quinta-feira, setembro 07, 2023
José Paulo Paes
terça-feira, julho 18, 2023
Drummond: Discurso
Eternidade:
Incomunicável
Teu sorriso não era de fraude
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
Eternidade,
in: A falta que ama (1968)
Drummond: O deus mal Informado
há tanto tempo que o tempo não lembra
resta o sonho dos pés
sem peso
sem desenho.
Quem passe ali, na fração de segundo,
em deus se erige, insciente, deus faminto,
saudoso de existência.
Vai seguindo em demanda de seu rastro,
é um tremor radioso, uma opulência
de impossíveis, casulo do possível.
Mas a estrada se parte, se milparte,
a seta não aponta
destino algum, e o traço ausente
ao homem torna homem, novamente.
domingo, julho 16, 2023
Mário Faustino: "E nos irados olhos das bacantes..."
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Às costas me levando, após a luta.
quinta-feira, maio 19, 2022
Camões, Lusíadas, V - 99-100 - Invectiva ao Gama e autorreflexividade
Às Musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama
Calíope não têm por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
às telas de ouro fino e que o cantassem
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito;
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta ou por outra qualquer via
Não perderá seu preço e sua valia.
terça-feira, maio 17, 2022
Camões - Lírica - Soneto X
| Obras do grande Luis de Camões, principe dos poetas heroycos, & lyricos de Hespanha, novamente dadas a luz com os seus Lusidas, 1720. |
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
domingo, fevereiro 13, 2022
| Mário de Andrade - 1922 (Tarsila do Amaral) |
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há-de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

