sexta-feira, março 28, 2008

Píndaro - Primeira Ode Pítica

Khryséa phórmincs

Lira de ouro, bem comum
de Apolo e das Musas de trança violeta:
os passos de dança, princípio de júbilo,
te escutam, os aedos
obedecem teu sinal
quando pulsas vibrada os primeiros compassos
dos prelúdios condutores de coros.
Consegues apagar o pontiagudo raio
de fogo semprefluente. Sobre o cetro de Zeus
adormece a águia,
que recolhe de um flanco e de outro suas asas rápidas,
rainha dos pássaros.
Toldas sua cabeça em gancho de uma névoa escura,
doce claustro das pálpebras; possuídas por teus sons
ela crispa no sono o dorso flexível.
E mesmo o violento Ares
rejeitando a rudeza das armas
arrefece o coração que dorme. Sábios,
teus dardos aplacam o íntimo da alma dos deuses
por arte do filho de Latona
e das Musas vestidas de dobras sinuosas.

Porém todos os que Zeus desamou
estremecem ouvindo o clamor
sonoro das Piérides
na terra ou no mar indomável.
Assim aos deuses adverso
Tífon o de cem-testas
jaz, no terrível Tártaro.
Nutriu-o outrora a cilícia
gruta polinome
e agora as escarpas que o mar rebatem
sobre Cumas
e a Sicília
esmagam-lhe o peito de saliente felpa.
O Etna, todo neve, nutriz dos gelos cortantes,
pilar do céu,
o detém.

Fontes de um fogo inacessível
puríssimas rebentam-lhe
da mais interna entranha.
E rios de dia vazam
abrasadas torrentes de fumaça.
E púrpura na treva
uma chama rolando
repulsa ao mar profundo
um tumulto de pedras.
O monstro ali está. Ele é quem jorra
os fachos de Hefesto, aterradores.
Prodígio de se ver. Prodígio ainda
senão de ver, de ouvir de quem já viu.
Assim no Etna entre o píncaro
(folhas negras) e o plaino
preso
ele jaz,
numa cama de pontas
descarnando as costas contrapostas.
Dá-nos, Zeus, a graça de agradarmos
a ti, dominador dessa montanha
fronte e frente de uma terra fértil:
a cidade vizinha um fundador ilustre
ilustrou-a em seu nome
e o arauto o proclamou na arena pítica
celebrando Híeron na corrida de carros
belo de vitória.
Ao navegante principiando a viagem
primeiro prêmio é um vento favorável
que ao cabo prenuncia um propício retorno.
Pensar no que passou promete a esta cidade
por igual um porvir glorioso de corcéis
e coroas de festa
e um nome renomeado em canoros triunfos.
Dono de Lícia e Delos, Febo,
amador da castália fonte do Parnaso,
que este augúrio te agrade e faças desta terra
um solo fértil de heróis.

Da máquina dos deuses
procedem as virtudes dos mortais:
ciência, vigor dos pulsos, fala fácil, tudo
eles engendram.
Meditando o louvor deste herói,
espero não lançar fora da liça
o dardo de brônzeo topo suspenso em minha mão,
mas no extenso arremesso ultrapassar os meus contrários.
Que o restante do tempo lhe promova
um próspero porvir, o pleno dom dos bens
e o olvido das penas.
Ele há de rever-se nas batalhas
- coração de coragem - resistindo,
e pela mão dos deuses vencedor.
Heleno algum colheu igual seara,
orgulhosa coroa de conquistas.
Agora segue o exemplo a Filoctetes
quando se lança à luta. No nó do necessário,
mesmo o soberbo suplica o seu favor.

Quase-deuses heróis (dizem) a Lemnos
vieram e levaram o filho de Póias,
o arqueiro, que uma chaga afligia.
E ele destruiu a cidade de Príamo,
pôs um fim aos trabalhos dos Dânaos:
o destino movia-lhe os membros malseguros.
Assim a divindade
dirija reto Híeron
pelos dias que avançam passo lento,
sempre a tempo lhe dando o que mais queira.
Atende, Musa, e junto a Dinomedes
vem celebrar a esplêndida quadriga
no prêmio de vitória.
Que não se alheia o filho ao júbilo paterno.
Vem, inventa comigo
um canto caro ao soberano de Etna.

