quarta-feira, julho 28, 2010

O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as cousas e mais nada.
E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?
Respondo: apenas as cousas...Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que é da mesma opinião, fará de mim uma nova espécie de santo.

Alberto Caeiro, in: Poemas inconjuntos.

terça-feira, julho 13, 2010

Da Nékuia - Odisséia 11, 1-136 - Tradução de Haroldo de Campos

Foi assim que baixamos para a nau, mirando
o mar; antes, porém, lançamos o navio
ao sacro sal aquoso, o mastro e as velas todas
fazendo arborescer no barco escuro; então,
embarcamos carneiros e ovelhas. Subimos
a bordo, corações-cortados, todo-lágrimas.
Um vento enfuna-velas, favorável, ótimo
sócio, a deusa de belas tranças, poderosa,
claravoz, Circe, envia-nos, impulso à nau
de proa azul-cianuro. Após os faticosos
aprestos, nos sentamos, o piloto ao leme.
Transnavegamos, velas pandas, todo o dia.
O sol no ocaso, tudo escureceu: confins
do oceano fundo-fluente, povo e país cimérios,
circum-nevoentos, fosco-núveos, nunca o sol
radioso os afogueia, nem quando às estrelas
sobe, nem quando à terra baixa: noite lúgubre
sobre mortais sem sorte. Aproamos o navio
à costa; os animais foram trazidos para
fora, à praia; também nós, ao longo do oceano
fluescente, fomos todos seguindo, no afã
de conferir o sítio proferido por
Circe no seu aviso. Lá os dois, Perimedes
e Euríloco, aferraram as vítimas, eu
saquei da espada aguda, presa à minha coxa;
escavei uma fossa, um cúbito de lado,
vertendo libações para todos os mortos;
por primeiro, aquamel; depois o vinho doce;
água a terceira vez; alvíssima farinha
sobrespargi; roguei muito então às cabeças
vácuas dos mortos: a Ítaca tornando, estéril
novilha imolarei no paço, a melhor delas;
pira plena de dons, para Tirésias, só
para ele, todanegra, sineira, um ovelha.
Exconjurado assim o povo morto, as vítimas
dessangrei e na fossa negrejou o cruor.
Formas defuntas, psico-fantasmais, do Érebo,
moças e moços, multissofridos anciãos;
recém-morridas, tenras virgens que arrefecem;
muitos, bronzialanceados, caídos em combate,
de armas ensanguentadas; qual turba, ao redor
da fossa, inumeráveis, acorriam, daqui,
dali, em fragoroso tropel; um pavor
cloroso-pálido eis que me tomava todo.
Então aos companheiros conclamei: ovelhas,
que o bronze fero degolara, esfolem, grelhem-nas,
as carnes ofertando aos Sempiternos deuses,
ao forte Hades, à atroz Perséfone; do flanco
sacando a espada aguda, sentei-me impedindo
as vácuas testas de achegar-se ao sangue, enquanto
eu a Tirésias não tivesse ouvido. Veio
primeiro Elpénor, sombra-psiquê do finado
companheiro, insepulto ainda no ctônio chão
multívio seu cadáver, que no círceo paço
deixáramos sem pranto, sem jazigo, pois
outros afãs urgiam. Contristado ao vê-lo,
estas palavras-asas dirigi-lhe: "Elpénor,
como chegaste aqui sob o trevor nubloso?
A pé, ultrapassando minha nave negra?"
Tornou-me, suspiroso: "Odisseu Laercíade,
demonizou-me - ó multiastuto - o fado adverso;
fez-me dormir o vinho na mansão de Circe;
descuidei-me da volta, de baixar ao longo
das escadas; do topo caí, partindo a nuca,
as vértebras, desceu-me a ânima ao Hades!
Agora, pelos teus que na pátria ficaram;
por tua esposa; por teu pai que te nutriu;
por Telêmaco, só no teu solar, imploro
(pois sei que ao deixar este reino fosco irás
com tua nau bem-torneada rumo à ínsula Eéa)
que de mim não te olvides (lá chegando), ó rei!
Não fique eu para trás, sem pranto, sem jazigo,
ao léu enquanto a nau navega para longe;
não chames sobre ti a cólera dos deuses.
Ao fogo os meus despojos, armas, o que é meu.
Ergue-me a tumba às orlas da grisalha escuma:
Um homem sem fortuna, no futuro um nome,
e planta nela o remo que entre os meus vibrei."
Falou. De minha parte, respondi-lhe: "Elpénor,
ó sem ventura, tudo que rogas farei
e perfarei por ti." Sentados conversamos
nesse tom, tristemente; eu, gládio em guarda ao sangue
de um lado; ele, do lado oposto, discorrendo,
o ícone dele, e a fossa aberta entre nós ambos.
Veio a seguir a sombra-mãe, psiquê da Autólica
augusta Anticléia, mãe que eu deixara com vida,
vindo à Tróia. Chorei lágrimas consternadas.
Nem assim, mesmo aflito, permiti-lhe o acesso
à sanguinosa fossa, antes de vir Tirésias.
Veio, por fim, a sombra-psiquê do tebano
Tirésias, cetro-de-ouro. Conheceu-me e disse:
"Odisseu Laercíade, multiastucioso,
ó sem-ventura, por que vieste, de Hélios-Sol
fugindo à luz, aos mortos e à sua atroz necrópole?
Afasta dessa fossa o gládio agudo, que eu,
bebendo o sangue, coisas veras te direi."
Falou. Eu me arredei, remetendo à bainha
a argênteo-cravejada espada. De anegrado
sangue saciado, o imáculo adivinho, então,
proferiu seu prognóstico: "Odisseu glorioso,
buscas o mel-delícia do retorno; um deus,
ao invés, se empenhará em dar-te o fel difícil:
ao Tremeterra não creio que escapes; de ânimo
iroso, não esquece que o filho dileto
lhe cegaste. Sofrendo coisas ruins embora,
poderás regressar ainda, caso teu íntimo
domes e o dos teus homens. Ao aproar a nau
à ilha Tridêntea, após vencer o mar violeta,
as novilhas verás pastando e as bem-fornidas
ovelhas de Hélios-Sol, o deus onividente,
o oniescutante. Caso as deixes em paz, fixo
no regresso, intocadas, voltarás embora
sofrendo coisas ruins. Se lhes fizeres dano,
a ti, aos teus, à nau eu predigo infortúnio.
Mesmo que escapes, mesmo assim, só muito tarde
voltarás, velho, sobre nau alheia, sem
companheiros. Em casa, amargura: filáucia
de príncipes, comendo tua comida, todos
assediando tua esposa quase-deusa, dando-lhe
dons de bodas. De volta, tu lhes punirás
os malfeitos. Da astúcia oblíqua ou do fio nu
do bronze mortos todos os rivais, irás
com teu remo até onde um povo nada saiba
do mar, nem coma sal, nem tenha visto nunca
naves púrpuro-cavas, nem os remos-asas
das naus. Dou-te um sinal claro, uma senha-guia:
quando um outro viajor, contigo se cruzando,
disser que sobre a espádua resplendente levas
um joeirador de grãos, então finca na terra
o remo bem-lavrado, sacrifica ao rei
Posêidon um carneiro e um touro, e um javali
garanhão de javardas; volta à casa e oferta
hecatombes aos numes do urânio-céu, todos,
segundo a ordem prescrita. Do talásseo mar,
então, te provirá a morte, a mais doce, tal
que te colha avançado na idade, cercado
de um povo feliz. É o que eu falo e é verdade."


