sábado, janeiro 24, 2026

Calino de Éfeso, Fragmento 1, Versos 1-4 (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 1, versos 1-4 (ed. West).


Até quando vocês vão ficar na cama?

Quando é que veremos em vocês ânimo guerreiro,

    meus jovens? Vocês não têm vergonha dos vizinhos,

com toda essa preguiça? Até parece que estamos entronizados 

     na paz, enquanto a guerra devasta a terra. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Arquíloco - Traduções de Donaldo Schüler

 Fragmento 1 (ed. West)

Servidor eu sou do deus da Guerra

     e no amoroso dom das Musas eu versado me declaro. 


Fragmento 2 (ed. West)

A lança me dá vinho, a lança me dá pão,

     eu como, eu bebo com a lança na mão. 


Fragmento 5 (ed. West)

Um saio apoderou-se do meu escudo e se ri de mim,

   para meu pesar -- arma excelente -- a um matagal a joguei na fuga.

Mas salvei a minha vida. O que me interessa o escudo?

    Que se vá! Em breve terei outro igual.


Fragmento 11 (ed. West)

Nada melhorarei chorando, nada

    arruinarei no gozo e florescendo em festas.


Fragmento 177 (ed. West)

Ó Zeus, Zeus pai, teu é o poder nas alturas,

   as obras dos homens contemplas,

as criminosas e as praticadas na lei. Observas

   a soberba e a moderação de todos.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Mimnermo fr. 1 - Trad. Donaldo Schüler

 Que é a vida? O que é gostoso longe da esplêndida Afrodite?
Quero morrer, quando cessar a fome
dos segredos do amor, dos suaves favores, do leito --
estas e não outras são as flores da juventude
de homens e mulheres. Sobrevindo dolorosa
a velhice, deformadora de homens formosos,
cuidados amargos roem as entranhas,
cessa a alegria da luz solar,
vem a repulsa dos jovens e o desprezo das mulheres.
Amarga fizeram a velhice os deuses. 

Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

quarta-feira, janeiro 21, 2026

William Blake: De Jerusalém (A Invocação do Capítulo I)

      Do Sono de Ulro! e da passagem através da 
Eterna Morte! e do despertar para a Vida Eterna. 

Este o tema que noite após noite me convoca no sono e cada manhã
Me desperta ao raiar do sol. Então avisto o Salvador sobre mim,
A esparzir os seus raios de amor e a ditar as palavras desta canção.

"Desperta! Desperta! Oh tu que dormes na terra das sombras, acorda! Expande-te!
Estou em ti e estás em mim, em mútuo amor divinal:
Fibras de amor de um humano por outro, na terra deleitosa de Álbion.
Em todo o escuro vale do Atlântico, para baixo das colinas do Surrey, 
Uma água negra se acumula. Retorna, Álbion! Retorna!
Chamam por ti teus irmãos, e teus pais, e teus filhos.
Tuas amas e tuas mães, tuas filhas e tuas irmãs
Choram pela enfermidade de tua alma. E a Divina Visão se escurece.
A tua Emanação, que exibia os seus folguedos perante tua face,
Regozijando-se com suas filhas no Divino seio...
A tua Emanação onde a ocultaste, a adorável Jerusalém?
Onde a ocultaste da visão e do fruir do Todo-Santo?
Eu não sou um Deus distante, sou um irmão e um amigo;
Dentro de vossos peitos resido, e vós residis em mim:
Eis! Somos Um, a perdoar todo Mal, sem esperar recompensa! 
Sois os meus membros, oh vós que dormis em Beúlas, a terra das sombras!" 

O Homem, porém, perturbado se afasta, a descer para os vãos escuros, 
Dizendo: "Não somos Um; somos muitos, oh enganosa
Aparição, criada pelo cérebro incendiado! Sombra de imortalidade,
Que não quer perder minh'alma, vítima do teu amor! Que prende
O homem ao próprio inimigo do homem por meio de ilusórias amizades!
Jerusalém não mais existe! Suas filhas são indefinidas:
Somente pelo raciocínio o homem pode viver, e não pela fé. 

