domingo, março 17, 2019

Entusiasmo - Cecília Meireles

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
-- por que suspiro -- distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

Sou de ciganos e de adivinhos.
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.

Ide com os zoilos e os sicofantes.
Mas respeitai vossos adversários,
que nem querem ser triunfantes.

Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.

E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.

De Retrato Natural, in Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

sexta-feira, março 15, 2019

Arquíloco - fr.51B./ fr.130W

Fragmento 51 (Edição de T.Bergk, Anthologia Lyrica, 1907)

τοῖς θεοῖς τίθειν ἁπάντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Confia tudo aos deuses: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

[Trad. Rafael Brunhara]

Fragmento 130 (Edição de M.West, Elegi et Iambi Graeci I 1971)


τοῖς θεοῖς †τ' εἰθεῖάπαντα· πολλάκις μὲν ἐκ κακῶν
ἄνδρας ὀρθοῦσιν μελαίνηι κειμένους ἐπὶ χθονί,
πολλάκις δ' ἀνατρέπουσι καὶ μάλ' εὖ βεβηκότας
ὑπτίους, κείνοις <δ'> ἔπειτα πολλὰ γίνεται κακά,
καὶ βίου χρήμηι πλανᾶται καὶ νόου παρήορος.

Aos deuses tudo é reto: muitas vezes dos males
erguem os homens sobre a terra negra prostrados;
e, muitas vezes, os que estão firmes eles viram
do avesso; então lhes vêm muitos males,
[o homem] vaga sem meios e fora de si.

sexta-feira, março 08, 2019

Ressurgiremos

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

[Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Poética. Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018)