sábado, setembro 15, 2007

Simônides de Céos

Dos que, por fim, tombaram nas Termópilas,
Bela foi a morte e cintilante a cavalgada.
Do pó destes varões o altar nasceu.
Em vez do pranto, o seu emblema foi a guerra.
Com sangue a glória se escreveu, com lágrima.
Não vão gastá-la os tempos, nem bolores.
Esta sepultura gloriosa guarda
A fama helena em toda terra, tal
Como Leônidas de Esparta a mereceu:
Qual signo de ingente valentia,
E de um destino bravo, imperecível.

(Diehl 5)

Tradução: Antônio Medina Rodrigues.

Horácio I, 3

Sic te diua potens Cypri,
sic fratres Helenae, lucida sidera,
uentorumque regat pater
obstrictis aliis praeter Iapyga,
nauis, quae tibi creditum
debes Vergilium; finibus Atticis
reddas incolumem precor
et serues animae dimidium meae.
Illi robur et aes triplex
circa pectus erat, qui fragilem truci
commisit pelago ratem
primus, nec timuit praecipitem Africum
decertantem Aquilonibus
nec tristis Hyadas nec rabiem Noti,
quo non arbiter Hadriae
maior, tollere seu ponere uolt freta.
Quem mortis timuit gradum
qui siccis oculis monstra natantia,
qui uidit mare turbidum et
infamis scopulos Acroceraunia?
Nequicquam deus abscidit
prudens Oceano dissociabili
terras, si tamen impiae
non tangenda rates transiliunt uada.
Audax omnia perpeti
gens humana ruit per uetitum nefas;
audax Iapeti genus
ignem fraude mala gentibus intulit;
post ignem aetheria domo
subductum macies et noua febrium
terris incubuit cohors
semotique prius tarda necessitas
leti corripuit gradum.
Expertus uacuum Daedalus aera
pennis non homini datis;
perrupit Acheronta Herculeus labor.
Nil mortalibus ardui est;
caelum ipsum petimus stultitia neque
per nostrum patimur scelus
iracunda Iouem ponere fulmina.


Assim a deusa poderosa em Chipre,
Assim os irmãos de Helena, brilhantes
Astros, e o rei dos ventos, só com jápis,
Prendendo os mais, te reja,

Ó nau, que és de Vergílio devedora,
Que a ti se confiou, rogo-te, o ponhas
Salvo nas terras áticas e guardes
Metade de minha alma.

Enzinho e tresdobrado bronze havia
Em torno ao peito, quem ao pego iroso
O baixel frágil cometeu primeiro;
Nem já temeu o ábrego.

Com os aquilões brigando impetuoso,
Híadas tristes, nem de Noto a raiva;
Que é de Adria o mor senhor, ou erguer queira,
Ou amainar as ondas.

Que gênero temeu de morte aquele,
Que a olhos secos viu nadantes monstros,
Que viu túrgido mar, e Acroceraunos
Infamados cachopos?

Em vão, próvido Deus com o oceano
As terras retalhou insociáveis,
Se contudo os baixéis ímpios trespassam
Os não tocandos mares.

Audaz a sofrer tudo, a gente humana
Por defesas maldades se despenha;
Audaz a prole de Jápeto às gentes
Com fraude iníqua o fogo

Trouxe: depois que o fogo à casa etérea
Se furtou, a magreza e nova tropa
De febre sobreveio à terra e o fado
Vagaroso da morte,

Dantes remota, apressurou o passo
Tentou com penas ao mortal não dadas,
Dédalo o ar vazio: o Aqueronte
Rompeu trabalho hercúleo.

Nada aos mortais é árduo: cometemos
Loucos o mesmo céu; e não deixamos
Com os nossos crimes, que deponha Jove
Os iracundos raios.

(Tradução: Elpino Duriense)

Calino e Tirteu

Calino

Até que ponto, inertes, folgareis?
Vergonha não vos dá dos que na luta
A pátria amparam, ou quereis, talvez
A paz, quando os demais no ardor se ralam?
Mesmo a morrer, a lança arremessai,
Também na morte é que se ganha a glória,
E salva é a esposa, o filho, e seus pais.
Ah, perecer, por eles, é vitória!
Então firmai a lança, e ao peito vosso
O escudo firme armai contra o rival!
Fugir, choramingar, que ninguém possa,
Ou mesmo crer-se ileso e imortal,
Ou sob a cama fique em medo ou possa
Os pares esquecer na hora fatal.
Do ser que é macho sobe sempre a fama,
O herói é o galardão do chão natal,
Diz não ao resto, quando a pátria o chama.


Tirteu


Belo é tombar em sangue um bravo herói
Que lute pela pátria lá na frente!
Em mendicância andar? Nada há pior
Que um homem se arrastar como indigente,
Ao léu seu pai e a mãe jogada às ruas,
Filhos e esposa a receber desdéns,
De todos a quem peçam de mãos nuas.
Ofende o peito, enluta a raça quem
Suporta o riso alheio e escarninho.
Se mal andamos nós sem um vintém,
E sem que um sonho bom nos encaminhe,
Morramos pela pátria, nosso bem,
Que é vil à vida assim ter um carinho.

(Traduções: Antônio Medina Rodrigues)

sexta-feira, setembro 14, 2007

Alceu 346 LP

Fúria destes ventos me entorpece:
Ou se engalfinham ondas pela proa,
Ou pelo lado a onda me aborrece,
Em negra embarcação vamos a toa,
E na tormenta o ardor então falece.
Já encobre o mastro agora um aguaceiro,
E a vela vai dançando pelo vento,
Esfarrapada, à força do salseiro,
E agora(é o fim!)cedeu o amarramento.

Tradução: Antônio Medina Rodrigues.

quarta-feira, setembro 12, 2007

A uma passante - Baudelaire

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douleur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair...puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement rena�tre,
Ne te verrai-je plus que dans l’eternité?

Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Perna de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu de seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho...e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

(Tradução: Guilherme de Almeida)

Vida dos filósofos - Heráclito

Diógenes Laércio IX, I [DK 22,1]

Heráclito, filho de Blosón (ou, conforme dizem alguns, Herakon) de Éfeso. Este homem floresceu por ocasião da sexagésima nona olimpíada. Ele era extraordinarimente arrogante e desdenhoso, como de fato se depreende claramente de seu livro, onde ele afirma "Muita erudição não confere bom senso - de outra forma, o teria conferido a Hesíodo e Pitágoras, bem como a Xenófanes e Hecateu". (...) Por fim, tornou-se um misantropo, abandonando a cidade para viver nas montanhas, onde alimentava-se de plantas e ervas. Porém, em conta disso, contraiu hidropisia e regressou à cidade. Perguntou aos médidos, à maneira de um enigma, se conseguiriam transformar uma copiosa tempestade em seca. Como estes não o compreendessem, enterrou-se em um estábulo, na esperança que a hidropisia fosse evaporada pelo calor do estrume. Porém mesmo assim não logrou êxito, e morreu aos sessenta anos.

Comentários:
A informação de que Heráclito viveu seu apogeu aos quarenta anos, à época da sexuagésima nona olimpíada, foi, sem sombra de dúvidas, extraída do historiógrafo Apolodoro: A meia-idade de Heráclito é situada aproximadamente quarenta anos após Anaxímenes ter alcançado o seu apogeu e a partida de Xenófanes de Cólofon. (Confome afirma Sócion [Diog. L. IX, 5, DK22 AI) algumas pessoas diziam que Heráclito ouviu os ensinamentos de Xenófanes. Supor que havia alguma influência provavelmente seria o bastante, mas o tom crítico do fr.40, citado acima, não sugere uma relação formal entre mestre e discípulo). Não há motivo para suspeitar da datação de Apolodoro, visto que Heráclito mencionou Pitágoras e Hecateu assim como Xenófanes, e foi, talvez, aludido indiretamente por Parmênides. Tentativas de situar a atividade filosófica de Heráclito posteriormente à datação de Apolodoro foram sabiamente propostas após 478 A.C ( e ainda, mais improvável, em consequência de Parmênides) contudo, não tiveram aceitação e sustentam-se em hipóteses implausíveis, tais quais que a ausência de um governo autonômo (Sugerida pela afirmação do fr.121, de que os efésios exilaram Hermodoro, amigo de Heráclito) seria possível em éfeso antes de sua liberação pela Pérsia, em 478. Heráclito pode ter vivido mais do que os sessenta anos de Apolodoro (na mesma idade em que também teriam morrido Anaxímenes e Empédocles, conforme afirma Aristóteles); Todavia, nós podemos provisoriamente aceitar que ele estava em sua meia-idade no fim do sexto século e que sua grande atividade filosófica encerrou-se por volta de 480.

