domingo, março 24, 2019

Medeia - Sophia de Mello Breyner Andresen e Ovídio (Metamorfoses, VII. 189-206)

Medeia
(adaptado de Ovídio)

Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: "Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morre no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.

Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen. Obra Poética. Lisboa: Tinta da China, 2018.

Metamorfoses, Canto VII, versos 189-205

ter se convertit, ter sumptis flumine crinem
inroravit aquis ternisque ululatibus ora 
solvit et in dura submisso poplite terra
'Nox' ait 'arcanis fidissima, quaeque diurnis
aurea cum luna succeditis ignibus astra,
tuque, triceps Hecate, quae coeptis conscia nostris
adiutrixque venis cantusque artisque magorum,
quaeque magos, Tellus, pollentibus instruis herbis,
auraeque et venti montesque amnesque lacusque,
dique omnes nemorum, dique omnes noctis adeste,
quorum ope, cum volui, ripis mirantibus amnes
in fontes rediere suos, concussaque sisto, 
stantia concutio cantu freta, nubila pello
nubilaque induco, ventos abigoque vocoque,
vipereas rumpo verbis et carmine fauces,
vivaque saxa sua convulsaque robora terra
et silvas moveo iubeoque tremescere montis 
et mugire solum manesque exire sepulcris!

Trad. Domingos Lopes Dias (2017):

Medeia se voltou três vezes. Três vezes aspergiu o cabelo
com água colhida do rio. Soltou três imprecações.
E, ajoelhando na terra dura, clama:
"Ó noite amiga fiel dos mistérios; douradas estrelas
que, com a lua, sucedeis os raios do dia; 
e tu, Hécate de três cabeças, que, conhecedora dos meus intentos,
vens em meu auxílio, tu, mestra dos encantamentos e das artes mágicas;
terra, que aos magos propicias ervas eficazes;
brisas e ventos, montes, rios e lagos;
deuses todos da floresta; todos os deuses da noite, vinde!
Com vossa ajuda, quando assim o quis, tornaram à nascente os rios,
com espanto das margens. Com meus encantamentos
acalmo o mar encapelado e encrespo o mar calmo;
disperso as nuvens e volto a acumulá-las; disperso e convoco os ventos.
Com os meus conjuros e encantamentos anulo as fauces da víbora,
arranco ao solo e ponho em movimento a rocha viva,
o carvalho e a floresta; abalo as montanhas
e faço a terra rugir e os mortos surgir do sepulcro.

FONTE: Ovídio. Metamorfoses. Tradução, introdução e notas de Domingos Lopes Dias; Apresentação de João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora 34, 2017. 





domingo, março 17, 2019

Entusiasmo - Cecília Meireles

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
-- por que suspiro -- distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

Sou de ciganos e de adivinhos.
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.

Ide com os zoilos e os sicofantes.
Mas respeitai vossos adversários,
que nem querem ser triunfantes.

Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.

E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.

De Retrato Natural, in Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

sexta-feira, março 15, 2019

Arquíloco - fr.51B./ fr.130W

Fragmento 51 (Edição de T.Bergk, Anthologia Lyrica, 1907)

τοῖς θεοῖς τίθειν ἁπάντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Confia tudo aos deuses: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

[Trad. Rafael Brunhara]

Fragmento 130 (Edição de M.West, Elegi et Iambi Graeci I 1971)


τοῖς θεοῖς †τ' εἰθεῖάπαντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Aos deuses tudo é reto: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

sexta-feira, março 08, 2019

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018)

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Ode a Cassandre - Ronsard (Três traduções)

Mignonne, allons voir si la rose
Qui ce matin avait déclose
Sa robe de pourpre au soleil,
A point perdu, cette vêprée,
Lés plis de sa robe pourprée,
Et son teint au vôtre pareil.

Las,voyez comme en peu d’espace
Mignonne, elle a dessus la place
Las, las, ses beautés laissé choir!
O vraiment marâtre Nature.
Puisqu’une telle fleur ne dure
Que du matin jusques au soir.

Donc, si vous me croyez,Mignonne,
‘ Tandis que votre âge fleuronne
En sa plus verte nouveauté,
Cueillez, cueillez votre jeunesse:
Comme à cette fleur, la vieillesse
Fera ternir votre beauté.


Trad. Andrei Cunha (2019)

Menina, vem ver se a rosa
Que abriu de manhã vaidosa
Ao sol seu vermelho vestido
Guardou numa tarde assim
As dobras da flor tão carmim
Como teu rosto – ou parecido.
Ai, Menina! olha que não!
Em pouco tempo, já está no chão.
Que madrasta essa Natureza,
Que da manhã até o sol se pôr
Não dure uma tão bela flor
E no chão acabe sua beleza.
Então, se me crês, ô Menina,
Enquanto tua tez não declina,
E inda verdes tens amores,
Colhe, e aproveita a meninice:
Pois como a rosa, a velhice
Fará murchar tuas flores.


A Cassandra - Trad. de Mário Laranjeira (2004)

Querida, vamos ver se a rosa,
Que esta manhã abriu garbosa
Ao sol seu purpúreo vestido,
Não perdeu, da tarde ao calor,
De sua roupa a rubra cor,
E o aspecto ao vosso parecido.

Ah! Vede como em curto espaço,
Querida, caiu em pedaços,
Ah! ah! A beleza que tinha!
Ó mesmo madrasta Natura,
Pois que uma flor assim não dura
Senão da manhã à tardinha!

Então, se me dais fé, querida,
Enquanto a idade está florida
Em seu mais viçoso verdor,
Colhei, colhei a mocidade:
A velhice, como a esta flor,
Fará murchar vossa beldade.

ODE A CASSANDRA - Trad. de R. Magalhães Jr. (1972)

Vem, amor, vem ver se a rosa
Que ontem, fresca e perfumosa
Se abriu ao sol estival,
Não perdeu o viço ainda
E conserva, rubra e linda,
Cor à de teu rosto igual.

Oh, amor! Vê quão depressa
Fenecendo, a rosa cessa
De ser bela e ser louçã!
Como é madrasta a Natura,
Pois que tal flor jamais dura
Do entardecer à manhã!

Meu conselho é, pois,amor,
Que, enquanto na vida em flor,
Encantos possam sobrar-te
Colhe, colhe a mocidade,
Pois como à rosa a idade
Da beleza há de privar-te.

Fontes:

LARANJEIRA, M. Poetas Franceses de Renascença. Seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MAGALHÃES JR, R. (org.) O livro de ouro da poesia da França. Tradução de R. Magalhães Jr. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1972

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Alceu, fragmento 130b (ed. Voigt)

ἀγνοι̣σ̣..σ̣βιότοις..ις ὀ τάλαις ἔγω
ζώω μοῖραν ἔχων ἀγροϊωτίκαν
ἰμέρρων ἀγόρας ἄκουσαι
⸏καρ̣υ̣[ζο]μένας ὦγεσιλαΐδα

αὶ β̣[ό]λ̣λ̣ας· τὰ πάτηρ καὶ πάτερος πάτηρ
κα..[.].ηρας ἔχοντες πεδὰ τωνδέων
τὼν [ἀ]λλαλοκάκων πολίτ̣αν
⸏ἔ.[..ἀ]πὺ τούτων ἀπελήλαμαι

φεύγων ἐσχατίαισ', ὠς δ' Ὀνυμακλέης
ἔ̣ν̣θα[δ'] ο̣ἶος ἐοίκησα λυκαιμίαις
.[ ]ον [π]ό̣λεμον· στάσιν γὰρ
⸏πρὸς κρ.[....].οὐκ ἄμεινον ὀννέλην·

.].[...].[..]. μακάρων ἐς τέμ[ε]νος θέων
ἐοι̣[.....].ε̣[.]αίνας ἐπίβαις χθόνος
χλι.[.].[.].[.]ν̣ συνόδοισί μ' αὔταις
⸏οἴκημ<μ>ι κ[ά]κων ἔκτος ἔχων πόδας,

ὄππαι Λ[εσβί]αδες κριννόμεναι φύαν
πώλεντ' ἐλκεσίπεπλοι, περὶ δὲ βρέμει
ἄχω θεσπεσία γυναίκων
⸏ἴρα[ς ὀ]λολύγας ἐνιαυσίας


[ ].[´̣].[.].ἀπ̣ὺ πόλλ̣ω̣ν .ότα δὴ θέοι
[ ].[ ´]σ̣κ̣...ν Ὀλ̣ύ̣μ̣πιοι

Puras...vidas...ó, pobre de mim,
vivo a sorte de um rústico,
desejando ouvir a convocação
da assembleia, ó Agesilaída

e do conselho. Coisas que meu pai e o pai do pai
tiveram até a velhice com esses
cidadãos que se entre-destroem,
delas eu fui banido

fugindo para os confins; como Onômacles,
aqui, sozinho, morei na toca dos lobos
(foragido?) da guerra. Pois sedição
contra...não é melhor (repelir?)

