sábado, abril 09, 2011

Ilíada, 5, 711-868: Diomedes fere Ares

(...)
Mas Hera, braços-brancos, viu como os Aqueus
na luta cruel estavam sendo trucidados.
A Atena então profere palavras aladas:
"Filha de Zeus que porta-o-escudo, ó Infatigável!
Será vã a promessa feita a Menelau
por nós, de que, destruída Tróia bem-murada,
retornaria aos seus, se nós deixarmos Ares
enfurecer funesto. Lembremo-nos, ambas,
de nosso ímpeto bélico. Avante". Falou.
Não dissentiu a olhicerúlea, enquanto
Hera, augusta Croníade, os seus cavalos de áureo
frontal ia aprestando. Hebe ao carro adapta
rodas de bronze curvo eixo férreo, oito raios;
pinas de ouro maciço, lâminas de bronze
justas nas órbitas externas: maravilha!,
Em fina prata os cubos de rodas, girando,
de ambos os lados. Tiras feitas de ouro e prata
formam tensas o corpo do carro de dúplice
parapeito; dali sai o timão prateado,
à cuja ponta firma-se um jugo belíssimo
de ouro e peitorais aurilindos; sob o jugo
Hera os corcéis conduz, com gritos de combate.
Atena, por seu turno, filha de Zeus porta-
-escudo, deixa cair sobre o piso paterno
o peplo de polícromo bordado, urdido
por suas próprias mãos. Veste o arnês de Zeus, ajunta-
-nuvens, e cinge as armas para a lacrimosa
guerra. Põe nas espáduas a égide franjada,
pavorosa, que ostenta em coroa o Terror,
Fobos; Éris, Discórdia; Alké, Violência; Ioké,
glacial Perseguição; e a cabeça gorgônea,
monstruosa, obra de Zeus, espavento e prodígio.
A deusa coloca o elmo de cimeira dupla,
tetracórnio, dourado, com friso de heróis
de cem cidades. Sobe então ao carro flâmeo
e empunha a megalança, pesada, maciça,
com a qual, quando irada, a filha do fortíssimo
Pai dizima esquadrões de guerreiros, de heróis.
Hera fustigou rápida os corcéis. As portas
celestes por si mesmas rangeram, guardadas
pelas Horas, custódias do amplo céu urânio,
que abrem e fecham nuvens densas. Os corcéis,
picados, saem por elas. Longe dos demais
numes, Zeus, no mais alto píncaro do Olimpo
multiescarpado, senta-se. Hera, a dos  braços-
-brancos, sofreia então so cavalos, dizendo:
"Pai, não te indignas vendo os torpes feitos de Ares,
que às cegas, em desordem, extermina os Gregos?
Eu sofro, enquanto a Cípria e o arquiargênteo Apolo
gzam com os demandos do demente infrene
que atiçaram. Tua cólera despertarei,
Zeus Pai, se eu castigar Ares com o rigor
devido e o afastar do campo de batalha?"
Volta-se e lhe responde Zeus ajunta-nuvens:
"Mais valerá que incites de encontro a ele Atena
predadora; ninguém melhor para puní-lo".
Disse. E assentiu a deusa braços-brancos, Hera.
Fustigou os corcéis que de bom grado voam
entre a terra e o estelário. Quanto abarca a vista,
a perder-se na bruma, de quem, de um mirante,
contempla o oceano roxo, cor-de-vinho, tanto
os cavalos das deusas num arranco avançam,
altíssonos, nitrindo. Quando aos tróicos plainos
chegaram, ao ponto aonde confluem as correntes
dos dois rios, Escamandro e Simoente, Hera, braços-
-brancos, parou o carro, soltou os cavalos
e em torno espargiu densa névoa. Do Simoente
jorrou para os cavalos pasto ambrosíaco. Elas,
as deusas, seguem, pombas tímidas no andar,
sequiosas de ajudar os Gregos. Aonde mais
- e mais forte - o combate se adensa, as duas divas
acorrem. Em redor de Diomedes, o doma-
-corcéis, se apinha a chusma - leões carnivorazes
ou javalis fortíssimos. Hera, estacando,
emite um berro, símile no vulto a Estêntor,
animoso, voz bronzirreboante, só igual
ao clamor de cinqüenta: "Que vergonha, Aqueus,
só no aspecto notáveis! Presente à refrega
o divo Aquiles, Tróico nenhum aos dardânios
portais jamais surgiu, temendo-lhe o arremesso.
