quarta-feira, dezembro 31, 2025

Ferreira Gullar - Ano Novo

 Meia-noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.


Olho o céu:

o abismo vence o 

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea, feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça:

nada ali indica

que um ano novo começa


E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.


Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

                   estelar

                    que sonha

                     (e luta)


Ferreira Gullar in: Toda Poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2021.

domingo, dezembro 21, 2025

Receita Caseira (Jaa Torrano)

 Os poetas de minha terra

na idade da suspicácia

não pensam que se faça

poesia com sabedoria,

mas com raios à espreita

atrás das imprevisíveis

curvas de cada verso.


Jaa Torrano, in: Divino Gibi, Crítica da Razão Sapiencial in: Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo, Cotia: Ateliê Editorial, 2025. 

terça-feira, dezembro 16, 2025

Odysseia

Pesam os meus dias os remoinhos de Posídon,

vigílias em terras inimigas e os caminhos úmidos.

Paz em Ítaca que ainda não tive

deve ser algo terrível.


Como suportaria a paz pré-tumular em meu lar,

banido do convívio com o inimigo

e exilado das regiões que os meus olhos jamais viram?


Ainda que a Deusa me desse ambrosia

e vida imortal para eu gozar o seu amor

no umbigo do mar,


que alegria eu teria

se não mais visse

o dia que até o ver o desconhecia?


Jaa Torrano. A Esfera e os Dias. In: Solidão Só Há de Sófocles. São Paulo: Ateliê Editorial, 2025.  

domingo, dezembro 14, 2025

Eu sou trezentos...

 (7.VI.21929)


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Oh espelhos, ôh! Pireneus! ôh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!


Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos taxís, nas camarinhas seus próprios beijos!


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo. 


Mário de Andrade. Poesias Completas. São Paulo: Martins; Brasília: INL, 1972. 

quarta-feira, novembro 12, 2025

Um Velho - Konstantinos Kaváfis

Tradução de José Paulo Paes:

No meio do café ruidoso, sem ninguém
 por companhia, está sentado um velho.Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.

 Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloqüência, beleza.

Sabe que envelheceu bastante. 
Vê, conhece.. No entanto, o seu tempo de moço lhe parece
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco…

Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!

Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
 que cada ocasião perdida agora escarnece.

 Porém, tanto pensar, tanta recordação,
 põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
 daquele café, debruçado, ele adormece.

Fonte: Konstantinos Kaváfis. Poemas. Seleção, estudo crítico, notas e tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006. 


Tradução de Ísis Borges da Fonseca:

No interior do café ruidoso,
inclinado sobre a mesa, está sentado um velho;
com um jornal à sua frente, sem companhia.

E no menosprezo da velhice miserável
pensa quão pouco fruiu dos anos
em que tinha a força, o verbo e a beleza.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, observa-o.
E entretanto o tempo em que era jovem se lhe afigura
como ontem. Que breve espaço, que breve espaço!

E medita como a Prudência o enganava;
e como sempre confiava nela -- que loucura!--
a mentirosa que dizia: "Amanhã. Tens muito tempo".

Lembra-se dos ímpetos que reprimia; e quanta
alegria sacrificava. Cada oportunidade perdida
zomba agora de sua prudência insensata.

...Mas por muito pensar e recordar,
o velho atordoou-se. E adormece,
apoiado na mesa do café. 

Fonte: Konstantinos Kaváfis. Poemas de K.Kaváfis. Tradução, estudo e notas de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus, 2006. 

Catulo (Traduções de J.H.Dacanal)

 5

Vivamos, Lésbia minha, e amemos,

E os murmúrios todos dos velhos rabugentos

(Todos) de um tostão ter valor julguemos.

Os astros morrer e tornar podem, 

A nós, quando uma vez a breve luz se apaga,

Perpétua noite dormir imposta é.

Mil beijos dá-me, depois cem,

Depois mil outros, depois de novo cem,

Depois até outros mil, depois cem.

Depois ,quando contados muitos mais tivermos,

Os confundamos, para que não saibamos

Ou para que alguém mau invejar não possa

Quando souber (qual) o tanto de beijos ser. 

Vivamus mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

109


Que terno e eterno seja

Entre nós este nosso amor

Vida minha, me propões! 

Ó, grandes deuses, fazei com que ela

Verdadeiramente prometê-lo possa,

E dizê-lo de coração sincero,

Para que nos permitido seja

Por toda a vida manter

Este perpétuo laço de santa amizade!

Iucundum, mea vita, mihi proponis amorem
 hunc nostrum inter nos perpetuumque fore.
 di magni, facite ut vere promittere possit, 
atque id sincere dicat et ex animo,
 ut liceat nobis tota perducere vita
 aeternum hoc sanctae foedus amicitiae.

Fonte: DACANAL, J.H. O que é Narrar? - E outros Ensaios. Porto Alegre: Besouro Box, 2021. 


J.H.Dacanal é jornalista e professor desde 1965, formado em Letras e Ciências Econômicas.

terça-feira, abril 01, 2025

Um Poeta Clássico (Sophia de Mello Brayner Andresen)

 UM POETA CLÁSSICO

Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos