terça-feira, abril 28, 2020

Mário de Andrade/Amy Lowell - "Delfim na água azul"

Vai! Murmulhando salta!
Água azul
Água rósea
Turbilhona, pincha, flutua
focinha no vácuo da vaga
mergulha, volteia
encurva por baixo
por cima
Corte de navalha e se afunda
rola, revira
erecta-se e espirra no céu
todo rosadas, flamantes gotinhas
Anela-se no fundo
pingo
focinho para baixo
curva
cauda
mergulha
e se vai
Como bolhas leves de água azulada
leve, oleoso cobalto
coleante, líquido lápis-lazúli
cambiantes esmeraldinas
pinceladas de róseo e amarelo
escorregões prismáticos
sob o céu de ventania...

Tradução de Mário de Andrade (in: A Escrava que não é Isaura, 1928)

Hey! Crackerjack—jump!
Blue water,
Pink water,
Swirl, flick, flitter;
Snout into a wave-trough,
Plunge, curl.
Bow over,
Under,
Razor-cut and tumble.
Roll, turn—
Straight—and shoot at the sky,
All rose-flame drippings.
Down ring,
Drop,
Nose under,
Hoop,
Tail,
Dive,
And gone;
With smooth over-swirlings of blue water,
Oil-smooth cobalt,
Slipping, liquid lapis lazuli,
Emerald shadings,
Tintings of pink and ochre.
Prismatic slidings
Underneath a windy sky.

segunda-feira, março 16, 2020

Sólon, frs. 25 e 26

Fragmento 25
Plutarco, Amatório, 5.751b
Muito boa, por Zeus, – ele disse – esta menção a Sólon; ele nos serve de expoente para o homem erótico:

Até amar um menino com a flor da sedutora juventude
      desejando suas coxas e sua doce boca....

Fragmento 26 
Plutarco, Amatório, 5.751e
Daí eu acho que Sólon escreveu esses versos (fragmento 25) quando ainda era novo e “repleto de muito sêmen”, como diz Platão (Leis, 8, 839b), e estes quando havia se tornado ancião:

Feitos da Ciprígena* ora me são caros, de Dioniso
e das Musas, que aos homens dão alegria.

*Afrodite, a nascida em Chipre.

domingo, março 01, 2020

Lendo Homero em tradução no século XIX


José Agostinho de Macedo*, Motim Literário em Forma de Solilóquios, Lisboa: Tipografia José da Rocha, 1841, p.44-45.


“O peso e a autoridade dos séculos nunca me pode mover, eu não conheço nestas coisas de sua natureza frívolas (e que importam versos) outro tribunal mais que o da razão. Para julgar por mim mesmo, capitulei com a minha paciência, que ela aturaria de fio a pavio a leitura do eterno Homero, que devoraria a Ilíada e Odisseia sem lhe faltar um jota: assim sucedeu, e como eu não sei Grego, li a tradução de Clark em Latim, mais zangado fiquei, mais aborrecido, que é tão literal e tão chã, que provoca a cada instante a vômito, cada página são oito grãos de tártaro emético. Lancei mão de Dacier, a mais fanática de todos os panegiristas do pai Homero, eis aqui uma verdade, a minha paciência esteve para ser francesa, quebrantando logo a capitulação, apenas pude aturar de cabo a rabo a sonolentíssima leitura do narcótico Homero. Talvez isso seja uma blasfêmia aos olhos do pai Apolo. Mas porque motivo este nume dos glosadores não me quer favorecer, com suas benignas influências, quando leio o pai Homero? Por que não escalda minha imaginação e a faz ferver em ponto de poder sentir e gostar todas as belezas da divina Ilíada, que tantos povos, e tantos homenzarrões sábios e taludos têm admirado há quase três mil anos?”


