formas
prometeu, se prevalecesse entre as Deusas,
dar a minha beleza. Daí, vê bem como segue a história:
Cípris vence as Deusas; e como as minhas núpcias
beneficiaram a Grécia! Não fostes dominados pelos Bárbaros,
na lança se impondo, ou por tirania.
No que a Grécia teve sorte, eu tive pranto;
vendida por minha beleza, sou censurada
por aqueles que deveriam coroar-me de louros!
Vais dizer que ainda não tratei do cerne da questão,
de como eu parti do teu palácio em segredo:
Não era deusa menor que veio com ele,
esse nume vingador, - queiras tu chamá-lo
de Alexandre ou de Páris – a quem,
grande infeliz, deixaste em teu palácio
e partiste num navio, de Esparta para o solo cretense.

ἔκρινε τρισσὸν ζεῦγος ὅδε τριῶν θεῶν·
καὶ Παλλάδος μὲν ἦν Ἀλεξάνδρωι δόσις
Φρυξὶ στρατηγοῦνθ' Ἑλλάδ' ἐξανιστάναι·
Ἥρα δ' ὑπέσχετ' Ἀσιάδ' Εὐρώπης θ' ὅρους
τυραννίδ' ἕξειν, εἴ σφε κρίνειεν Πάρις·
Κύπρις δὲ τοὐμὸν εἶδος ἐκπαγλουμένη
δώσειν ὑπέσχετ', εἰ θεὰς ὑπερδράμοι
κάλλει. τὸν ἔνθεν δ' ὡς ἔχει σκέψαι λόγον·
νικᾶι Κύπρις θεάς, καὶ τοσόνδ' οὑμοὶ γάμοι
ὤνησαν Ἑλλάδ'· οὐ κρατεῖσθ' ἐκ βαρβάρων,
οὔτ' ἐς δόρυ σταθέντες, οὐ τυραννίδι.
ἃ δ' εὐτύχησεν Ἑλλάς, ὠλόμην ἐγὼ
εὐμορφίαι πραθεῖσα, κὠνειδίζομαι
ἐξ ὧν ἐχρῆν με στέφανον ἐπὶ κάραι λαβεῖν.
οὔπω με φήσεις αὐτὰ τἀν ποσὶν λέγειν,
ὅπως ἀφώρμησ' ἐκ δόμων τῶν σῶν λάθραι.
ἦλθ' οὐχὶ μικρὰν θεὸν ἔχων αὑτοῦ μέτα
ὁ τῆσδ' ἀλάστωρ, εἴτ' Ἀλέξανδρον θέλεις
ὀνόματι προσφωνεῖν νιν εἴτε καὶ Πάριν·
ὅν, ὦ κάκιστε, σοῖσιν ἐν δόμοις λιπὼν
Σπάρτης ἀπῆρας νηὶ Κρησίαν χθόνα.


O mito do Julgamento de Páris torna-se um lugar-comum na poesia erótica, e são exemplos os dois epigramas (V.35; V.36) do poeta Rufino, abaixo citados. Pouco se sabe deste poeta a não ser pelos 38 epigramas de sua lavra conservados no Livro V da Antologia Palatina, o que levou alguns estudiosos (Paton, Stadtmüller) a crerem que ao menos uma porção deste livro seria proveniente de uma coleção organizada pelo próprio poeta. D.Page, em sua edição aos poemas de Rufino, argumenta que o poeta teria atuado, provavelmente, no século IV d.C.

Os poemas são uma paródia do julgamento de Páris: assim como as três deusas, as três competidoras também aparecem nuas para o poeta; e nesse sentido, o poeta expõe os critérios do que é desejável: o centro de interesse do poeta está nas partes ocultas da anatomia.

Rufino, V.35

as nádegas julguei de três moças: as próprias me escolheram
e me mostraram a fulgurante nudez de seus corpos.
A de uma, marcada por covinhas arredondadas,
florescia com alvura delicada.
Mas a de outra, quando abria as pernas, a nívea carne enrubescia
mais rubra que a rosa de cor púrpura;
a da terceira, mar sereno batido por tranquila onda,
balançava, tez macia, como que por vontade própria.
Se o juiz das deusas tivesse contemplado estas nádegas,
Nunca teria desejado ver as três primeiras.

Πυγὰς αὐτὸς ἔκρινα τριῶν· εἵλοντο γὰρ αὐταὶ
δείξασαι γυμνὴν ἀστεροπὴν μελέων.
καί ῥ' ἡ μὲν τροχαλοῖς σφραγιζομένη γελασίνοις
λευκῇ ἀπὸ γλουτῶν ἤνθεεν εὐαφίῃ·
τῆς δὲ διαιρομένης φοινίσσετο χιονέη σὰρξ
πορφυρέοιο ῥόδου μᾶλλον ἐρυθροτέρη·
ἡ δὲ γαληνιόωσα χαράσσετο κύματι κωφῷ,
αὐτομάτη τρυφερῷ χρωτὶ σαλευομένη.
εἰ ταύτας ὁ κριτὴς ὁ θεῶν ἐθεήσατο πυγάς,
οὐκέτ' ἂν οὐδ' ἐσιδεῖν ἤθελε τὰς προτέρας.

