sábado, dezembro 06, 2014

Hino Órfico 48: Sabázio

<Σαβαζίου>, θυμίαμα ἀρώματα.
Κλῦθι, πάτερ, Κρόνου υἱέ, Σαβάζιε, κύδιμε δαῖμον,
ὃς Βάκχον Διόνυσον, ἐρίβρομον, εἰραφιώτην,
μηρῶι ἐγκατέραψας, ὅπως τετελεσμένος ἔλθηι
Τμῶλον ἐς ἠγάθεον παρὰ; Ἵπταν καλλιπάρηιον.
ἀλλά, μάκαρ, Φρυγίης μεδέων, βασιλεύτατε πάντων,
εὐμενέων ἐπαρωγὸς ἐπέλθοις μυστιπόλοισιν.

De Sabázio, fumigação: ervas aromáticas

Ouve, pai, filho de Crono, Sabázio triunfante nume,
que a Baco Dioniso, taurino de amplo clamor,
na coxa costurou para que perfeito ele chegasse
ao sagrado Tmolo, junto a Hipta de bela face.
Eia, venturoso guardião da Frígia, supremo rei de tudo,
peço-te, benfazejo auxiliador: vem aos mistérios!

[Tradução de Rafael Brunhara]

Hino Órfico 47: Dioniso Periciônio

Περικιονίου, θυμίαμα ἀρώματα.


Κικλήσκω Βάκχον περικιόνιον, μεθυδώτην,
Καδμείοισι δόμοις ὃς ἑλισσόμενος πέρι πάντη
ἔστησε κρατερῶς βρασμοὺς γαίης ἀποπέμψας,
ἡνίκα πυρφόρος αὐγὴ ἐκίνησε χθόνα πᾶσαν
πρηστῆρος ῥοίζοις· ὃ δ' ἀνέδραμε δεσμὸς ἁπάντων.
ἐλθέ, μάκαρ, βακχευτά, γεγηθυίαις πραπίδεσσιν.

Do Periciônio, fumigação: ervas aromáticas.


Invoco o Baco Periciônio, doador do vinho,
que a casa de Cadmo envolvendo inteira
com força a firmou, os fervores da terra banindo
quando o ignífero raio prevaleceu sobre tudo
no rugir do furacão: os jugos de todos ele desfaz.
Vem, venturoso, báquico, com alegrias no espírito!

[Tradução: Rafael Brunhara]


sábado, novembro 29, 2014

"Primeira Ode Olímpica" (Píndaro) - Tradução de Mário Faustino

I

Água: primeiro dos bens.
                                         Mas Ouro
(chama acesa na noite) ofusca os tesouros inteiros
da altiva opulência: queres,
alma minha, cantar os Jogos?
                                               De dia não busques
Além do sol no ar deserto estrêla
mais ardente nem liça mais gloriosa,
mais cantável que Olímpia:
de lá vem a canção que estica as cordas
nos corações peritos
em celebrar-te, filho de Cronos: e êles vêm
por todos os caminhos rumo à mesa
(repleta) de Hierão.

manejador do cetro da justiça
na Sicília fecunda
e ceifeiro de todas as virtudes
em seus caules mais altos
e que sabe crescer com sua fama
pelo esplendor da música
enquanto nos deleita em mesa amiga.
                                                           Anda!
tira do gancho a lira dórica
se ainda tens o coração domado
pela Cáris de Pisa – glória de Ferênicos,
quando êste disparou (sem chicote!) nas margens
do Alfeu, rumo à vitória
do rei de Siracusa, amador de cavalos;
                                                        seu renome
esplende nessa terra de homens fortes
onde Pélops, o Lídio, foi morar,
Pélops,
          por quem se apaixonou Posêidon (o
que cinge, firme, a terra) quando Clôto
o retirou do vaso puro, o ombro
marfim luzindo.
                         Grandes maravilhas
(e verdadeiras) estas, porém quantas
Fábulas enfeitadas de mentira
encantam nossas mentes
                                    para lá da verdade...

II

Cáris,
Cáris o gênio a graça a quem devemos
Tudo o que nos encanta
devolvendo-lhe as honras, quantas vêzes
transforma em verdadeiro o que é incrível
O futuro é a melhor testemunha – e mais seguro
é dizer bem dos deuses. Pois direi
assim, filho de Tântalo (ao contrário
do que dizem os velhos) direi que
quando teu pai retribuindo aos deuses
os convidou para impecável festa
sôbre o Sipilo – monte que êles amam –
nesse dia o senhor do luminoso
tridente arrebatou-te

o coração partido de paixão. Cavalos, carros de ouro,
levou-te ao céu de Zeus aonde mais
tarde iria Ganimedes
prestar ao próprio Zeus igual serviço.
Ao desapareceres, procurando-te
os homens de tua mãe sem descobrir-te
e voltando sem ti, alguém, vizinhos
inventaram – despeito – que, cortados
a faca, tuas pernas, braços (em
água fervendo) foram já no fim
do banquete servidos e comidos.