As minhas montanhas são minhas, e para mim vou guardá-las:
Os montes Malvern e os Cheviots, os Wolds, Plinlimmon e Snowdon
São meus. Aqui, sobre eles, construirei minhas leis de Virtude Moral!
Não mais haverá a humanidade: apenas a guerra e o poder e a vitória!"

Assim falou Álbion, com ciosos temores, escondendo a sua Emanação
Sobre o Tâmisa e o Medway, rios de Beúlas; dissimulando
Seu ciúme diante do trono divino, gelado, sombrio! 

As nuvens recobrem as margens do Tâmisa! Os antigos pórticos de Álbion
Se escurecem! São arrastados através do espaço infinito, espalhados
Pelo Vácuo, em desespero incoerente! Cambridge e Oxford e Londres
São levadas com os Anéis estelares, espedaçadas e disseminadas
Em Penhascos e Abismos de dor, ampliados sem dimensão, terríveis.
Corre o sangue pelas montanhas de Álbion, os gritos de guerra e tumulto
Ressoam na noite que não tem limite; e toda a perfeição humana,
Montanhas, torrentes e cidades ficaram pequenas e secas e escuras. 



Of the Sleep of Ulro! and of the passage through 
Eternal Death! and of the awaking to Eternal Life. 

 This theme calls me in sleep night after night, & ev'ry morn 
Awakes me at sun−rise, then I see the Saviour over me 
Spreading his beams of love, & dictating the words of this mild song. 

"Awake! awake O sleeper of the land of shadows, wake! Expand! 
I am in you and you in me, mutual in love divine: 
Fibres of love from man to man thro Albion's pleasant land. 
In all the dark Atlantic vale down from the hills of Surrey
 A black water accumulates, return Albion! Return! 
Thy brethren call thee, and thy fathers, and thy sons,
 Thy nurses and thy mothers, thy sisters and thy daughters
 Weep at thy souls disease, and the Divine Vision is darken'd: 
Thy Emanation that was wont to play before thy face,
 Beaming forth with her daughters into the Divine bosom --
Where hast thou hidden thy Emanation lovely Jerusalem,
 From the vision and fruition of the Holy−one? 
I am not a God afar off, I am a brother and friend; 
Within your bosoms I reside, and you reside in me:
 Lo! we are One; forgiving all Evil; Not seeking recompense! 
Ye are my members O ye sleepers of Beulah, land of shades! 

 But the perturbed Man away turns down the valleys dark,
[Saying. We are not One: we are Many, thou most simulative
Phantom of the over heated brain! shadow of immortality!
 Seeking to keep my soul a victim to thy Love! which binds 
 Man the enemy of man into deceitful friendships: 
Jerusalem is not! her daughters are indefinite:
 By demonstration, man alone can live, and not by faith. 

My mountains are my own, and I will keep them to myself:
 The Malvern and the Cheviot, the Wolds Plinlimmon & Snowdon 
Are mine. here will I build my Laws of Moral Virtue! 
Humanity shall be no more: but war & princedom & victory!"

  So spoke Albion in jealous fears, hiding his Emanation
 Upon the Thames and Medway, rivers of Beulah: dissembling 
His jealousy before the throne divine, darkening, cold! 

 The banks of the Thames are clouded! the ancient porches of Albion are
 Darken'd! they are drawn thro' unbounded space, scatter'd upon
 The Void in incoherent despair! Cambridge & Oxford & London, 
Are driven among the starry Wheels, rent away and dissipated,
 In Chasms & Abysses of sorrow, enlarg'd without dimension, terrible.
 Albions mountains run with blood, the cries of war & of tumult 
Resound into the unbounded night, every Human perfection 
Of mountain & river & city, are small & wither'd & darken'd
 Cam is a little stream! Ely is almost swallowd up! 
Lincoln & Norwich stand trembling on the brink of Udan−Adan! 
Wales and Scotland shrink themselves to the west and to the north! 
Mourning for fear of the warriors in the Vale of Entuthon−Benython:
 Jerusalem is scatter'd abroad like a cloud of smoke thro' non−entity: 
Moab & Ammon & Amalek & Canaan & Egypt & Aram 
Recieve her little−ones for sacrifices and the delights of cruelty 