No santuário dos venturosos deuses
(vivi?), palmilhei a terra negra,
....em seus encontros...
Vivo bem longe dos problemas

onde as lésbias no julgamento da beleza
desfilam arrastando os vestidos, e em volta freme
o eco divino das mulheres,
o sagrado alarido das mulheres, ano a ano...

...longe de muitos um dia os deuses...
... Os olímpios...

[Tradução: Rafael Brunhara]

domingo, janeiro 20, 2019

Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) - Soneto II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado,
Porque vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio.

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês Ninfa cantar, pastar o gado,
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo, banhando as pálidas areias,
Nas porções do riquíssimo tesouro,
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o Planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

sábado, janeiro 19, 2019

Heine em tradução - Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Mário de Andrade

Du schönes Fischermädchen
Treibe das Kahn ans land;
Komm zu mir und setze dich nieder,
Wir kosen, Hand in Hand.

Leg'an mein Herz dein Kopfchen
Und furcht dich nicht so sehr
Vertraust du dich doch sorglos
Täglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht dem Meere,
Hat Sturm und Ebb und Flut,
Und mache schöne Perle
I seiner Tiefe ruht.

Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, - junto a mim
Te assenta...Quero as mãos dadas,
E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.
Não tens de que recear.
Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!

Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas pérolas encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Tradução de Mário de Andrade:

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.

sábado, dezembro 15, 2018

CONVOCAÇÃO A DIONISO - Bakkhai, vv.73-87 [1a estrofe]



[CORO DE BACANTES]:

Ó venturoso, quem feliz
conhece ritos de Deuses,
consagra a vida
e no tíaso põe a alma,
é bacante nas montanhas
em sacras purgações!
Mistérios da grande mãe
Cíbele são a lei,
o tirso agita no alto,
em hera coroado
cultua Baco!

Avante, Bacas, avante!
Brômio o Deus filho de Deus,
Dioniso, trazei
dos montes da Frígia às amplas
ruas da Grécia, Brômio!

ὦ μάκαρ, ὅστις εὐδαίμων
τελετὰς θεῶν εἰδὼς
βιοτὰν ἁγιστεύει
καὶ θιασεύεται ψυχὰν
ἐν ὄρεσσι βακχεύων
ὁσίοις καθαρμοῖσιν,
τά τε ματρὸς μεγάλας ὄρ-
για Κυβέλας θεμιτεύων
ἀνὰ θύρσον τε τινάσσων
κισσῶι τε στεφανωθεὶς
Διόνυσον θεραπεύει.

ἴτε βάκχαι, ἴτε βάκχαι,
Βρόμιον παῖδα θεὸν θεοῦ
Διόνυσον κατάγουσαι
Φρυγίων ἐξ ὀρέων Ἑλ-
λάδος εἰς εὐρυχόρους ἀ-
γυιάς, τὸν Βρόμιον·

Trad. Rafael Brunhara

quarta-feira, dezembro 05, 2018

Xenófanes, fr. 15 D-K

ἀλλ' εἰ χεῖρας ἔχον βόες <ἵπποι τ'> ἠὲ λέοντες
ἢ γράψαι χείρεσσι καὶ ἔργα τελεῖν ἅπερ ἄνδρες,
ἵπποι μέν θ' ἵπποισι, βόες δέ τε βουσὶν ὁμοίας
καί <κε> θεῶν ἰδέας ἔγραφον καὶ σώματ' ἐποίουν
τοιαῦθ', οἷόν περ καὐτοὶ δέμας εἶχον <ἕκαστοι>.

Mas se mãos tivessem os bois <cavalos> e leões
ou pudessem desenhar com as mãos e fazer obras como os homens,
então os cavalos, símeis a cavalos, e bois, símeis a bois
desenhariam as formas dos deuses e comporiam seus corpos
tal e qual o porte que <cada um deles> tem.


