quarta-feira, dezembro 31, 2025

Ferreira Gullar - Ano Novo

 Meia-noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.


Olho o céu:

o abismo vence o 

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea, feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça:

nada ali indica

que um ano novo começa


E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.


Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

                   estelar

                    que sonha

                     (e luta)


Ferreira Gullar in: Toda Poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2021.

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