O resto do fr.40 é citado como exemplo do tipo de ficção biográfica que proliferou-se em volta do nome de Heráclito. Diógenes também nos conta que Heráclito recusou-se a criar leis para os Efésios, preferindo brincar com crianças no templo de Àrtemis. Grande parte destas histórias são baseadas em ditos notórios de Heráclito; muitas tencionavam ridicularizá-lo e foram criados com propósitos mal-intencionados por helênicos ofendidos por seu tom superior. Por exemplo, sua misantropia deduz-se por suas críticas à maioria dos homens , o vegetarianismo por menção à uma contaminação do sangue, e a hidropisia por sua asserção "É a morte para as almas tornar-se água". Ele era conhecido por propor enigmas obscuros, o que teria lhe custado a vida: Os médicos, a quem ele aparentemente critica no fragmento 58, nada fazem para salvá-lo; É dito que enterrou-se no estrume porque dissera no fr.96 que "os cadáveres são mais desprezíveis que estrume". "Ser exalado" refere-se a sua teoria das exalações do mar. Os únicos detalhes a respeito da vida de Heráclito que podem seguramente ser aceitos como verdadeiros são de que ele passou-a em Éfeso, que veio de uma antiga família aristocrática, e que estava em maus termos com seus conterrâneos.

As litanias de Satã - Baudelaire

O toi, le plus savant et le plus beau des Anges,
Dieu trahi par le sort et privé de louanges,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Ó Prince e l'exil, à qui l'0n o fait tort,
Et qui, vaincu, toujouurs te redresses plus fort,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi, qui sais tout, grand roi des choses souterranies,
Guérisseur familier des angoises humaines,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, même aux léprex, aux paria maudits,
Enseignes par l'amour le goût du Paradis,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

O toi, qui de la mort, ta vieille et fort amant,
Engendras l'Espérance - une folle charmante!

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi, qui fais au proscrit ce regard calme et haut
Qui damne tout un peuple autour d'un échafaud,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi, qui sais en quel coin des terres envieuses
Le Dieu jaloux cacha les pierres précieuses,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi dont l'ceil clair connaît les profonds arsenaux
Où dort enseveli le peuple des métaux,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi dont la large main cache les précipices
Au sonambule errant au bord des édifices,

O satan prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, magiquemente, assouplis les vieux os
De l'ivrogne attardé foulé par les chevaux,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi qui, pour consoler l' homme frêle qui soufre,
Nous appris à mêler le salpêtre et le soufre,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi qui poses ta marque, ô complice subtil,
sur le front du Crésus impitoyable et vil,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Toi qui mets dans les yeux et dans le coeur des filles
Le cult de la plaie et l'amour des guenilles,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Bâton des exilés, lampe des inventeurs,
Confesseur des pendus et des conspirateurs,

O Satan prends pitié de ma longue misère!

Père adoptif de ceux qu'en sa noire colère
Du paradis terrestre a chassés Dieu le Père,


O Satan prends pitié de ma longue misère!

PRIÈRE

Glorie et louange à toi, Satan, dans les hauters
Du Ciel, où tu régnas, et dans les profounders
de l'Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!
Fais que mon âme, um jour, sous l'arbre de Science,
Près de toi se repose, à l'heure où sur ton front,
Comme un temple nouveau ses rameaux s'epandront!


Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que mesmo ao leproso, ao pária infame, ao réu,
Ensinas pelo amor as delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - A louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar,
Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas
o Deus ciumento esconde as pedras preciosas,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cujo claro olhar conhece os arsenais
Onde dorme sepulto o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que abrindo a alma e o olhar das raparigas, a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre,
o Deus Padre, expulsou do paraíso terrestre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do Céu, em que reinaste, e nas escuridões
do Inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti, sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um templo novo a se estender!

Tradução: Guilherme de Almeida.