Trad. Rafael Brunhara

quarta-feira, novembro 21, 2018

Calímaco, Epigrama 27

Ἡσιόδου τό τ' ἄεισμα καὶ ὁ τρόπος· οὐ τὸν ἀοιδῶν
         ἔσχατον, ἀλλ' ὀκνέω μὴ τὸ μελιχρότατον
τῶν ἐπέων ὁ Σολεὺς ἀπεμάξατο· χαίρετε λεπταί
           ῥήσιες, Ἀρήτου σύμβολον ἀγρυπνίης.



De Hesíodo, a canção e o modo. Não no aedo
         exímio, mas creio que nos mais doces
 versos o homem de Sólos se moldou. Olá,
        breves linhas, sinal da vigília de Arato! 

Trad. Rafael Brunhara

quarta-feira, outubro 31, 2018

Persas, vv. 230-242


A derrota de Xerxes pelos atenienses parece certa. Enquanto isso, em Susa, capital do Império, a rainha, apreensiva, quer saber sobre que tipo de povo teria aniquilado as ambições despóticas de seu filho. É a liberdade política de Atenass a causa da queda do grande exército persa. 

Rainha
[...]Isto é o que eu quero saber,
amigos: em que terra fica Atenas?

Corifeu
 Longe, no poente, onde recosta-se o Sol soberano.

Rainha
E ainda assim meu filho deseja destruir essa cidade?

Corifeu
 Sim. Toda a Hélade se tornaria súdita do rei.

Rainha
Eles têm, então, um exército cheio de guerreiros?

Corifeu
Um exército tal que fez aos Persas muitos males.

Rainha
O que mais além disso? Bastante riqueza no lar?

Corifeu
 Têm fonte de prata, tesouro da terra.

Rainha
A seta que retesa o arco é notável em suas mãos?

Corifeu
Não! Portam lanças no corpo a corpo, escudo e armadura.

Rainha
Mas quem apascenta o povo? Quem é o senhor das tropas?

Corifeu:
Eles não se consideram escravos nem súditos de ninguém!

[Trad. Rafael Brunhara]

terça-feira, julho 03, 2018

Ogura Hyakunin Isshu - 34 (Fujiwara no Okikaze)


誰をかも
知る人にせむ
高砂の
松もむかしの
友ならなくに

Tare o ka mo
Shiru hito ni se
Takasago no
Matsu mo mukashi no
Tomo nara naku ni
*
Daqueles que amei,
quem restou? Em Takasago
o Antigo Pinheiro
tem minha idade. Mas - ai! -
nem somos velhos amigos.

[Trad. Rafael Brunhara]

(Agora que estou velho e perdendo meus amigos) Quem vou escolher pra ser minha companhia? Não posso tornar o Pinheiro de Takasago (não vai morrer antes de mim), um amigo de longa data. [Tradução em prosa de Carlos H.Fujinaga]

domingo, julho 01, 2018

Petrarca - Cancioneiro - VII

A gula e o sono, o ócio e o prazer,
têm deste mundo a virtude banido,
daí que segue um curso já perdido
o natural costume deste nosso ser:

tão morta está a luz toda do saber
vindo do céu dar à vida um sentido,
que se admira como algo merecido
fazer do Hélicon um rio nascer.

Quem sonha com o louro? Ou o mirto?
- mísera e nua, vai, filosofia; -
diz essa turba ao ganho imundo presa.

Poucos terás contigo nessa outra via:
muito te rogo então, gentil espír'to,
não deixa tua magnânima empresa.

[Trad. José Clemente Pozenato]

sábado, abril 07, 2018

Goethe, "Heidenröslein" - 4 traduções

Heidenröslein - Goethe

Sah ein Knab ein Röslein stehn,
Röslein auf der Heiden,
War so jung und morgenschön,
Lief er schnell, es nah zu sehn,
Sah’s mit vielen Freuden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.
.
Knabe sprach: „Ich breche dich,
Röslein af der Heiden!“
Röslein sprach: „Ich steche dich,
Dass du ewig denkst an mich,
und ich wills nicht leiden.“
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.
.
Und der wilde Knabe brache
‚s Röslein auf der Heiden;
Röslein wehrte sich und stach,
Half ihm doch kein Weh und Ach,
Musst es eben leiden!
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

A Rosinha do Campo (Tradução de Frei Pedro Sinzig)

O rapaz viu florescer
No campo a rosinha,
Nova e galante a valer;
Correu, p'ra de perto a ver;
Viu-a tão lindinha.
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Disse-lhe: "Vou te apanhar,
Ó fragrante rosa!"
Ela disse: "Eu sei picar,
Que em mim sempre hás de pensar,
Na flor espinhosa!"
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

E o selvagem a arrancou,
A débil rosinha!
Destemida ele o picou,
Mas, mais forte, ele a levou,
A pobre florzinha!
Rosa, minha flor gentil!
Rosa mimosinha!