 Trembling I sit day and night, my friends are astonish'd at me. 
Yet they forgive my wanderings, I rest not from my great task! 
To open the Eternal Worlds, to open the immortal Eyes 
Of Man inwards into the Worlds of Thought: into Eternity 
Ever expanding in the Bosom of God. the Human Imagination

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Koré (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 Alta e solene mais alta do que a luz
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia

Folhagens dançam movidas pelo vento

Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra

O café tem pó -- relíquia dos turcos

Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante 

Sophia de Mello Breyner Andresen. Ilhas. in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018. 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

William Blake - O Pequeno Vagabundo

 Oh mãe querida, mãe querida, a Igreja é fria,
Mas doce e quente e boa é a Cervejaria;
onde há bom trato ao certo sei dizer esperto,
E esse trato no Céu jamais irá dar certo. 

Mas se dessem cerveja a nós lá na Igreja,
E uma doce fogueira, às almas benfazeja,
Cantar e orar se iria quanto é longo o dia,
E da Igreja ninguém jamais se afastaria. 

O Padre então rezar, beber, cantar pudera,
Quais pássaros seríamos na primavera
E teria a Ilusão, na Igreja em prontidão,
Prole mais forte, sem jejum e sem bastão.

E como um pai radiante ao ver os filhos seus
Contentes e felizes tal como Ele, Deus,
Concedendo quartel ao Diabo, ou ao tonel,
Dar-lhe-ia um beijo, e mais bebida, e mais burel. 

Tradução de Paulo Vizioli 

Dear Mother, dear Mother, the Church is cold, 
But the Ale-house is healthy & pleasant & warm;
 Besides I can tell where I am use'd well,
 Such usage in heaven will never do well. 

 But if at the Church they would give us some ale, 
 And a pleasant fire, our souls to regale,
We'd sing and we'd pray, all the live-long day,
 Nor ever once wish from the Church to stray.

Then the Parson might preach & drink & sing. 
 And we'd be as happy as birds in the spring: 
 And modest Dame Lurch, who is always at Church, 
Would not have bandy children nor fasting nor birch. 

 And God like a father rejoicing to see, 
 His children as pleasant and happy as he: 
 Would have no more quarrel with the Devil or the barrel,
But kiss him & give him both drink and apparel.

in: William Blake - poesia e prosa selecionadas. Introdução, Tradução e Notas de Paulo Vizioli. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. 

domingo, janeiro 18, 2026

Mário Faustino - Cavossonante Escudo Nosso

 Cavossonante escudo nosso
          palavra: panacéia
ornado de consolos e compensas
enquanto a seta-fado
nos envenena ambos tendões
                                 rachados
No sabuloso mar na salsa areia
alimento não cresce
                             cobras crescem
e nos impõe silêncio o bramir vero
do veado oceano
                        cio cio
verdade, matogrosso universal
viçosamente ouvida
                     não palavras pa
lavras
                   e do cosmo selvagem
recém recém tombada
AMOR
estrela  inominada   pedra  lava
escudo  panejante   panacéia
                                         (a cruz
se enfuna)
bólide trespassando chão-essência
peito-presença

                           AQUI

         estamos.
Entre nome e fenômeno balança
nunca meu coração:
                             ferido sangra
pelo rosto do ser e por seus rins,
indiferente, he le na, às sílabas
véus teu ventre disfar-farçando:
ele singra ela sangra ele roxo
           ....espuma...
pela forma da coisa por seu peso
e para de pulsar rugindo contra
o que serve de rocha e despedaça
a liberdade sétima -- tocar
a liberdade oitava -- penetrar
a liberdade inteira -- conhecer: 
 
                      COR  AÇÃO

o sopro do metal ressoa chama
para a luta real
                     (há remoinhos)
cavossonante escudo rebentamos
a fraga  estilhaçamos  nus  sem-pele
estrelorientados  rumo-nós
                               boiamos
ainda que parados:
                            mudos:
                 
                                      somos. 


Fonte: Mário Faustino. Poesia Completa e Poesia Traduzida. Introdução, Organização e Notas: Benedito Nunes.  São Paulo: Max Limonad, 1985.