A Teócrito queixava-se
um dia o jovem poeta Êumenes:
“Há dois anos que escrevo
e fiz um idílio somente.
É minha única obra acabada.
Ai de mim, é alta, vejo-o,
muito alta a escada da Poesia;
e deste primeiro degrau em que estou
jamais subirei, infeliz que sou”.
Disse Teócrito: “Essas palavras
são inadequadas e são blasfêmias.
E se estás no primeiro degrau, deves
estar orgulhoso e feliz.
Aqui aonde chegaste não é pouco;
quanto fizeste, grande glória.
E mesmo este primeiro degrau
dista muito das pessoas comuns.
Para que pises neste degrau
é preciso que sejas, de pleno direito,
cidadão na cidade das ideias.
E naquela cidade é difícil
e raro que te inscrevam como cidadão.
Em sua ágora encontras Legisladores
aos quais não engana nenhum aventureiro.
Aqui aonde chegaste não é pouco;
quanto fizeste, grande glória.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca
Eumene, poeta ainda jovem:
“Faz dois anos que escrevo e até agora
compus apenas um idílio.
Esse, o meu único trabalho pronto.
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta,
deveras alta, a escada da Poesia.
Estou no primeiro degrau: jamais,
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
“Essas palavras”, respondeu Teócrito,
“são um despropósito, blasfêmias.
Se estás no primeiro degrau,
cumpria
te sentires feliz e envaidecido.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.
Do primeiro degrau da mesma escada
está bem distante o comum das pessoas.
Para pisar esse degrau de ingresso,
necessário é que sejas, por direito,
cidadão da cidade das ideias –
um título difícil: raramente
fazem-se ali naturalizações.
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.
Tradução de José Paulo Paes
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