Eternidade:
Incomunicável
Teu sorriso não era de fraude
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
Eternidade,
in: A falta que ama (1968)
O muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama
Calíope não têm por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
às telas de ouro fino e que o cantassem
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito;
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta ou por outra qualquer via
Não perderá seu preço e sua valia.
| Obras do grande Luis de Camões, principe dos poetas heroycos, & lyricos de Hespanha, novamente dadas a luz com os seus Lusidas, 1720. |
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
| Mário de Andrade - 1922 (Tarsila do Amaral) |
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há-de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Este poema poderia
ser entendido como uma abertura a um livro de poemas de Catulo. Entretanto, não
sabemos ao certo como tal livro estava estruturado e ao que o poeta estava se referindo com a palavra libellus (livrinho). Os
poemas que nos restaram podem ser divididos em três grandes grupos: os de metros variados (1-60); os
poemas longos (61-68) e os poemas elegíacos (69-118). Pode-se pensar, então, que a
coleção de que dispomos hoje seria a reunião de três libelli distintos.
Pra
quem dedico charmoso e novo livrinho
com
seca pedra-pomes polido há pouco?
Pra
você, Cornélio, pois você costumava
ver
alguma coisa nas minhas ninharias,
mesmo
quando ousou, único na Itália, [5]
explicar toda a história em três volumes
bem
doutos e –meu Deus!– tão trabalhosos.
Por
isso, toma pra você um mero livrinho,
qual seja seu valor; Virgem Patrona,
que ele dure sem fim por mais de um século! [10]
[trad. Rafael Brunhara]
Cui
dono lepidum novum libellum
arida
modo pumice expolitum?
Corneli,
tibi: namque tu solebas
meas
esse aliquid putare nugas.
Iam
tum, cum ausus es unus Italorum
omne
aevum tribus explicare cartis . . .
Doctis,
Iuppiter, et laboriosis!
Quare
habe tibi quidquid hoc libelli—
qualecumque,
quod, o patrona virgo,
plus
uno maneat perenne saeclo!
1. lepidum novuum (“charmoso novo”) . Palavras-chave da poética catuliana. O poeta não está falando só da aparência do livro, mas também do conteúdo dos poemas, repletos de lepos (charme, sagacidade, elegância) e de inovações em relação às tradições poéticas pregressas. Libellum (“livrinho”): o poeta se vale constantemente de aliterações e diminutivos. Também é palavra programática: sugere a ideia não só do formato e tamanho do livro, mas de sua brevidade.
2. "com seca pedra-pomes polido há pouco": o livro era escrito em folhas de papiro. Como uma folha de papiro se costurava à outra para formar o livro, havia pequenas irregularidades e era necessário lixá-lo com a pedra-pomes a fim de formar o rolo.
3. Cornélio: Cornélio Nepos, autor de poemas breves e de uma história do mundo, sucinta, em apenas três volumes (hoje perdida). Catulo teria admirado a erudição e estilo de Cornélio.
4. ninharias: traduz nugas ( nuga, -ae). Catulo é adepto de uma poética da brevidade, herdeira de uma tradição helenística. Irônico, Catulo designa aqui a ligeireza de seus versos, que se opõe ao tom grave de outros poetas.
6. volumes: traduz Cartis (carta, -ae). Uma folha do papiro egípcio. O plural sugere várias folhas reunidas, daí a tradução por volumes.
7. meu deus: no original, Iuppiter (Júpiter).
9. Virgem patrona: esta é a Musa ou Palas Atena.
10. "que ele dure sem fim por mais de um século!": Note que a ironia se desvela aqui: ao “livrinho”, à “ninharia”, o poeta vislumbra um destino grandioso: se manter perene por mais de um século.