* José Agostinho de Macedo (1761-1830) foi um padre e poeta português. Autor de vasta obra e figura bastante controversa em seu tempo, ficou na verdade mais conhecido como intenso crítico de Camões, ao qual tentou corrigir com seu próprio poema épico, Oriente (1814) e uma alentada Censura das Lusíadas (1820).




sábado, fevereiro 29, 2020

Os Filhos de Tupã - José de Alencar


I
Ao deserto, minh'alma! Sôbre os píncaros
Da branca penedia, e enquanto o vento
Nos antros da montanha ulula e brame,
Solte a rude pocema o canto fero
Dos filhos de Tupã. E ruja a inúbia
Troando pela várzea os sons bravios.

II
Salve, Amazonas! Rei dos reis das águas,
Iumuí dos rios, filhos do dilúvio!
Mar, que do bôjo golfas tantos mares,
Fonte do abismo que sorveu a América,
E mais tarde, -quem sabe? -há de sumi-la.
Salve, Amazonas! Como o sol és único,
Gigante, que o maior dos oceanos
Gerou nos flancos da maior montanha!
Monstro vorace, o mundo tragarias
Se Deus, te sofreando a fúria indômita,
Não curvara em princípio o vasto Atlântico,
E só para contar-te a imensidade.
És origem do líquido elemento
Que circunda o universo? Es tu que pejas
Do pélago sem fim as profundezas,
Onde matam a sêde o céu e a terra?
És pai das ondas, ou tirano delas?
Colosso ingente, que fundiu em águas
O verbo de um artista onipotente,
A cabeça reclina sôbre os Andes
Ao céu rasgando as largas cataratas;
O dorso enorme ressupino estendes
Pela terra que verga com teu pêso;
Os mil braços, que alongas pelas serras,
Abrangem tanto espaço que outros mundos
Couberam inda neste mundo nôvo,
Feito para teu berço. Com desprêzo
Aos pés o colo esmagas do oceano,
Que mugindo se roja pelas praias;
Mas prostrado e vencido, não vassalo,
O mar soberano às vêzes se revolta.
Alçada a fronte, a juba desgrenhada,
S'eriça e raia e ruge e ronca e troa;
E a longa, imensa cauda destorcendo,
Te enlaça o corpo no impotente esfôrço.

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Hipônax, fragmento 39

Darei aos males minha alma multissofrente
se não me entregares agora mesmo um alqueire
de cevada, para eu fazer dos grãos
uma bebida que cure meu sofrimento.

κακοῖσι δώσω τὴν πολύστονον ψυχήν,
ἢν μὴ ἀποπέμψηις ὡς τάχιστά μοι κριθέων
μέδιμνον, ὡς ἂν ἀλφίτων ποιήσωμαι
κυκεῶνα πίνειν φάρμακον πονηρίης.

Trad. Rafael Brunhara

terça-feira, dezembro 17, 2019

Álcman, Fragmento 1: O Grande Partênio

Fragmento 1 PMGFO Grande Partênio (Trad. Rafael Brunhara)

...Polideuces.
...entre os caídos [eu não] incluo Liceto
....[Ená]rsforo e Sebro de pés velozes,
... e o violento...
...e o galeado...
Eutique e soberano Areios
.............] entre semideuses exímio ,

..................] o caçador

...................] magno Eurito
..................]o tumulto da guerra [cega?]
.....] os melhores.
....] omitiremos:
....[p]ois [venceram] todos Esa, a Medida,
e Póros, o Meio ,] antiquíssimos (Deuses),
ruiu] a força [sem fr]eios....
Que [ho]mem [nenhum] voe ao céu
[e te]nte se casar com Afrodite
]soberana ou uma...
...........]filha de Pórkos
marinho : as Gr]aças no palácio de Zeus
passei]am com desejo no olhar
]...
] um nume...
]aos amigos...
d[eu presentes...
...
]perdida a juventude
e]m vão
t]rono/t]empo [?]
]...um deles (morreu?) por flecha
outro(?),]..por brilhosa pedra...
...Hades...
...
...inolvidáveis...
...trabalhos padeceram pois tramaram males.
Existe uma vingança divina:
feliz aquele que alegre
tece o dia até o fim
sem pranto . Eu canto
a luz de Agidó : vejo-a
como o sol que para nós
Agidó convoca
a brilhar ; mas louvá-la
ou censurá-la, a diretora ilustre do coro
proíbe de todo: ela mesma nos parece
destacar-se, como se alguém
pusesse no rebanho um cavalo
firme campeão sonípede
dos sonhos sob as pedras .

