quinta-feira, março 19, 2026

Shakespeare - Soneto 116

 Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
 
 
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.


Tradução de Geraldo Carneiro

Fonte: Carneiro, Geraldo. O Discurso do Amor Rasgado: Poemas, Cenas e Fragmentos de Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. 

quarta-feira, março 18, 2026

Rainer Maria Rilke - O Poeta


 Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
 Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
 Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
 fica mais rico e me devora.

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
 keine Stelle, auf der ich lebe,
 Alle Dinge, an die ich mich gebe,
 werden reich und geben mich aus.


Tradução: Augusto de Campos

Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020

terça-feira, março 17, 2026

Ricardo Reis

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

segunda-feira, março 16, 2026

 Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hilda Hist

I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão

domingo, março 15, 2026

Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor

 Tenho sofrido
Penas menores.
Maiores
só as de agora:
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se não morre
Também não sabe
Viver calado.

Morrer não há de.
Calar não pode.
Sabe morrer
Quem morre
Se não nos vê?
Sabe calar
A que nasceu
Somente
P'ra vos cantar?

Tenho sofrido
Porque de amor
Tenho vivido.
Amor tão grande
Tão exaltado
Que se o perdesse
Nada seria
Mais cobiçado.

Hilda Hilst
[XI, Trovas de muito amor para um amado senhor]

sábado, março 14, 2026

Hilda Hilst

 As asas não se concretizam.

Terríveis e pequenas circunstâncias

Transformam claridades, asas, grito

Em labirinto de exígua ressonância.


Os solilóquios de amor não se eternizam.


E no entanto, refaço minhas asas

Cada dia. E no entanto, invento amor

Como as crianças inventam alegria.


[18, Roteiro do Silêncio]

sexta-feira, março 13, 2026

Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga

 (...) 

e não demora estou diante da igreja

de nossa senhora das dores --

inclino meu pescoço para cima

finco os pés no primeiro degrau

da escadaria que se estende feito um muro

erguido numa diagonal pixelada

e não tenho amparo contra sua beleza

e alguma coisa em mim

há muito contida

rompe minha valerosa armadura

e subo os degraus sozinho

(os cães se sabem desnecessários)

e isto não é apenas um blues -- 

meus olhos ardem e 

alguma coisa feito um blues

feito umidade quente flui 

extraída à força pelas arcadas brancas

pelo círculo ao topo da fachada

quero chamar de patético o soluço

mas o soluço é mais rápido que a retórica

meus pés sobem mais dois lances

e depois mais dois e talvez o erro

seja acreditar em um sentido

esperar por um milagre no refrão

quando os pés não esperam nada

ladeira abaixo na madrugada

escada acima agora eles fluem

em direção à balaustrada de pedra

até que desprovido de todas as preces usuais

aquele que era incapaz de crer

crê

na beleza que flui --

a beleza

e minhas lágrimas

finalmente

fluem. 

quinta-feira, março 12, 2026

Lírica Trovadoresca Alemã

 Tu és meu, sou tua também,

cuida disso e lembra bem.

No meu coração

permaneces trancado 

-- perdida está a chavezinha,

de lá não serás livrado.


Canção Anônima Trovadoresca Alemã. Tradução de J.Carlos Teixeira in: O Ramo de Tília. Poesia Trovadoresca Alemã dos Séculos XII e XIII. 

quarta-feira, março 11, 2026

Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)

Ἐλθοῖσαι ποτὶ ναὸν ἰδώμεθα τᾶς Ἀφροδίτας 
τὸ βρέτας, ὡς χρυσῷ διαδαλόεν τελέθει. 
 εἵσατό μιν Πολυαρχίς, ἐπαυρομένα μάλα πολλὰν
 κτῆσιν ἀπ᾽ οἰκείου σώματος ἀγλαΐας.

Viemos ao templo ver a estátua 
    de Afrodite, como é forjada em ouro.
 Poliácris a ergueu e desfrutou de muitos 
    bens, graças ao esplendor do corpo dela.

Tradução de Clara Sperb

Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS. 

terça-feira, março 10, 2026

Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...

 θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,                              5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,                                     5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.


Tradução: Rafael Brunhara

Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021. 

segunda-feira, março 09, 2026

Inspiração

 "Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos e frios de
crudelíssimo inverno."

Fr. Luís de Sousa

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América! 

Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922. 

domingo, março 08, 2026

Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)

 Homenageando o nada ao léu,
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.


Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?

Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:

perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...

Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]

sábado, março 07, 2026

Biodiversidade - Paulo Henriques Britto

 Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Fonte: Britto, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 

sexta-feira, março 06, 2026

Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos

Anímula vágula blândula hóspede e 
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.

 Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
 Pallidula, rigida, nudula,
 Nec, ut soles, dabis iocos.

(14/07/2004)

Fonte: Carvalhal, T.F.; Rebello, L. Ferreira, E.F.C. (org.) Transcriações - Teorias e Práticas. Porto Alegre: Evangraf, 2004. 

quinta-feira, março 05, 2026

OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)

 ""No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica

e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de 
falso em si próprio -- uma postura cínica, 

talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artífício
desmistifica-se para o "leitor-

irmão..." Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o 
mesmo -- não, disse mais -- muito melhor. 

Fonte: BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

quarta-feira, março 04, 2026

Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho

Armas, em ritmo grave, e guerras violentas, 
 matéria afim ao metro, ia cantar. 
O verso seguinte era igual; Cupido rindo 
- dizem -, porém, surrupiou-lhe um pé. 
“Quem te deu poder sobre o canto, atroz menino? 
 Vate das Musas sou, não de teu séquito. 
Vestisse Vênus armas da loura Minerva, 
tochas acesas esta brandiria? 
Quem aprova que Ceres reine em altas selvas 
e os campos sigam leis da arqueira virgem? 
 Quem, a Febo de bela coma, em lança aguda, 
e a Marte, em lira aônia, instruiria? 
 Menino, os teus domínios são demasiados, 
para que ambicionas novos feitos? 
 Acaso, tudo é teu? Até o vale do Hélicon?
 Febo, a custo, é senhor de sua lira. 
Mal o primeiro verso aponta em nova página,
 O seguinte extenua as minhas forças. 
E me falta matéria pra ritmos ligeiros, 
 moço ou moça de longa cabeleira”. 
Me lamentava, quando o tal, abrindo a aljava, 
pegou os dardos pronto a me ferir, 
 o curvo arco retesou sobre o joelho 
 e disse: “eis, vate, assunto pra cantares!” 
 Ai de Mim! Certas são as setas do menino! 
Ardo, e no peito vago reina Amor. 
Com seis pés vem-me o verso, com cinco se abranda! 
 Adeus, guerras; adeus, ritmos de ferro! 
Com mirto litorâneo cinge as louras têmporas, 
Musa, a ser modulada em onze pés.

Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010. 

terça-feira, março 03, 2026

George Trakl - "O Sol"

 O SOL


Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.

O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.

A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.

Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.


Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]

segunda-feira, março 02, 2026

Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira

 Chorai, Amores, Vênus e quem for
sensível à beleza neste mundo.
Morreu o pássaro de minha amiga,
o deleite de minha amiga, o pássaro,
a quem amava mais que aos próprios olhos.
Ele era um mel e conhecia a dona
tão bem quanto uma filha à própria mãe.
Não se afastava de seu colo, mas
de um lado e de outro saltitava, só
pipiando aos ouvidos da senhora.
Agora segue a via tenebrosa,
lugar sem volta -- como nos afirmam.
Devoradoras da beleza, trevas
malditas, vos amaldiçoo! Belíssimo
pardal me arrebatastes! Que desgraça!
Pobre pardal! Agora os olhinhos
inchados da minha menina estão
vermelhos de chorar e és o motivo.

Fonte: Catulo e Horácio, Uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025. 

domingo, março 01, 2026

Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira

Versão 1

Pardal, prazer da minha namorada,
que a entretém retido em seu peito,
a quem destina a ponta de um dos dedos
a fim de que o biques cruelmente,
quando ela, meu desejo fulgurante,
ama brincar com algo agradável,
alívio paliativo à sua dor,
querendo (creio) apaziguar o ardor,
pudesse me distrair como ela faz
contigo, sem turvar-me o triste afã.

---

Versão 2

Pássaro, distração do meu amor,
lúdico passatempo em seu colo,
ao teu ataque oferta o ponto extremo
do dedo, objeto de bicadas acres,
quando à fulguração do meu querer
apraz brincar com algo que encarece
e traga algum alívio à sua dor,
quem sabe acalmar o ardor do amor,
pudera me entreter como tua dona,
tornar mais leve o afã que abate a ânima. 

Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025.