Rosinha do Silvado (Tradução de Paulo Quintela)
 .
Viu um rapaz uma rosa,
Rosinha do silvado,
Tão fresquinha, tão formosa,
Que em carreira pressurosa
Salta a vê-la, extasiado,
Linda, linda rosa corada,
Rosinha do silvado.
.
Vai ele diz: “Vou-te cortar,
Rosinha do silvado!”
Diz ela: “E eu vou-te picar,
Que de mim te hás-de lembrar,
Se me cortares, malcriado!”
Linda, linda rosa corada,
Rosinha do silvado.
.
E o maroto cortou
A rosinha do silvado;
Defendeu-se ela, e picou;
Bem se carpiu e gritou…
Sempre a colheu, o malvado!
Linda, linda rosa corada,
Rosinha do silvado.

A Rosinha sobre a terra (Tradução de Raphael Soares)

Um menino viu uma rosa,
Sobre a terra a rosinha,
Como a manhã era amorosa,
A criança correu ansiosa,
Inquieto à rosa vinha.
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha.

Ele disse: “vou colher-te!”
Sobre a terra a rosinha.
Ela disse: “vou morder-te,
Que a mordida sempre alerte
Que eu não quero dor mesquinha.”
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha.

Mas a criança cruel pegou
Sobre a terra a rosinha;
Ela reagiu, mas fraquejou,
Sem sorte, seu fim chegou,
Deixa cumprir-se a sina.
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha.

A Rosa (Tradução de Wagner Schadeck)

Um menino viu ali a
Rosalina do sertão,
Bela e fresca como o dia.
E correndo com alegria,
ele quis tê-la na mão.
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.
Disse ele: “Eu vou te cortar,
Rosalina do sertão.”
Disse ela: “E eu vou te espinhar,
Não quero te ver chorar,
Doída é a recordação.”
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.

Mas o menino cortou
Rosalina do Sertão.
Rosalina o espinhou,
Não lhe adiantou “ai” nem “ou”,
Doída é a recordação.
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.

sábado, dezembro 02, 2017

Hipônax, fr. 115 West

Varrido pela onda
Em Salmidessos pelado a melhor acolhida
 os Trácios Cabeludos
 deem – aí de misérias mil se farte,
comendo pão de escravos -
hirto de frio saia da salsugem do mar
e muitas algas vomite
bata os dentes como cão de bruços
caído sem forças
no quebra-mar ...
ah isso eu queria ver
que ele me ofendeu, pisou nos pactos

ele que antes era meu amigo

 κύμ[ατι] πλα[ζόμ]ενοσ̣·
κἀν Σαλμυδ[ησς]ῶ̣ι̣ γυμνὸν εὐφρονέσ[τατα
 Θρήϊκες ἀκρό[κ]ομοι
λάβοιεν – ἔνθα πόλλ' ἀναπλήσαι κακὰ
 δούλιον ἄρτον ἔδων –  
ῥίγει πεπηγότ' αὐτόν· ἐκ δὲ τοῦ χνόου
 φυκία πόλλ' ἐπιχέοι,
κροτέοι δ' ὀδόντας, ὡς [κ]ύ̣ων ἐπὶ στόμα
 κείμενος ἀκρασίηι
ἄκρον παρὰ ῥηγμῖνα κυμα.....
 ταῦτ' ἐθέλοιμ' ἂ̣ν ἰδεῖ̣ν,  
ὅς μ' ἠδίκησε, λ̣[ὰ]ξ δ' ἐπ' ὁρκίοις ἔβη,
 τὸ πρὶν ἑταῖρος [ἐ]ών. ⊗

[Trad. Rafael Brunhara]

quarta-feira, outubro 11, 2017

As Rãs, versos 90-105 - Três traduções (Tadeu Andrade, Trajano Vieira, Junito Brandão)

Tradução de Tadeu Andrade (ANDRADE, T.B.C. A Arte de Aristófanes: estudo poético e tradução d'As Rãs. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 2014)

Hércules: Mas não há por essas bandas uma molecada nova
Escrevendo mil tragédias ou pra mais de dois milhões
E co'a língua cinco vezes mais comprida que a do Eurípides?