Rufino, V.36

Ródope, Mélite e Rodocleia disputaram entre si
qual das três tinha a melhor cona,
e me elegeram juiz. Assim como as deusas, admirabilíssimas
se puseram nuas, escorrendo em néctar;
E o meio das pernas de Ródope reluzia, raro,
qual roseira desfeita pelo sopro de Zéfiro [...]
[faltam dois versos.]
A de Rodocleia, igual cristal, úmida na frente
como estátua recém-esculpida em templo.
Mas, sabendo bem o que sofrera Páris pelo julgamento,
De pronto coroei as três deusas.

Ἤρισαν ἀλλήλαις Ῥοδόπη, Μελίτη, Ῥοδόκλεια,
τῶν τρισσῶν τίς ἔχει κρείσσονα μηριόνην,
καί με κριτὴν εἵλοντο· καὶ ὡς θεαὶ αἱ περίβλεπτοι
ἔστησαν γυμναί, νέκταρι λειβόμεναι.
καὶ Ῥοδόπης μὲν ἔλαμπε μέσος μηρῶν πολύτιμος
οἷα ῥοδὼν πολλῷ σχιζόμενος ζεφύρῳ ...
τῆς δὲ Ῥοδοκλείης ὑάλῳ ἴσος ὑγρομέτωπος
οἷα καὶ ἐν νηῷ πρωτογλυφὲς ξόανον.
ἀλλὰ σαφῶς, ἃ πέπονθε Πάρις διὰ τὴν κρίσιν, εἰδὼς
τὰς τρεῖς ἀθανάτας εὐθὺ συνεστεφάνουν.

[Traduções e comentários: Rafael Brunhara]

domingo, junho 21, 2015

Licofrônides, fragmento 844 PMG

Ofereço-te esta rosa,
bela oferta; e minhas sandálias, meu gorro,
e a lança caçadora: meu pensar escorre p'ra longe,
p'ra bela moça que as Graças amam.

[Trad. Rafael Brunhara]

τόδ' ἀνατίθημί σοι ῥόδον,
καλὸν ἄνθημα, καὶ πέδιλα καὶ κυνέαν
καὶ τὰν θηροφόνον λογχίδ', ἐπεί μοι νόος ἄλλαι κέχυται
ἐπὶ τὰν Χάρισιν φίλαν παῖδα καὶ καλάν.

domingo, maio 31, 2015

Hino Órfico 68: Saúde [Higeia]

<Ὑγείας>, θυμίαμα μάνναν.

Ἱμερόεσσ', ἐρατή, πολυθάλμιε, παμβασίλεια,
κλῦθι, μάκαιρ' Ὑγίεια, φερόλβιε, μῆτερ ἁπάντων·
ἐκ σέο γὰρ νοῦσοι μὲν ἀποφθινύθουσι βροτοῖσι,
πᾶς δὲ δόμος θάλλει πολυγηθὴς εἵνεκα σεῖο,
καὶ τέχναι βρίθουσι· ποθεῖ δέ σε κόσμος, ἄνασσα,
μοῦνος δὲ στυγέει σ' Ἀίδης ψυχοφθόρος αἰεί,
ἀιθαλής, εὐκταιοτάτη, θνητῶν ἀνάπαυμα·
σοῦ γὰρ ἄτερ πάντ' ἐστὶν ἀνωφελῆ ἀνθρώποισιν·
οὔτε γὰρ ὀλβοδότης πλοῦτος γλυκερὸς θαλίηισιν,
οὔτε γέρων πολύμοχθος ἄτερ σέο γίγνεται ἀνήρ·
πάντων γὰρ κρατέεις μούνη καὶ πᾶσιν ἀνάσσεις.
ἀλλά, θεά, μόλε μυστιπόλοις ἐπιτάρροθος αἰεὶ
ῥυομένη νούσων χαλεπῶν κακόποτμον ἀνίην.


Da Saúde [Higeia], fumigação: incenso

Desejada e amável multinutriz, rainha de tudo,
ouve-me, venturosa Saúde [Higeia], próspera mãe de tudo:
por ti as doenças dissipam-se entre os mortais,
a casa toda floresce em muito júbilo por tua causa
e frutificam as artes; o cosmo te anseia, soberana,
e somente o Hades, aniquilador de almas, te odeia eternamente;
viçosa sempre em supremos votos, alívio dos mortais;
sem ti tudo é sem proveito para os homens:
nem a próspera riqueza, doce em festivais
nem a velhice fatigada o homem alcança, sem ti;
pois a tudo imperas, sozinha, e a todos reges!
Vem, Deusa, vem ao rito místico como defensora,sempre;
protege-nos das doenças duras e da malfadada dor!