Ah! Não vês? O corcel
é venético! E a crina
da minha prima,
Hagesícora, floresce
[c]omo ouro puro!
E o seu rosto de prata...
Mas por que falo tão claramente?
Hagesícora: ei-la.
E ela, a segunda em beleza depois de Agidó,
correrá, cavalo coláxeo com ibênio ;
pois as Plêiades lutam contra nós ,
que levamos um véu para Orthria ;
na noite imortal, qual Sírio
astro , elas se erguem;
e nem temos de púrpura
tanta fartura para nos proteger,
nem a faiscante serpente
de ouro maciço, nem a fita
lídia , prenda das meninas
com olhar de violetas,
nem os cabelos de Nanó ,
ou Áreta de formas divinas,
nem Sílacis nem Clesíssera,
e nem se fores à casa de Enesímbrota dirás:
“Ah se Astáfis fosse minha!”,
“Ah se Fílula me notasse,
ou Damáreta, ou desejável Viântemis!”
Não, Hagesícora me consome .
Pois não está aqui
Hagesícora de b[e]los tornozelos?
[Não está ao lad]o de Agidó,
[e] aprova nossa festa?
Vinde, Deuses, [as preces]
aceitai! Os Deuses tudo cumprem,
tudo perfazem. Líder do coro,
queria dizer: eu sou só
uma menina, que em vão chilreia,
uma coruja no telhado ; ainda assim eu
desejo agradar Aótis (de nossas penas
foi ela a curandeira);
e por Hagesícora as meninas
estão no caminho da desejável paz .

... ao] cavalo no bridão...
...d]e fato...[
e] a[o] capitão do navio é preciso
estar atento ao máximo ;
mais cantora que as Sirenas
ela não é, n[...
pois são Deusas. Mas igua[l a um (coro?) de onze
meninas, canta este de dez .
Ressoa como um cisne
no Rio Xanto; ela, com lindos cabelinhos loiros...

[faltam 4 versos]

domingo, novembro 10, 2019

Descrições da Natureza em Álcman: fragmentos 89 e 90

[89]
Apolônio Sofista, Léxico p.101 – Knodála, “assombros”)
Homero [usa a palavra] uma vez só, [para designar] qualquer animal selvagem. Mas alguns falam que theras ou thería (“animal selvagem”) são os leopardos, lobos e quaisquer outros que sejam bem parecidos com esses; herpetá (“serpeante”) é usado como um termo geral para a espécie das serpentes,  knodála (“assombros”)para os grandes peixes do mar, baleias e outros desse tipo. Álcman os distingue falando assim:

Dormem cimos dos montes e precipícios
promontórios e leitos de rios;
as greis serpeantes que a terra negra nutre
e as feras montesas; a raça das abelhas,
os assombros nos abismos do purpúreo salso;
dorme a grei das aves de asas longas...

*Talvez o poema prosseguisse: "só eu não durmo". Outra leitura possível sugere um lugar comum da poesia grega: o silêncio absoluto da natureza também é o espaço de agência das divindades.
  

[90]
Escólio a Sófocles, Édipo em Colono, v. 1248
[Ele] fala das montanhas chamadas Ripe. Outros a chamam assim: “Montanhas Ripeias”. Falam delas como “envoltas pela noite” por que estão situadas junto ao poente. Álcman as menciona, falando assim:

Ripe, montanha em flor e floresta
o seio da negra noite