sexta-feira, janeiro 18, 2008

Horácio 4,7

Vão-se as neves e torna a grama aos campos
E as árvores as folhas;
O ano muda a terra,volta o rio
às margens, decrescendo.
graças e ninfas, gêmeas, ousam nuas
reger coros de dança.
Nada esperes do eterno, os anos fogem,
dias, horas te advertem.
Menos frios, mais zéfiros, Verão
expulsa primavera
por sua vez defunta às mãos do Outono,
que, com todos seus frutos,
pelo estéril Inverno é sucedido.
Céleres meses os celestes males
vão reparando; e nós
lá onde estão Enéias, Anco, Tulo...
Sombra e pó somos.
Mas quem sabe darão os deuses outro
tempo, esgotado o nosso?
-Ao menos salvarás de teus herdeiros
Torquato, o que gozaste:
Quando Minos esplêndido julgar-te
após morreres, não
te ressuscitarão tua eloquência,
tua estirpe, teus dotes:
Nem Diana do inferno arranca seu
Hipólito pudico,
Nem forças Teseu tem para livrar
seu Piritôo querido.

[Tradução: Mário Faustino]

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Ilíada VI., 450-461

A dor futura deles, dos troianos, de Hécuba,
do rei Príamo,dos muitos e bravos irmãos
que por mãos inimigas rolarão no pó
não me acabrunha tanto, quanto imaginar-te
cativa de um Aqueu, arnês-de-bronze, e em prantos
arrastada, do dia livre expulsa para Argos,
reduzida a bordar às ordens de uma estranha
ou buscar água à fonte Hiperéia e a Masseide,
mesmo que a contragosto, amarga, dura sina.
E vendo-te a chorar alguém dirá: 'É a viúva
de Héctor, o mais forte entre os guerreiros de Tróia,
doma-corcéis, que em torno de Ílion combatiam.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Troianos

São nossos esforços os dos infortunados;
são nossos esforços como os dos troianos.
Conseguimos um pouco; um pouco
levantamos a cabeça; e começamos
a ter coragens e boas esperanças.
Mas sempre surge alguma coisa que nos pára.
Aquiles junto ao fosso à nossa frente
surge e com grandes gritos assusta-nos.
São nossos esforços como os dos troianos.
Cuidamos que mudaremos com resolução
e valor a contrariedade da sorte,
e estamos cá fora para lutar.
Mas, quando vier o momento decisivo,
o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;
a nossa alma fica alterada, paralisa;
e em redor das muralhas corremos
à procura de nos salvarmos pela fuga.
Porém a nossa queda é certa. Em cima,
nas muralhas já começou o pranto.
Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.
Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.

[Tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Prastinis]

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Antologia grega: A questão homérica

Sobre o que te é ignoto interrogaste-me:
a linhagem e a pátria da Sereia
ambrósio-canora. Ítaca é a terra
natal de Homero. Foi seu pai Telêmaco
e sua mãe, Policeste, uma Nestóride.
Esse homem deles vem - polipansábio.

[Tradução Haroldo de Campos]*

*Trata-se da resposta da Pítia ao imperador Adriano (A.D.117-138), quando este a interrogou sobre o local de nascimento e a estirpe de Homero.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagartixa listada?
A moça se lembrava: - A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagartixa listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.


Manuel Bandeira

terça-feira, janeiro 01, 2008

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.