Tradução: Rafael Brunhara

sábado, maio 30, 2015

Íon de Quios (Antologia Palatina, 7.43)



Χαῖρε μελαμπετάλοις, Εὐριπίδη, ἐν γυάλοισι
Πιερίας τὸν ἀεὶ νυκτὸς ἔχων θάλαμον·
ἴσθι δ' ὑπὸ χθονὸς ὤν, ὅτι σοι κλέος ἄφθιτον ἔσται
ἶσον Ὁμηρείαις ἀενάοις χάρισιν.

Salve, Eurípides, que nos vales de pétalas negras
da Piéria tens o leito da noite eterna!
Sabe disto: embora sob a terra, será imperecível tua glória,
igual às graças perenes de Homero.

[Trad. Rafael Brunhara]

sexta-feira, maio 22, 2015

Hino Órfico 67: Asclépio

<Ἀσκληπιοῦ>, θυμίαμα μάνναν.

Ἰητὴρ πάντων, Ἀσκληπιέ, δέσποτα Παιάν,
θέλγων ἀνθρώπων πολυαλγέα πήματα νούσων,
ἠπιόδωρε, κραταιέ, μόλοις κατάγων ὑγίειαν
καὶ παύων νούσους, χαλεπὰς κῆρας θανάτοιο,
αὐξιθαλής, ἐπίκουρ', ἀπαλεξίκακ', ὀλβιόμοιρε, (5)
Φοίβου Ἀπόλλωνος κρατερὸν θάλος ἀγλαότιμον,
ἐχθρὲ νόσων, Ὑγίειαν ἔχων σύλλεκτρον ἀμεμφῆ,
ἐλθέ, μάκαρ, σωτήρ, βιοτῆς τέλος ἐσθλὸν ὀπάζων.

De Asclépio; fumigação: incenso.

Médico de todos, Asclépio, senhor Peã
que abranda as multidoridas penas das doenças humanas,
poderoso de dons generosos, vem, trazendo saúde
e pondo fim às doenças e aos duros destinos de morte;
vicejante auxiliador que repele o mal, doador da fortuna, (5)
de Febo Apolo o forte rebento de esplêndidas honras;
inimigo das doenças, tem Saúde [Higeia] perfeita como consorte.
Vem, venturoso, salvador, acompanhando o nobre termo da vida.

Tradução: Rafael Brunhara

quarta-feira, maio 20, 2015

Hino Órfico 66: Hefesto

<Ἡφαίστου>, θυμίαμα λιβανομάνναν.

Ἥφαιστ' ὀμβριμόθυμε, μεγασθενές, ἀκάματον πῦρ,
λαμπόμενε φλογέαις αὐγαῖς, φαεσίμβροτε δαῖμον,
φωσφόρε, καρτερόχειρ, αἰώνιε, τεχνοδίαιτε,
ἐργαστήρ, κόσμοιο μέρος, στοιχεῖον ἀμεμφές,
παμφάγε, πανδαμάτωρ, πανυπέρτατε, παντοδίαιτε, (5)
αἰθήρ, ἥλιος, ἄστρα, σελήνη, φῶς ἀμίαντον·
ταῦτα γὰρ Ἡφαίστοιο μέλη θνητοῖσι προφαίνει.
πάντα δὲ οἶκον ἔχεις, πᾶσαν πόλιν, ἔθνεα πάντα,
σώματά τε θνητῶν οἰκεῖς, πολύολβε, κραταιέ.
κλῦθι, μάκαρ, κλήιζω <σε> πρὸς εὐιέρους ἐπιλοιβάς, (10)
αἰεὶ ὅπως χαίρουσιν ἐπ' ἔργοις ἥμερος ἔλθοις.
παῦσον λυσσῶσαν μανίαν πυρὸς ἀκαμάτοιο
καῦσιν ἔχων φύσεως ἐν σώμασιν ἡμετέροισιν.

[De Hefesto], fumigação: incenso em pó;

Hefesto de coração brutal, magna força, fogo infatigável,
lume em puras chamas, luzeiro nume aos mortais
lucífero artesão eterno, mão forte,
trabalhador, elemento impecável e parte do cosmo,
devorador supremo, a tudo subjuga, a tudo consome! (5)
Éter, sol, estrelas, lua, límpida luz:
esses os membros de Hefesto, que manifesta aos mortais;
Toda a casa tu possuis, toda a cidade, todos os povos;
tu habitas o corpo dos mortais, ó forte multiafortunado!
Ouve-me, venturoso, celebro-te em sacratíssimas libações,
sempre, para que venhas gentil aos nossos gratos trabalhos.
Cessa a loucura furiosa do fogo infatigável,
mantém acesa a chama da natureza em nossos corpos.

[Tradução: Rafael Brunhara]