Dioniso: São a réstia da moléstia, uma corja de matracas,
Um coral todo de gralhas, que cagou na minha arte!
Uma vez tendo coberto a tragédia com seu mijo
Bem no dia que estrearam, saem fugidos e se escondem!
Nem buscando em todo o canto você acharia um poeta
Fértil que possa entoar um só verso de alta estirpe.

Hércules: E o que "fértil" quer dizer?

Dioniso: Fértil, oras, bem valente,
Que é capaz de recitar um verso que seja assim:
"O Éter, o quintal de Zeus" ou então "pé do Tempo"
Ou que " a mente não queria jurar pelo que é sagrado
Mas a língua fez perjúrio, sem sequer contar à mente".

Hércules: Isso aí é o que te agrada?

Dioniso: Isso me leva à loucura!

Hércules: Mas vai ter que admitir que é uma bela de uma bosta.

Tradução de Trajano Vieira
(VIEIRA, T. As Rãs. São Paulo: Cosac&Naify, 2014):

HÉRACLES Quer dizer que acabou a penca de janotas
escriturários de tragédia aos borbotões,
falantes pelos cotovelos mais que Eurípides?

DIONISO São uns uvoides, bons só no gogó, a musa
de quem corrompe a técnica é o papagaio.
Desaparecem ao paparem um só coro,
tendo urinado na tragédia uma vez.
Mas se o que buscas é um poeta original,
capaz de renovar a elocução, esquece!

HÉRACLES Original em que sentido?

DIONISO Que aceita o risco quando configura um verso,
algo do tipo: "Puxadinho do Cronida:
Éter!", senão: "o pé do Tempo". Eis outro exemplo:
"a mente recusando a jura sobre as vítimas,
perjura a língua que independe de sua mente"

HÉRACLES Caramba! Gostas dessa baboseira?

DIONISO Só de escutá-la, piro.

HÉRACLES Mas sabe que não passa de um efeito pífio.

Tradução de Junito Brandão
(BRANDÃO, J. Teatro Grego. Eurípides, Aristófanes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1986)

HÉRACLES Não há por aqui outros jovens poetas, que compõem tragédias, cujo número excede a dez mil e que são infinitamente mais tagarelas que Eurípides?

BACO Tudo isso é rebotalho, mera tagarelice, música de andorinhas; corruptores da arte, que rapidamente se eclipsam, tão logo obtenham um coro, pelo simples prazer de terem mijado na musa trágica. Mas um poeta "inspirado" que nos faça ouvir expressões nobres ainda que o procures, não o encontrarás.

HÉRACLES Inspirado, como?

BACO: Sim, inspirado, como aquele que fosse capaz de inventar expressões atrevidas, do quilate de "Éter, pequenina mansão de Zeus" ou o "pé do tempo", ou ainda "o coração não quer jurar pelas vítimas, mas a língua perjura sem a cumplicidade do coração".

Héracles: Gostas dessas coisas?

BACO: Melhor seria dizer que estou mais do que louco por elas.

HÉRACLES: Em verdade são malabarismos e esta é também a tua opinião.

Safo, Fragmento 31 - Tradução de Marcos Müller

Me faz pensar nos deuses o tal
cara que na tua frente sentou
e de pertinho a falares me-
-líflua te escuta

E a sorrires graciosa, socorro,
dispara no peito o coração,
pois mal te olho, guria, que a voz foge
e não mais volta:

Dormente ficou a língua, súbito
um fogo agudo a pele transiu,
os olhos nem vejo nada, os ou-
vidos zunzunem,

Eis que o suor escorre, e me bate
uma tremedeira, desverdeço
qual capim, carente de estar morta
me faço eu mesma.

Mas aguenta firme, embora penes...

domingo, outubro 01, 2017

Quinto de Esmirna, Posthomerica, Canto I, vv. 717-766 (A Morte de Tersites) - Trad. Rafael Brunhara

Então os filhos mavórcios de Argivos valorosos
Põem-se a saquear pressurosos sangrentas armas de mortos.
De toda a parte acorriam. Mas o Pelida fundo se doía:
admirava a sedutora força da dama, no pó. (720)
Por isso lhe consumiam o peito agonias funestas
Iguais a antes quando domado Pátroclo seu amigo.