Chamar um deus de canibal? Eu nunca!
Quem escapa ao castigo da blasfêmia?
Se mortal houve honrado pelos donos
do Olimpo, êsse foi Tântalo; só que
lambuzou-se de mel, com tanta sorte; insaciável,
provocou monstruosa punição: a pedra
enorme que lhe ergueu o pai dos deuses
sobre a cabeça, êle esperando a queda
que nunca vem e o deixa um tanto triste ...

III

Quarto suplício, junto a mais três, é acima
de suas fôrças: só por ter roubado
o nétar, a ambrosia (com que os deuses
o fizeram imortal) para dar aos amigos!

Como se engana aquêle que procura
esconder algo aos deuses ...
                                         Foi por isso
que resolveram devolver-lhe o filho
à desgraçada sorte humana. E quando
à flor da idade descobriu que o buço
o queixo começava a escurecer-lhe,
sonhou ganhar a noiva mais à mão,

Hipodaméia (filha ilustre de um
soberano de Pisa): a sós à noite ao pé
do mar grisalho o deus chamou que faz
rugir o abismo, o do tridente: e face
a face êste surgiu-lhe
                                E disse Pélops:
“Escuta aqui, Posêidon, se tiveste
algum prazer com meu amor (presentes
deleitosos de Cípris), prende a lança
de bronze de Oinomáos, e cinge-me de fôrça
e leva-me à terra do Élis em teu carro mais rápido.
O homem já matou treze heróis, treze
pretendentes, para adiar o casamento

da filha! Quem é fraco nunca enfrenta
grande perigo: mas, se a morte é certa,
por que ficar sentado à sombra, à espera
duma velhice inglória? A mim correr
o risco; a ti dar-me o triunfo”.
Falou e não perdeu seu tempo: o deus
por sua glória deu-lhe um carro de ouro
e cavalos alados incansáveis.

IV

Tendo quebrado a fôrça de Oinomáos, levou a virgem
para o leito e houve dela seis
príncipes ardorosos.
                             Ao pé do Alfeu, agora
com os mortos potentes se mistura
lá onde as multidões cercam seu túmulo
perto do altar acima
de todos venerado; mas a glória
de Pélops olha de longe lá de Olímpia
sôbre as arenas onde a ligeireza
disputa a ligeireza, a fòrça a fôrça.
(E o vencedor a vida inteira saboreia
alegria mais doce do que o mel

- pelo menos os jogos não traíram seus votos –
alegria que o dia passa ao dia
bem supremo de um homem...)

                                           Quero eu
coroar esse rei no tom eqüestre
e no compasso eólio. Pois meu canto
em seu panejamento glorioso
jamais vestirá outro que reúna
o gôsto pelo belo
e a fôrça irresistível.
Hierão, algum deus por teus desígnios
vela: fique sempre a teu lado, que mais doce
a vitória te seja em carro agílimo.
Na colina de Cronos luminosa
irei buscar o veio de louvores
dignos de celebrá-la:
                                pois a musa
para mim forja o dardo mais potente
Há grandezas de várias excelências,
a mais alta é dos reis. Não busques mais.
Pisem teus pés os cimos sempre, enquanto
a teu lado farei brilhar meu gênio
por toda parte, na vanguarda helênica.

NOTAS DO TRADUTOR

- A tradução foi feita a partir da inglêsa de Richmond Lattimore (em verso livre) e da francesa de Aimé Pucch (em prosa). Sem saber grego e sem ser um “métricien”, o tradutor, a tentar o impossível (reproduzir em português o mais complicado dos versos gregos) preferiu traduzir Píndaro em linguagem e versificação as mais atuais a seu alcance. Foi adotada, por outro lado, a orientação de alguns tradutores, inclusive de Lattimore, segundo a qual há muito de irônico nesta ode de Píndaro, mais jocosa (foi cantada pela primeira vez num banquete em honra de Hierão: não foi encomendada por êste; a encomenda, no caso, coube a Baquílide) do que pensam outros.

- Algumas anotações para a melhor compreensão do poema: foi composto para celebrar, em geral, os jogos olímpicos (donde o aparecimento do tantálida Pélops como personagem central e exemplo dado a Hierão) e, em particular, Hierão de Siracusa e seu cavalo Ferênicos, vencedores da corrida de cavalos montados nas olimpíadas de 476 antes de Cristo, ano em que foi composta a ode. Faz-se alusão, no poema, a uma vitória anterior de Ferênicos. Hierão, mais tarde, realizaria o voto expresso por Píndaro no final da ode: tanto em 470  como em 468 a.C., venceu as corridas de quadrigas, as mais ambicionadas pelos atletas gregos Lembrar também as diversas versões dos mitos de Tântalo, de Pélops e de Ganimedes, estes dois últimos amados, respectivamente, por Posêidon e Zeus (mais ou menos o Netuno e o Júpiter romanos); lembrar, em particular, que Pélops, servido no banquete aos deuses, teve um ombro comido por Demeter, sendo após reconstituído, num vaso puro, por Clôto, sendo-lhe aposto um ombro de marfim. N.B. no início da terceira tríade, Píndaro refere-se, para nós zombeteiramente, às várias versões do suplício de Tântalo, a mais recente sendo a da pedra suspensa sôbre a cabeça do condenado, ameaçando cair a qualquer momento. Há quem interprete êsses versos de outra maneira: Tântalo seria o último de quatro condenados, sendo os outros Títios, Sísifo e Íxion.