Para ele Híeron fundou esta cidade
seguindo à risca os preceitos de Hilos,
com liberdade, divino edifício.
Dorianos,
os descendentes de Pânfilo,
e também os da estirpe de Hércules,
que habitam junto às penhas do Taígeto,
querem preservar perenes os princípios de Egímios.
Levantando-se do Pindo,
afortunados tomaram Amiclas,
agora - profundos de glória -
vizinhos dos Tindáridas de cavalos brancos.
E floresceu a fama da ponta de suas lanças!
Zeus,
perfazedor!
Junto às águas do Amenas,
que a palavra dos homens para sempre assegure
aos cidadãos e aos reis um tão nobre destino.
Com teu respaldo o príncipe
seguido pelo filho
na honra dirija o povo para a concorde paz.
Filho de Cronos,
eu te peço um aceno de cabeça:
aprova que o Fenício se aplaque em sua morada,
contém o alarido de guerra do Tírseno,
Lamentando navios por seu desplante,
eles revêem o infortúnio de Cumas.
Que revés!
Do alto dos navios de proa rápida,
seus jovens eram jogados ao mar,
domados pelo senhor de Siracusa
que redimia Hélade da servidão mais dura.
Meu salário será por Salamina
a glória dos Atenienses;
em Esparta cantarei a batalha de Citéron,
derrota para os Medas de arcos recurvos;
mas à margem do Hímera de águas copiosas
cumpro meu hino aos filhos de Dinomedes,
prêmio por seu valor
quando bateram o inimigo.

Se falas o justo no momento justo
e tens as cordas do muito retensas na curva do breve,
a censura dos homens pouco te persegue.
O tédio saciado embota a ávida espera.
No ouvido de cada um,
no coração calado,
pesa a demasia da ventura alheia.
Preferível porém o ciúme à compaixão:
por isso não te detenhas no curso do que é belo.
Preciso no leme, governa o povo,
forjando na bigorna da verdade uma linguagem de bronze.
Uma frívola faísca de nada
avulta, vinda de ti.
Árbitro de muitos, muitos,
- no bem ou no mal -
atestam fiéis os teus atos.

Guarda em beleza a flor do teu caráter.
Se amas sempre ouvir o que é doce de ouvir
não te canses de ser generoso:
como o bom piloto, livra a vela ao vento.
Amigo, não te iluda a isca do lucro fácil.
Aos oradores e poetas
somente o renome além-morte ressoando
revela os fatos dos que foram.
Cresus, alma aberta, não perece.
Mas Fálaris, coração cruel,
torrava suas vítimas no búfalo de cobre;
por toda a parte o ódio cerca sua memória.
Nenhuma lira sob os telhados
nenhuma o recorda,
para o suave acorde das vozes de crianças.
Primeiro bem: boa fortuna.
Segundo: bom nome.
O homem que a ambos recolhe,
colhe a suprema guirlanda.

Haroldo de Campos

4 comentários:

rusvel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rusvel disse...

Amigo blogueiro classicista, gostaria de dar os parabéns pela iniciativa de fazer este blog tão helênico e poético ao mesmo tempo. Mas gostaria de sugerir algo também. Se você pudesse colocar as fontes de onde está tirando as traduções, isso ajudaria os leitores a procurar os livros. Um abraço e parabéns.

rusvel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonardo T. de Oliveira disse...

Acabo de encontrar este blog por acaso, e venho registrar meu entusiasmo. Parabenizo o autor pela organização do material ofertado, e pelas fontes de consciência e interesse no que se refere à tradução, à abordagem da poesia lírica fora da sua língua de partida. Estarei sempre de olho por novidades.

[]'s.