terça-feira, março 24, 2026
O Primeiro Degrau - Konstantinos Kaváfis
quinta-feira, março 19, 2026
Shakespeare - Soneto 116
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento
E se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no, it is an ever fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand’ring bark,
Whose worth’s unknown although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to edge of doom.
If this be error and upon me proved,
O never writ, nor no man ever loved.
quarta-feira, março 18, 2026
Rainer Maria Rilke - O Poeta
Fonte: CAMPOS, Augusto. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2020
terça-feira, março 17, 2026
Ricardo Reis
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
segunda-feira, março 16, 2026
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hist
I, Júbilo e Memória, Noviciado da Paixão
domingo, março 15, 2026
Hilda Hilst - XI, Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor
Amor tão grande
Morrer não há de.
Mais cobiçado.
sábado, março 14, 2026
Hilda Hilst
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios de amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
[18, Roteiro do Silêncio]
sexta-feira, março 13, 2026
Porto Alegre Blues - Pedro Gonzaga
(...)
e não demora estou diante da igreja
de nossa senhora das dores --
inclino meu pescoço para cima
finco os pés no primeiro degrau
da escadaria que se estende feito um muro
erguido numa diagonal pixelada
e não tenho amparo contra sua beleza
e alguma coisa em mim
há muito contida
rompe minha valerosa armadura
e subo os degraus sozinho
(os cães se sabem desnecessários)
e isto não é apenas um blues --
meus olhos ardem e
alguma coisa feito um blues
feito umidade quente flui
extraída à força pelas arcadas brancas
pelo círculo ao topo da fachada
quero chamar de patético o soluço
mas o soluço é mais rápido que a retórica
meus pés sobem mais dois lances
e depois mais dois e talvez o erro
seja acreditar em um sentido
esperar por um milagre no refrão
quando os pés não esperam nada
ladeira abaixo na madrugada
escada acima agora eles fluem
em direção à balaustrada de pedra
até que desprovido de todas as preces usuais
aquele que era incapaz de crer
crê
na beleza que flui --
a beleza
e minhas lágrimas
finalmente
fluem.
quinta-feira, março 12, 2026
Lírica Trovadoresca Alemã
Tu és meu, sou tua também,
cuida disso e lembra bem.
No meu coração
permaneces trancado
-- perdida está a chavezinha,
de lá não serás livrado.
Canção Anônima Trovadoresca Alemã. Tradução de J.Carlos Teixeira in: O Ramo de Tília. Poesia Trovadoresca Alemã dos Séculos XII e XIII.
quarta-feira, março 11, 2026
Nóssis (Antologia Palatina, 9, 332)
Tradução de Clara Sperb
Fonte: ANTUNES, CLB; BARACAT JR., J.C.; BRUNHARA, R. Cadernos de Tradução 44: Flores da Antologia Grega. Porto Alegre: RS, IL/UFRGS.
terça-feira, março 10, 2026
Arquíloco, 128 W: Coração, Coração...
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο, 5
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes, 5
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.
Tradução: Rafael Brunhara
Fonte: Brunhara, R.; Ragusa, G. Elegia Grega Arcaica: uma antologia. São Paulo: Mnema/Ateliê, 2021.
segunda-feira, março 09, 2026
Inspiração
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris...Arys!
Bofetadas líricas no Trianon...Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
Mário de Andrade in: Pauliceia Desvairada, 1922.
domingo, março 08, 2026
Paul Valéry - O Vinho Perdido (Trad. Nelson Ascher)
joguei, malgrado mal lembrar
quando é que foi ou sob qual céu,
gotas de vinho raro ao mar.
Quem quis, licor, ver-te desfeito?
Seguia eu ordens do adivinho?
Talvez o anseio que, em meu peito,
sonhava sangue ao verter vinho?
Um vapor róseo ergueu-se até
que, pura, o mar reouve tal qual
sua transparência habitual:
perdido o vinho, ébria a maré!...
Vi no ar amargo mais e mais
formas lançarem-se abissais...
Tradução de Nelson Ascher in "Um Pouco de Tudo". Link: Folha de S.Paulo - Nelson Ascher: Um Pouco de Tudo - 11/09/2006. [Acessado em 27 de fevereiro de 2026]
sábado, março 07, 2026
Biodiversidade - Paulo Henriques Britto
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
sexta-feira, março 06, 2026
Animula Vagula Blandula - Tradução de Ivan P. de Arruda Campos
amiga corpórea para onde agora?
lugares pálidos gélidos lunares...e
não mais nos dás logojogos.
quinta-feira, março 05, 2026
OP.CIT., PP.164-165 (Paulo Henriques Britto)
uma tensão entre a necessidade
quarta-feira, março 04, 2026
Ovídio - Amores 1, 1 - Tradução de Raimundo Carvalho
Fonte: CARVALHO, Raimundo. Metamorfoses em Tradução. Relatório de pós-doutoramento. São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2010.
terça-feira, março 03, 2026
George Trakl - "O Sol"
O SOL
Serra acima o sol diário surge fulvo.
Formoso é o bosque, a fera escura,
E, cace ou pastoreie, o homem.
O peixe da água verde assoma rubro.
Debaixo do céu côncavo,
O pescador, num barco azul, desliza.
A uva sazona, e o trigo.
Conforme o dia plácido se encerra,
Algo de bom se engendra e algo de ruim.
Chegada a noite,
O forasteiro soergue pálpebras pesadas;
Sombrio abismo afora o sol irrompe.
segunda-feira, março 02, 2026
Catulo 3 - Trad. Trajano Vieira
Morreu o pássaro de minha amiga,
Não se afastava de seu colo, mas
Pobre pardal! Agora os olhinhos
domingo, março 01, 2026
Catulo, 2 - Trad. Trajano Vieira
Pássaro, distração do meu amor,
Fonte: Catulo e Horácio, uma Antologia. São Paulo: Ateliê, 2025.