- Pisa: antiga cidade da Élida, às margens do rio Alfeu, perto do Templo de Olímpia.

- Cípris: um dos cognomes de Afrodite (Vênus).

- A ode é composta de quatro tríades: quatro estrofes, quatro anti-estrofes, quatro epodos. Era acompanhada pela “forminx”, a “lira dórica”, mencionada no poema. O esquema de metros, como sempre acontece em Píndaro, é complicadíssimo, segundo os entendidos um verdadeiro “show” de virtuosismo.
- No princípio da segunda tríade, notar o tema da beleza-verdade, verdade-beleza, comum em clássicos e românticos. Cf., especialmente, a famosa carta de Keats a Bailey sôbre o “sonho de Adão”.

- Píndaro: 518-438 a.C. o mestre do lirismo coral na Grécia.


FONTE:
Jornal do Brasil, Suplemento Dominical (03/11/1957), p.05  (disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_07)

Homero

Escrever o poema como um boi lavra o campo
Sem que tropece no metro o pensamento
Sem que nada seja reduzido ou exilado
Sem que nada separe o homem do vivido

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, outubro 28, 2014

O Artista Inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

(João Cabral de Melo Neto)

segunda-feira, outubro 06, 2014

Heike Monogatari - Poema de abertura

O Heike Monogatari ("Conto de Heike") é um romance épico japonês do séc. XIII d.C.,  que registra o confronto entre os clã Taira (Heike) e Minamoto.  O início da obra se dá com este poema de oito versos, que se distingue  dos tradicionais waka  por sua proximidade com poemas ocidentais (tanto em métrica, quanto em temas). A tradução abaixo não é direta, e toma algumas liberdades em relação ao texto original.  Ela toma como base a tradução inglesa de Helen C. McCullogh (The Tale of the Heike, Stanford, 1990),  consultando, porém, o original japonês de perto (onde um comentário pode ser lido aqui):

Em Guiôn (*),o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas, (**),
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

祇園精舎の鐘の聲、
諸行無常の響あり。
娑羅雙樹の花の色、
盛者必衰のことわりをあらはす。
おごれる人も久しからず、
唯春の夜の夢のごとし。
たけき者も遂にほろびぬ、
偏に風の前の塵に同じ。

[Tradução: Rafael Brunhara]

(*) No original, Gion Shouja, o templo situado em Gion, na Índia.

(**) No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana. 

quarta-feira, outubro 01, 2014

890 PMG e Anaxândrides (fr.142 K) em Ateneu, Deipnosophistae, 15.694e

ὑγιαίνειν μὲν ἄριστον ἀνδρὶ θνητῷ,
δεύτερον δὲ καλὸν φυὰν γενέσθαι,
τὸ τρίτον δὲ πλουτεῖν ἀδόλως,
καὶ τὸ τέταρτον ἡβᾶν μετὰ τῶν φίλων.

ᾀσθέντος δὲ τούτου καὶ πάντων ἡσθέντων ἐπ' αὐτῷ καὶ μνημονευσάντων ὅτι καὶ ὁ καλὸς Πλάτων αὐτοῦ μέμνηται ὡς ἄριστα εἰρημένου (Pl.Gorg. 451e), ὁ Μυρτίλος ἔφη Ἀναξανδρίδην αὐτὸ διακεχλευακέναι τὸν κωμῳδιοποιὸν ἐν Θησαυρῷ λέγοντα οὕτως (fr.142 K)·

ὁ τὸ σκόλιον εὑρὼν ἐκεῖνος, ὅστις ἦν,
τὸ μὲν ὑγιαίνειν πρῶτον ὡς ἄριστον ὂν
ὠνόμασεν ὀρθῶς· δεύτερον δ' εἶναι καλόν,
τρίτον δὲ πλουτεῖν, τοῦθ', ὁρᾷς, ἐμαίνετο·
μετὰ τὴν ὑγίειαν γὰρ τὸ πλουτεῖν διαφέρει·
καλὸς δὲ πεινῶν ἐστιν αἰσχρὸν θηρίον.

Saúde é o melhor para um mortal;
Em segundo lugar, bela aparência;
Em terceiro, enriquecer sem dolo;
E em quarto, ser jovem com os amigos.

Depois que ele cantou, que todos se encantaram com esse escólio, e relembraram que o belo Platão (Pl.Gorg.451e) também o mencionara como um dito excelente, Mirtilo disse que Anaxândrides, o comediógrafo, zombou dele em sua obra O Tesouro, falando assim (fr.142 K):

O sujeito que inventou o escólio, quem seja,
Que diz “Saúde primeiro, como o melhor”
Disse com acerto. Mas em segundo, ser belo,
e depois, rico – aí, vê, ele estava louco:
Depois da saúde, a riqueza se distingue,
e um belo homem, faminto, é uma besta horrível.

Tradução: Rafael Brunhara