domingo, dezembro 19, 2010

Passagem do ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles . . . e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade,
A rosa do povo, 1945.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Hino Homérico XXVI: A Dioniso

De cabelos hederosos Dioniso mui clamoroso começo a cantar,
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa:  ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez
e das estações vir outra vez por muitos anos.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXI: A Apolo

Febo se a ti até o cisne com canoras asas canta
ao monte lançando-se das margens do rodopiante rio
Peneu, também a ti o aedo portando a lira canora
de doce voz canta no princípio e no fim.
Também assim, tu, salve, soberano: propicio-te com o canto.

Tradução: Rafael Brunhara