Não se perturbou Nero quando ouviu
do Oráculo de Delfos a profecia:
"Que tema os setenta e três anos".
Tinha ainda tempo para aproveitar.
Tem trinta anos. Bastante longo
é o prazo que o deus lhe dá
para preocupar-se com os riscos futuros.
Agora, vai retornar a Roma um pouco fatigado,
mas maravilhosamente cansado desta viagem,
que foi sempre dias de prazer -
nos teatros, nos jardins, nos ginásios ...
Noitinhas das cidades da Acaia ...
Ah! a volúpia dos corpos nus, sobretudo ...
Eis aí Nero. E na Espanha Galba
secretamente congrega sua tropa e a exercita,
o velho de setenta e três anos.
K.Kaváfis
Fonte: Poemas de K.Kaváfis; Tradução de Ísis B. da Fonseca. São Paulo: Odysseus, 2007.
sábado, fevereiro 26, 2011
segunda-feira, dezembro 27, 2010
Encontro
Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madrugada
e seu rosto,nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma., 1951
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madrugada
e seu rosto,nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma., 1951
quinta-feira, dezembro 23, 2010
Simônides de Céos, fr. 579 P
Há um apólogo que diz
que Aretê habita em rochedos inacessíveis,
na companhia de um coro sagrado de céleres ninfas.
Porém não é visível aos olhos de todos os mortais,
- apenas ao daquele que, alagado de suor que devora o ânimo,
chegar ao cume, graças à sua coragem.
Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira
que Aretê habita em rochedos inacessíveis,
na companhia de um coro sagrado de céleres ninfas.
Porém não é visível aos olhos de todos os mortais,
- apenas ao daquele que, alagado de suor que devora o ânimo,
chegar ao cume, graças à sua coragem.
Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira
Simônides de Céos fr.543 P
Quando
na arca lavrada
o vento soprando
e o mar encapelado
e o terror a abateu com faces não enxutas,
lançou os seus braços em volta de Perseu e disse: "Ó filho,
que aflição a minha!
Tu dormes, e com teu lácteo rosto
entregas-te ao sono neste madeiro sem deleite,
e na noite cravejada de pregos
brilhas estendido nas trevas escuras.
Da espuma profunda, sobre o teu cabelo,
ao passar da onda,
não curas, nem da voz do vento: deitado
no teu manto, belo é o teu rosto.
Se o que é terrível o fosse para ti,
às minhas palavras darias brandos ouvidos.
Mas eu te ordeno: dorme, filho, dorme, ó mar, dorme,
ó minha dor desmedida! Que uma mudança surja,
ó Zeus pai, vinda da tua parte!
Mas, por eu ter dito esta palavra ousada
e fora da justiça, eu te imploro, perdoa-me!"
Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira.
na arca lavrada
o vento soprando
e o mar encapelado
e o terror a abateu com faces não enxutas,
lançou os seus braços em volta de Perseu e disse: "Ó filho,
que aflição a minha!
Tu dormes, e com teu lácteo rosto
entregas-te ao sono neste madeiro sem deleite,
e na noite cravejada de pregos
brilhas estendido nas trevas escuras.
Da espuma profunda, sobre o teu cabelo,
ao passar da onda,
não curas, nem da voz do vento: deitado
no teu manto, belo é o teu rosto.
Se o que é terrível o fosse para ti,
às minhas palavras darias brandos ouvidos.
Mas eu te ordeno: dorme, filho, dorme, ó mar, dorme,
ó minha dor desmedida! Que uma mudança surja,
ó Zeus pai, vinda da tua parte!
Mas, por eu ter dito esta palavra ousada
e fora da justiça, eu te imploro, perdoa-me!"
Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira.
Hino Homérico VIII: Ares
Ares muito forte, condutor da carruagem, de elmo áureo,
ânimo terrível, porta-escudo, salva-cidades, arnês-de-bronze,
braço forte, incansável, hábil-na-lança, muralha do Olimpo,
Pai de Vitória boa-na-guerra, ajudante de Justiça,
Tirano aos contrários, guia dos mais justos mortais,
porta-cetro da virilidade, que revolve o globo flamante
Etéreo nas constelações de sete estrelas, onde corcéis em chamas
eternamente acima da terceiro órbita mantêm-te;
Ouve, defensor dos mortais, dotador da juventude bem audaz,
Do alto do céu desce brilhando em fulgor para a nossa
vida e belicosa força, que eu seja capaz
de repelir malfazeja aflição de meu peito,
de vergar os enganosos impulsos da alma nas entranhas,
Detém também acerba cólera em meu coração, que me incita
a marchar em frias disputas: Mas tu, venturoso,
concede audácia para manter em leis propícias de paz
disperso do ardor pelo combate aos inimigos e da violência da Sina.
Tradução: Rafael Brunhara
ânimo terrível, porta-escudo, salva-cidades, arnês-de-bronze,
braço forte, incansável, hábil-na-lança, muralha do Olimpo,
Pai de Vitória boa-na-guerra, ajudante de Justiça,
Tirano aos contrários, guia dos mais justos mortais,
porta-cetro da virilidade, que revolve o globo flamante
Etéreo nas constelações de sete estrelas, onde corcéis em chamas
eternamente acima da terceiro órbita mantêm-te;
Ouve, defensor dos mortais, dotador da juventude bem audaz,
Do alto do céu desce brilhando em fulgor para a nossa
vida e belicosa força, que eu seja capaz
de repelir malfazeja aflição de meu peito,
de vergar os enganosos impulsos da alma nas entranhas,
Detém também acerba cólera em meu coração, que me incita
a marchar em frias disputas: Mas tu, venturoso,
concede audácia para manter em leis propícias de paz
disperso do ardor pelo combate aos inimigos e da violência da Sina.
Tradução: Rafael Brunhara
domingo, dezembro 19, 2010
Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles . . . e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade,
A rosa do povo, 1945.
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles . . . e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade,
A rosa do povo, 1945.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Hino Homérico XXVI: A Dioniso
De cabelos hederosos Dioniso mui clamoroso começo a cantar,
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa: ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez
e das estações vir outra vez por muitos anos.
Tradução: Rafael Brunhara
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa: ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez
e das estações vir outra vez por muitos anos.
Tradução: Rafael Brunhara
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