Mas Tersites cara a cara com más palavras vitupera:
“Aquiles de coração horrendo! Que nume te ilude
o ânimo no peito por essa Amazona desgraçada? (725)
Contra nós dois ela ansiava maquinar males terríveis!
No fundo do coração tu és um mulherengo,
pensas nela como esposa prudente, uma noiva
cortejada com presentes, desejoso de casar!
Ela que deveria tê-lo ferido na luta primeiro, com a lança, (730)
já que o tempo todo teu coração delira com fêmeas,
e não interessam mais ao teu destrutivo espírito
feitos gloriosos de virtude, quando vês uma mulher.
Maldito! Onde estão agora tua força e inteligência?
Onde a força daquele rei sem censura? Não sabes (735)
Quanta dor veio aos Troianos por desejar mulheres?
Nada mais terrível para os mortais do que o prazer
de lançar-se ao leito, que faz insensato o homem,
por mais prudente que seja. Só o esforço outorga glória.
Para um lanceiro a glória da vitória e as proezas de Ares (740)
são prazeres, é o covarde quem gosta de leito feminino.”

Falou, vituperando muito. Supercolérico o ânimo
Do animoso Pelida. Súbito, com punho potente
Deu-lhe um soco no queixo; de uma só vez todos
os dentes se espalharam sobre a terra. Ele mesmo (745)
caiu de cabeça; da sua boca o sangue borbotava.
Imediatamente foi-se dos membros a vida frágil
Desse homem insignificante. Alegra-se a tropa:
Vituperava-os demais com brutos impropérios,
Injurioso ser! Era a vergonha dos Dânaos. (750)
Eis a a fala entre os argivos céleres em Ares:
“Não é bom que fracos ultrajem reis, às claras
ou em segredo. Horrenda cólera o encalça.
Há justiça. Das línguas sem pudor, Ate cobra o preço.”

Assim falavam os Dânaos. Mas ainda zangado no ânimo (755)
O animoso Pelida tal palavra proferiu:
“Jaz no pó agora, olvidado de teus desatinos.
Não cabe ao vil medir-se com homem mais forte.
Antes também o peito paciente de Odisseu
provocaste duramente, lançando mil censuras. (760)
Mas o Pelida não é igual a ele. Tirei-te a vida,
sem nem mesmo pesar minha mão
no golpe. Destino sem mel eclipsou-te.
Por tua debilidade perdeste a vida. Deixa para trás
os Aqueus e vai entre mortos proferir teus impropérios”. (765)
Assim falou o destemido filho do Eácida valente.

Καὶ τότ' ἀρήιοι υἷες ἐυσθενέων Ἀργείων
σύλεον ἐσσυμένως βεβροτωμένα τεύχεα νεκρῶν
πάντῃ ἐπεσσύμενοι. Μέγα δ' ἄχνυτο Πηλέος υἱὸς
κούρης εἰσορόων ἐρατὸν σθένος ἐν κονίῃσι· (720)
τοὔνεκά οἱ κραδίην ὀλοαὶ κατέδαπτον ἀνῖαι,
ὁππόσον ἀμφ' ἑτάροιο πάρος Πατρόκλοιο δαμέντος.

Θερσίτης δέ μιν ἄντα κακῷ μέγα νείκεσε μύθῳ·
»Ὦ Ἀχιλεῦ φρένας αἰνέ, τί ἤ νύ σευ ἤπαφε δαίμων
θυμὸν ἐνὶ στέρνοισιν Ἀμαζόνος εἵνεκα λυγρῆς (725)
ἣ νῶιν κακὰ πολλὰ λιλαίετο μητίσασθαι;
Καί τοι ἐνὶ φρεσὶ σῇσι γυναιμανὲς ἦτορ ἔχοντι
μέμβλεται ὡς ἀλόχοιο πολύφρονος ἥν τ' ἐπὶ ἕδνοις
κουριδίην μνήστευσας ἐελδόμενος γαμέεσθαι.
Ὥς <σ'> ὄφελον κατὰ δῆριν ὑποφθαμένη βάλε δουρί, (730)
οὕνεκα θηλυτέρῃσιν ἄδην ἐπιτέρπεαι ἦτορ,
οὐδέ νυ σοί τι μέμηλεν ἐνὶ φρεσὶν οὐλομένῃσιν
ἀμφ' ἀρετῆς κλυτὸν ἔργον, ἐπὴν ἐσίδῃσθα γυναῖκα.
Σχέτλιε, ποῦ νύ τοί ἐστι † περὶ † σθένος ἠδὲ νόημα;
Πῇ δὲ βίη βασιλῆος ἀμύμονος; Οὐδέ τι οἶσθα (735)
ὅσσον ἄχος Τρώεσσι γυναιμανέουσι τέτυκται;
Οὐ γὰρ τερπωλῆς ὀλοώτερον ἄλλο βροτοῖσιν
ἐς λέχος ἱεμένης, ἥ τ' ἄφρονα φῶτα τίθησι
καὶ πινυτόν περ ἐόντα. Πόνῳ δ' ἄρα κῦδος ὀπηδεῖ·
ἀνδρὶ γὰρ αἰχμητῇ νίκης κλέος ἔργα τ' Ἄρηος (740)
τερπνά, φυγοπτολέμῳ δὲ γυναικῶν εὔαδεν εὐνή