Tradução de Haroldo de Campos

Fonte: Revista de Estudos Clássicos - Phaos nº1

quarta-feira, julho 07, 2010

Semônides de Amorgos Fr. 1

O que mais belo disse o homem de Quios,
"Os homens passam como as folhas passam",
muito poucos mortais, de quantos o ouvem,
o imprimem n'alma. Agita-os a esperança,
que dos moços no peito sempre viça.
Ao que orna a flor gentil da juventude,
o ânimo inconsequente muitos sonhos
nutre impossíveis. Nem sequer lhe ocorre
que há de um dia morrer, tornar-se velho
ou ferí-lo a doença. Loucos, esses!
Não veem quão breve a quadra e curta a vida!
Mas tu que sabes estas cousas, a alma
com virtudes dispõe para a velhice.

Tradução de Aluízio Faria de Coimbra, Os Elegíacos Gregos: De Calino a Crates, vol.1, São Paulo, 1941.

Macbeth, Ato I, Cena 1 - Tradução de Manuel Bandeira

(Thunder and lightning. Enter three Witches)

FIRST WITCH
When shall we three meet again?
In thunder, lightning, or in rain?

SECOND WITCH

When the hurly-burly's done,
When the battle's lost, and won.

THIRD WITCH
That will be ere the set of sun.

FIRST WITCH
Where the place?

SECOND WITCH
Upon the heath.

THIRD WITCH
There to meet with Macbeth.

FIRST WITCH

I come, Graymalkin.

SECOND WITCH

Paddock calls.

THIRD WITCH

Anon.

ALL
Fair is foul, and foul is fair,
Hover through the fog and filthy air.
***

(Relâmpagos e trovões. Entram as Três Bruxas)

1ºBRUXA
Quando novamente as três nos juntamos
No meio dos raios e trovões que amamos?

2ºBRUXA
Quando terminada esta barulhada,
Depois da batalha perdida e ganhada.

3ºBRUXA
Antes de cair a noite

1ºBRUXA
Em que lugar?

