segunda-feira, setembro 30, 2019

Alceu - fragmento 6

Do Papiro de Oxirrinco 1789:

Esta onda, outra vez, [como?] antes avança
em marcha e nos dará muito trabalho
exauri-la depois que entrar no navio
...Reforcemos o mais rápido....
...a um porto seguro corramos...
...Mole medo não tome nenhum de nós,
o grande [prêmio?] já se vê:
com o pensamento nas provações do passado,
cada homem seja resistente!

E não envergonhemos [com covardia?]
os nobres pais que repousam sob a terra
el[es]
a ur[be]
sendo... dos pais...
dos... o nosso coraç[ão]
parece...rápido...

...

Mas nós..?

...

O poder de um só
..não aceit[emos]?


τόδ᾽ αὖτε κῦμα τὼ προτέρω +νέμω+
στείχει, παρέξει δ᾽ ἄμμι πόνον πόλυν
ἄντλην, ἐπεί κε νᾶος ἔμβαι
]. όμεθ᾽ ἐ[
]. . [ . . ] ·[
[ ]
φαρξώμεθ᾽ ὠς ὤκιστα [
ἐς δ᾽ ἔχυρον λίμενα δρό[μωμεν
καὶ μή τιν᾽ ὄκνος μόλθ[ακος ἀμμέων
λάβη· πρόδηλον γάρ μεγ[ἀέθλιον
μνάσθητε τὼ πάροιθε μ[όχθω·
νῦν τις ἄνηρ δόκιμος γε[νέσθω.

καὶ μὴ καταισχύνωμεν[ανανδρίᾳ
ἔσλοις τόκηας γᾶς ὔπα κε[ιμένοις
..] τᾶνδ[
τὰν πό[ . . .
ἔοντε[ς ] ἂπ πατέρω[ν
τὼν σφ[ ]αμμος θῦμ[
ἔοικε[ ]ων ταχήαν[
ταῖ[ς ]. νητορεν .[
ἀλλ.[ ] τᾶσδεπαλ[
..].[ ]. οισα . ελ .[
[ ]. τοι . [
π[ . . ] .[ ]. συν .[
μ[η]δ᾽ ἄμμ[.] λω[. . .
γε[ . ]ος μενέ[
μοναρχίαν δ . [
μ]ηδὲ δεκωμ[

[ ]. . ιδημφ . [
[] . οισί τ᾽ ὔποπ[
[ ]αίνων· ἐκ[



De Heráclito, Alegorias Homéricas (5):

Ὁμοίως δὲ τὰ ὑπὸ τούτου αἰνιττόμενος ἑτέρωθί που λέγει·

Τὸ δ' ηὖτε κῦμα τῶν προτέρων +νέμω+
στείχει, παρέξει δ' ἄμμι πόνον πολὺν
ἄντλην, ἐπεί κε νᾶος ἐμβᾷ.

Κατακόρως ἐν ταῖς ἀλληγορίαις ὁ νησιώτης θαλαττεύει καὶ τὰ πλεῖστα τῶν διὰ τοὺς τυράννους ἐπεχόντων κακῶν πελαγείοις χειμῶσιν εἰκάζει.

Igualmente com enigmas [Alceu] fala  das ações dele [sc. o tirano Mirsilo] alhures: 

E a onda, outra vez, [como?] antes avança
em marcha e nos dará muito trabalho
exauri-la depois que entrar no navio

O ilhéu usa expressões náuticas sem moderação em suas alegorias e compara a maioria dos males que o acometem por causa dos tiranos a tormentas no mar.


Notas:

- Famoso fragmento de Alceu, que mobiliza a alegoria da nave do estado, que o tornou notório (juntamente com seus poemas sobre o simpósio e o vinho). A turbulência política na pólis é comparada a um navio em perigo no alto mar, como esclarece já uma das antigas fontes do poema.

- A princípio conhecia-se apenas os 4 primeiros versos, conservados na obra Alegorias Homéricas, de Heráclito. A descoberta de um papiro datado do primeiro século d.C. acrescentou novos versos, alguns muito significativos: temos aqui, por exemplo, a primeira referência negativa à tirania, explicitada pelo termo μοναρχίαν (monarkhían, "poder de um só"), da qual  Alceu consagrou-se como o mais feroz opositor.

- Adoto o texto de Eva-Maria Voigt (Sappho et Alcaeus, fragmenta. Amsterdam: Athenaeum - Pollak & Van Gennep 1971) embora adote algumas emendas propostas por Campbell (Greek Lyric I - Sappho and Alcaeus. Cambridge: Harvard University Press, 1982).




terça-feira, setembro 03, 2019

Os Trenos de Simônides (Trad. Rafael Brunhara)


Os trenos são um subgênero da poesia propriamente lírica. Consistem, basicamente, em uma reflexão fúnebre sobre a condição humana. Pouco nos restou deste gênero senão fragmentos. Boa parte deles se encontra na poesia de Simônides de Céos, que teria sido um de seus maiores cultores.

[Fragmento 520]
Plutarco, Consolação a Apolônio, 11, 107ab
...a opinião que prevalece entre alguns de que é melhor morrer do que viver. Simônides por exemplo, diz:

Da humanidade, pequena
a força, inúteis seus cuidados,
na vida breve é dor atrás de dor;
e sobre todos a mesma morte inescapável:
igual quinhão recebem dela os bons
e quem seja mau.

[Fragmento 521]
Estobeu, Excertos 4.41.9
De Simônides:

Humano, nunca digas o que acontece amanhã
E se vires um homem feliz, por quanto tempo será;
Mais célere que o bater de asas de uma mosca:
assim a mudança

Estobeu, Excertos 4.41, 62
De Favorino: “Humano, nunca digas o que acontece amanhã/E se vires um homem feliz, por quanto tempo será” E nem mesmo uma casa. Repara como o poeta narra a ruína completa dos Escópadas.

[Fragmento 522]
Estobeu, Excertos 4.51.7
De Simônides:

Tudo chega a uma só horrenda Caríbdis:
Até mesmo grandes excelências e a riqueza.

[Fragmento 523]
Estobeu, Excertos 4.34.14
Dos trenos de Simônides:

Pois nem os que viveram outrora
E nasceram semideuses filhos de soberanos Deuses
alcançaram a velhice sem cumprir
vida sem dor sem morte sem perigo

[Fragmento 524]
Estobeu, Excertos 4.51.7
De Simônides:

E a morte pega até quem foge à guerra

[Fragmento 525]
Estobeu, Excertos 2.1.10
De Simônides:

Fácil aos Deuses roubar a razão humana.

[Fragmento 526]
Teófilo de Antioquia, Para Autólico, 2.8
E Simônides [disse]:

Ninguém sem Deus
conquista excelência, nem urbe nem homem
Deus é todo astúcia: a salvo
nada está entre os mortais.

[Fragmento 527]
Teófilo da Antioquia, Para Autólico, 2.37
Que o julgamento de Deus está prestes a ocorrer e os males inopinadamente recairão nos criminosos, também isso...indicou...Simônides:

Não há mal aos humanos
inesperado: em pouco tempo
Deus subverte tudo.

Trad. Rafael Brunhara


terça-feira, julho 23, 2019

Guilherme IX de Aquitânia (1071-1126) - Trad. Arnaldo Saraiva

Farai un vers de dreit nien
Non er de mi ni d'autra gen
Non er d'amor ni de joven
Ni de ren au
Qu'enans fo trobatz en durmen
Sus un chivau

No sai en qual hora.m fui natz
No soi alegres ni iratz
No soi estranhs ni soi privatz
Ni no.n puesc au
Qu'enaisi fui de nueitz fadatz
Sobr'un pueg au

No sai cora.m fui endormitz
Ni cora.m veill s'om no m'o ditz
Per pauc no m'es lo cor partitz
D'un dol corau
E no m'o pretz una fromitz
Per saint Marsau

Malautz soi e cre mi morir
E re no sai mas quan n'aug dir
Metge querrai al mieu albir
E no.m sai tau
Bos metges er si.m pot guerir
Mas non si amau

Amigu'ai ieu non sai qui s'es
C'anc no la vi si m'aiut fes
Ni.m fes que.m plassa ni que.m pes
Ni no m'en cau
C'anc non ac Norman ni Franses
Dins mon ostau

Anc non la vi et am la fort
Anc no n’aic dreit ni no.m fes tort
Quan no la vei be m'en deport
No.m prez un jau
Qu'ie.n sai gensor e belazor
E que mais vau

No sai lo luec on s’esta
Si es rn pueg ho es en pla
Non aus dire lo tort que m’a
Albans m’en cau
E peza.m be quar sai rema
Per aitan vau

Fait ai lo vers no sai de cui
Et trametrai lo a celui
Que lo.m trameta per autrui
Enves Peitau
Que.m tramezes del sieu estui
La contraclau


Farei versos de puro nada:
de mim, de gente desvairada,
da juventude ou da amada,
de nada falo,
que os trovei ao dormir na estrada
sobre um cavalo.

Não sei em que hora vim ao mundo,
não sou jocundo ou furibundo,
não sou caseiro ou vagabundo,
sou sempre o tal
que o fado à noite marcou fundo
num monte astral.

Não sei se durmo ou velo, não,
sem a alheia opinião;
quase se parte o coração
com dor cordial,
não ligo mais que a um formigão,
por S.Marcial.

Doente estou, creio que morro,
e só o sei por algum zorro.
A um bom médico recorro,
e não sei qual;
bom é, se obtenho o seu socorro;
mau, se estou mal.

Tenho amiga, não sei quem é,
pois nunca a vi, por minha fé;
para mim, santa não é, nem ré,
o que é igual:
normando ou francês nem ao pé
do meu quintal.

Nunca a vi, e tem meu amor;
nunca me fez dano ou favor;
se a não vejo não sinto dor,
não ganho um galo;
sei de mais bela e bem melhor
e que mais vale.

Não sei qual é seu horizonte,
se o da planície ou do monte,
nem digo o mal de que ela é fonte;
bom é que cale;
sofro que fique aqui defronte,
parto, afinal.

Fiz os versos, de quem não sei,
e por alguém os mandarei
que os mandará por outro meio
a Anjou ideal
para que venha do seu seio o
contrassinal.

Tradução de Arnaldo Saraiva

Fonte: SARAIVA, A. Guilherme IX de Aquitânia. Poesia. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009.