Φῆ μέγα νεικείων· ὃ δέ οἱ περιχώσατο θυμῷ
Πηλείδης ἐρίθυμος. Ἄφαρ δέ ἑ χειρὶ κραταιῇ
τύψε κατὰ γναθμοῖο καὶ οὔατος· οἳ δ' ἅμα πάντες
ἐξεχύθησαν ὀδόντες ἐπὶ χθόνα, κάππεσε δ' αὐτὸς (745)
πρηνής· ἐκ δέ οἱ αἷμα διὰ στόματος πεφόρητο
ἀθρόον· αἶψα δ' ἄναλκις ἀπὸ μελέων φύγε θυμὸς
ἀνέρος οὐτιδανοῖο. Χάρη δ' ἄρα λαὸς Ἀχαιῶν·
τοὺς γὰρ νείκεε πάμπαν ἐπεσβολίῃσι κακῇσιν
αὐτὸς ἐὼν λωβητός· ὃ γὰρ Δαναῶν πέλεν αἰδώς. (750)
Καί ῥά τις ὧδ' εἴπεσκεν ἀρηιθόων Ἀργείων·
»Οὐκ ἀγαθὸν βασιλῆας ὑβριζέμεν ἀνδρὶ χέρηι
ἀμφαδὸν οὔτε κρυφηδόν, ἐπεὶ χόλος αἰνὸς ὀπηδεῖ·
ἔστι θέμις, καὶ γλῶσσαν ἀναιδέα τίνυται Ἄτη
ἥ τ' αἰεὶ μερόπεσσιν ἐπ' ἄλγεσιν ἄλγος ἀέξει.» (755)

Ὣς ἄρ' ἔφη Δαναῶν τις· ὃ δ' ἀσχαλόων ἐνὶ θυμῷ
Πηλείδης ἐρίθυμος ἔπος ποτὶ τοῖον ἔειπε·
»Κεῖσό νυν ἐν κονίῃσι λελασμένος ἀφροσυνάων·
οὐ γὰρ ἀμείνονι φωτὶ χρεὼ κακὸν ἀντιφερίζειν·
ὃς καί που προπάροιθεν Ὀδυσσῆος ταλαὸν κῆρ (760)
ἀργαλέως ὤρινας ἐλέγχεα μυρία βάζων.
Ἀλλ' οὐ Πηλείδης τοι ὁμοίιος ἐξεφαάνθη<ν>,
ὅς σευ θυμὸν ἔλυσα καὶ οὐκ ἐπὶ χειρὶ βαρείῃ
πληξάμενος· σὲ δὲ πότμος ἀμείλιχος ἀμφεκάλυψε,
σῇ δ' ὀλιγοδρανίῃ θυμὸν λίπες. Ἀλλ' ἀπ' Ἀχαιῶν (765)
ἔρρε καὶ ἐν φθιμένοισιν ἐπεσβολίας ἀγόρευε.»
Ὣς ἔφατ' Αἰακίδαο θρασύφρονος ἄτρομος υἱός.

[Trad. Rafael Brunhara]

sábado, setembro 30, 2017

Hipônax, fr. 120 W + 121 W

λάβετέ μεο ταἰμάτια, κόψω Βουπάλωι τὸν ὀφθαλμόν
ἀμφιδέξιος γάρ εἰμι κοὐκ ἁμαρτάνω κόπτων.

Segurem meu casaco, vou socar Búpalo no olho;
pois sou ambidestro e socando não erro.

[Tradução: Rafael Brunhara]