Agora, é vê-los. Lutam juntos às naves côncavas!"
Disse. E pôs-se a incitar o ânimo grego e a fúria.
Atena, olhos-azuis, busca o Tideide. O príncipe,
junto aos corcéis e ao carro, amainava a ferida
que Pândaro, flecheiro, lhe fizera. O suor,
por so o largo bálteo do broquel redondo,
o afligia. Exaurido, o braço já lhe pesa;
mas afasta a correia e limpa o sangue negro-
-nuvioso. A deusa o jugo os corcéis lhe toma,
dizendo-lhe: "Ó Tideide, ao pai não se assemelha.
De pequena estatura, Tideu era um bravo.
Certa vez o proibi de lutar, de ostentar
seu brilho. Como núncio, apartado dos Gregos,
fora a Tebas, perante Cadmeios sem conta;
impus-lhe banquetear-se nos salões tranqüilo.
Mas ele, de coração fogoso, com sempre,
pôs-se a reptar os jovens cádmios e os bateu
nos vários jogos (facilmente: eu ao seu lado).
Eu, agora, te amparo e guardo e, toda zelos,
te instigo a combater os Troianos. Opresso
de fadiga ou de frio temor descorajoso,
tu não pareces filho de Tideu, flamante-
-coração, da linhagem ilustre de Eneu."
O intrépido Diomedes volta-se e responde:
"Reconheço-te, deusa, filha de Zeus, porta-
-escudo. De boa mente falo, nada oculto.
Descoragem medrosa ou tibieza não travam
meu ímpeto.Recordo apenas teu ditame:
não afrontar jamais deuses no combate;
issso ensinaste a mim e aos outros; Afrodite,
somente, poderia eu ferir com meu bronze.
Eis porque retirei-me e concitei os meus
a reunir-se aqui, junto de mim, pois notei
Ares, em meio aos Tróicos, senhoreando a guerra".
Então, olhos-azuis, a deusa Atena diz-lhe:
Ó Diomedes Tideide, meu dileto no íntimo:
não te arreceies de Ares nem de qualquer outro
imortal. Estarei ao teu lado, incitando-te.
Lança os cavalos unicascos de encontro a Ares,
acomete-o de perto, sem temer-lhe a fúria:
é um insano de má-morte, um falso, um duas caras:
a Hera e a mim, não há muito, se declarou
inimigo dos Tróicos e a favor dos Gregos.
Agora, deslembrado, junta-se aos Troianos".
Assim falando, a deusa afasta o auriga Estênelo
do carro com a mão (este salta, obediente)
e sobe à biga ao lado do árdego Diomedes.
Estala o eixo de faia sob o peso de ambos,
uma deusa terrível e um herói fortíssimo.
Palas Atena empunha o látego e o bridão
e arremessa os corcéis unicascos de encontro
a Ares. Este espoliava o enorme Perifante
o mais valente etólio, progênie de Oquésio.
Despia-o da armadura o deus sanguinolento.
Atena põe (e faz-se invisível) o escuro
elmo de Hades. Invisa, Ares só vê Diomedes.
O matador de gente-larga Perifante,
enorme, ali mesmo onde, exânime, tombou
e se atira Diomedes, cavaleiro exímio.
E quando os dois se enfrentam, cara contra cara,
Ares, por sobre o jugo e as rédeas, pronto, o bronze
desfere, rapace, ávido por desalmar
o Tideide. A deusa, olhos-azuis, com a mão
o empolga e o faz voar no vazio, lançado longe,
além da biga. Então Diomedes, voz altíssima,
arroja o pique brônzeo. Atena o endereça
aos baixos, onde aperta o cinturão do deus.
Ali o fere e punge. A pele fina rasga-lhe
e a lança extrai do ferimento. Ares, o brônzeo,
berra, com um bramido de nove ou dez mil
homens, lutando a mando do nume da guerra.
Troianos e Aqueus tremem aterrorizados,
tão grande o urro de Ares belicoso. Assim
como um vapor das nuvens, tenebroso, exala-se
em tempo de calor, quando o vento colérico
tempestua, assim viu Diomedes o brônzeo Ares
subir, a par das nuvens, para a vastidão
do urânio céu. (...)

Tradução de Haroldo de Campos  

Um comentário:

Bruno Faustino disse...

Está muito bonita essa tradução. Haroldo de Campos soube empregar bela bem o léxico português na tradução da Ilíada, e inadequações como 'urânio céu' (l. 867) são perdoáveis :-)