2ºBRUXA

Na charneca.

3ºBRUXA
Ali vamos encontrar
com Macbeth.

1ºBRUXA

Irmãs, o Gato nos chama!

2ºBRUXA

O sapo reclama!

3ºBRUXA
Já vamos! Já vamos!

TODAS.
O Bem, o Mal,
- É tudo igual.
Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!

segunda-feira, abril 12, 2010

Íon de Eurípides, vv. 82-93

ἅρματα μὲν τάδε λαμπρὰ τεθρίππων
Ἥλιος ἤδη λάμπει κατὰ γῆν,
ἄστρα δὲ φεύγει πυρὶ τῷδ᾽ αἰθέρος
ἐς νύχθ᾽ ἱεράν:
Παρνησιάδες δ᾽ ἄβατοι κορυφαὶ
καταλαμπόμεναι τὴν ἡμερίαν
ἁψῖδα βροτοῖσι δέχονται.
σμύρνης δ᾽ ἀνύδρου καπνὸς εἰς ὀρόφους
Φοίβου πέταται.
θάσσει δὲ γυνὴ τρίποδα ζάθεον
Δελφίς, ἀείδουσ᾽ Ἕλλησι βοάς,
ἃς ἂν Ἀπόλλων κελαδήσῃ.

Estas as brilhantes quadrigas;
o Sol já brilha sobre a terra
e os astros fogem do flâmeo éter
para a noite sagrada.
Os cimos não trilhados do Parnaso,
iluminados, acolhem para os mortais
o disco do dia:
fumo de mirra seca se evola
aos telhados de Febo.
a délfica senta-se na mui divina trípode
e entoa aos gregos
os brados que Apolo ecoar.

(Tradução de Rafael Brunhara)

domingo, março 21, 2010

Antologia Grega, V, 73 (Rufino)

Te mando, Rodoklea, esta coroa de lindas flores
Que eu mesmo trancei com minhas mãos.
Há o lírio, a rosa, o cálice, a orvalhada anêmona
o tenro narciso e a violeta de brilho escuro.
Quando se coroar com elas, deixa de ser orgulhosa:
Fenece a rosa, a coroa, e você também.

(Tradução de Rafael Brunhara)

sábado, março 20, 2010

Hino a Hécate (Teogonia, vv.404-452)

Febe entrou no amoroso leito de Coios
e fecundou a Deusa o Deus em amor,
ela gerou Leto de negro véu, a sempre doce,
boa aos homens e aos Deuses imortais,
doce dês o começo, a mais suave no Olimpo.
Gerou Astéria de propício nome, que Perses
conduziu um dia a seu palácio e desposou,
e fecundada pariu Hécate a quem mais
Zeus Cronida honrou e concedeu esplêndidos dons,
ter parte na terra e no mar infecundo.
Ela também do Céu constelado partilhou a honra
e é muito honrada entre os Deuses imortais.
Hoje ainda, se algum homem sobre a terra
com belos sacrifícios conforme os ritos propicia
e invoca Hécate, muita honra o acompanha
facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece;
De quantos nasceram da Terra e do Céu
e receberam honra, de todos obteve um lote;
nem o Cronida violou nem a despojou
do que recebeu entre os antigos Deuses Titãs,
e ela tem como primeiro no começo houve a partilha.
Nem porque filha única menos partilhou de honra
e de privilégio na terra e no céu e no mar
mas ainda mais, porque honra-a Zeus.
A quem quer, grandemente dá auxílio e ajuda,
no tribunal senta-se junto aos reis venerandos,
na assembléia entre o povo distingue a quem quer,
e quando se armam para o combate homicida
os homens, aí a Deusa assiste a quem quer
e propícia concede vitória e oferece-lhe glória.
Diligente quando os homens lutam nos jogos
aí também a Deusa lhe dá auxílio e ajuda,
e vencendo pela força e vigor, leva belo prêmio
facilmente, com alegria, e aos pais dá a glória.
Diligente entre os cavaleiros assiste a quem quer,
e aos que lavram o mar de ínvios caminhos
e suplicam a Hécate e ao troante Treme-terra,
fácil a gloriosa Deusa concede muita pesca
ou surge e arranca-a, se o quer no seu ânimo.
Diligente no estábulo com Hermes aumenta
o rebanho de bois e a larga tropa de cabras
e a de ovelhas lanosas, se o quer no seu ânimo,
de pouco avoluma-os e de muitos faz menores.
Assim, apesar de ser a única filha de sua mãe,
entre imortais é honrada com todos os privilégios.
O Cronida a fez nutriz de jovens que depois dela
com os olhos viram a luz da multividente Aurora.
Assim dês o começo é nutriz de jovens e estas as honras.

Tradução de Jaa Torrano

Fonte: Teogonia, a origem dos Deuses. São Paulo: Iluminuras, 2006.