segunda-feira, dezembro 13, 2010

O medo

A Antonio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é do medo."
Antonio Candido,
Plataforma de uma geração.

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:

carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós; e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos,
Nossos filhos tão felizes . . .
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Píndaro - Fragmentos

Hiporquemas

Fragmento 108

Quando um Deus aponta o início
de cada ação, reto então é
o caminho para obter virtude,
mais belo é o fim.

Fragmento 142

Um Deus é capaz de evocar
da negra noite a imaculada luz
E em sombria turva nuvem
ocultar o puro esplendor
do dia.


Fragmentos Incertos

Fragmento 150

Dá teu augúrio, Musa! Serei teu profeta.

Fragmento 159

De homens justos o tempo é o salvador supremo.

[Tradução Rafael Brunhara]

terça-feira, dezembro 07, 2010

Medeia vv. 1-52 - Duas traduções

 [Cena diante do palácio de Medeia, de onde sai a nutriz]

NUTRIZ

Argo, carena transvoante, não
cruzara o azul-cianuro das Simplégades,
rumo aos colcos! O talhe em pinho pélio
não produzira o remo dos heróis
condutores do velo pandourado
a Pélias: longe das ameias de Iolco,
Medeia ficaria, e eu com ela,
sem que eros, por Jasão, a transtornasse!
Nem Pélias jazeria pelas mãos
das filhas convencidas por quem sirvo,
nem ela viveria com os filhos
e o marido no exílio de Corinto,
sempre solícita com os daqui,
jamais em discordância com o cônjuge.
Se há concordância entre o casal, a paz
no lar é plena. O amor adoece agora,
instaura-se o conflito, pois Jasão
deitou-se com a filha de Creon.
Rebaixa a própria esposa e os descendentes.
Medeia amealha a messe da miséria,
soergue a destra, explode em jura, evoca
o testemunho dos divinos: eis
a paga de Jasão com o que lucra!
Seu corpo carpe, inane ela se prostra,
delonga o pranto grave assim que sabe
o quanto fora injustiçada. O olhar
sucumbe à terra, nada a faz erguê-lo,
feito escarcéu marinho, feito pedra,
discerne o vozerio amigo, exceto
quando regira o colo ensimesmado,
alvíssimo, em lamúrias pelo pai,
pelo país natal, que atraiçoou
por quem sem honra a tem agora. Aprende
o quanto custa renegar o sítio
natal. Ao ver os filhos, tolda o cenho
com desdém. Tremo só de imaginar
que trame novidades. Sua psique
circunspecta suporta mal a dor.
Conheço-a de longa data e não
descarto a hipótese de que apunhale
o fígado, depois que entrou sem voz,
rumo ao leito...ou será que mata o rei
e o marido, agravando o quadro mais?
Ela é terribilíssima. Ninguém
que a enfrente logra o louro facilmente.
Seus filhos chegam, finda a correria,
sem ter noção do que acomete a mãe,
pois tem horror à dor a mente em flor.


Tradução de Trajano Vieira
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução, posfácio e notas de Trajano Vieira. Comentário de Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Editora 34, 2010.

NUTRIZ

Nunca a nau Argo, rumo a solo cólquido,
transvoasse as negras fragas das Simplégades!
Jamais nos pélios bosques decaísse
cortado pinho que virasse remo
em mãos de bravos que o pancríseo velo
deram a Pélias! Pois Medéia minha
dona às torres da terra de Iolco nunca
viria, por Jasão de amor turbada,
nem de Pélias as filhas suadiria
a matá-lo; aqui nunca viveria
com seu marido e filhos, agradando
êxule ao povo da coríntia terra,
ela em tudo concorde com Jasão.
A segurança torna-se suprema
quando mulher do esposo não disside.
Mas ora é tudo imigo, sofre o amor:
traiu seus filhos e a senhora minha
Jasão em núpcias régias foi deitar-se
co a filha de Creonte, o soberano.
Medéia, a miseranda, desonrada
evoca juramentos, clama a fé
empenhada: deidades chama testes
do que recebe de Jasão em troca.
Jaz inane. seu corpo entregue a dores,
esvaindo-se o tempo todo em lágrimas,
pós ouvir que seu homem a lesara.
Nem alça os olhos nem afasta o rosto
da terra e como pedra ou onda equórea
condescende aos conselhos dos amigos -
exceto quando vira o colo alvíssimo
e deplora consigo o caro pai,
a terra, a casa que traiu ao vir
com o varão que desonrada a tem.
Aprende a desgraçada, no desastre,
que deixar não se deve o solo pátrio.
Odeia aos filhos, não lhe apraz olhá-los.
Tremo que trame novidades, pois
o espírito tem grave e a dor não há
de suportar: eu a conheço e temo
que no fígado finque agudo gládio,
após entrar silente no aposento
ou que mate o tirano e o que se casa
e receba depois maior desdita.
Ela é terrível: quem seu inimigo
se tornar nao trará vitória fácil.
Mas eis que, findas as corridas, vêm
as crianças, incônscias das agruras
da mãe: sofrer não ama a mente nova.


Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira.
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira. São Paulo: Odysseus, 2006.