Não saiu de uma mãe nem soube de ascendentes.
De Adão e de Quijano o caso é igual, decerto.
Está feito de acaso. Imediato ou ao perto,
regem-no os vaivéns de leitores diferentes.
Não é um erro pensar que nasce no momento
em que o vê aquele outro que dirá sua história
e que perece a cada eclipse da memória
de nós que o sonhamos. É mais oco que o vento.
Casto, nada sabe do amor. Foi seu intento.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive sozinho e à parte.
Também é alheio a essa outra arte, o esquecimento.
Sonhou-o um irlandês, que não lhe teve afeto
e tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Vai prosseguindo o homem só, lupa na mão,
sua estranha sorte instável de algo incompleto.
Não cultiva amizades, no entanto abençoa
a devoção ao outro, que foi seu evangelista
e que de seus milagres consignou a lista.
Vive de modo cômodo: em terceira pessoa.
Não vai mais ao banheiro. Tampouco visitava
esse retiro Hamlet, morto na Dinamarca
sem saber quase nada sobre essa comarca
da espada e do mar, do arco e da aljava.
(Omnia sunt plena Jovis. Do mesmo modo, à vera,
diremos desse justo que nome dá aos versos
que sua inconstante sombra percorre os diversos
domínios em que foi parcelada a esfera.)
Atiça na lareira as abrasadas ramas
ou extermina nos páramos um desses cães do inferno.
Esse alto cavalheiro não sabe que é eterno.
Resolve ninharias e repete epigramas.
Chega-nos de uma Londres de gás e de neblina,
da Londres que se sabe capital de um império
que pouco lhe interessa, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer perceber que já declina.
Não nos maravilhemos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (que são a mesma coisa)
depara a cada um essa sorte curiosa
de ser ecos ou formas que morrem dia a dia.
Que morrem até um dia final em que o olvido,
que é a meta comum, esqueça-nos de todo.
Antes que nos alcance, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ter sido.
Dos bons costumes que nos restam um é pensar
tarde após tarde em Sherlock Holmes. A morte
e a sesta são outros. Também é nossa sorte
convalescer em um jardim ou a lua contemplar.
Jorge Luis Borges
Tradução: Josely Vianna Baptista
Fonte: BORGES, J.L. Jorge Luis Borges, Obras Completas, volume 3. São Paulo: Globo, 1999.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
terça-feira, janeiro 26, 2010
Safo: fragmento 2 L-P
Vem de Creta até este puro santuário,
onde há para ti um querido bosque
de macieiras, altares que se acen-
-dem com incensos:
Lá águas frescas murmuram através de ramos
de macieiras, sombreia-se com rosas
todo o solo, e de trementes folhagens
derrama-se um feitiço: o sono.
Lá viceja um prado, pasto de corcéis,
com flores de primavera, e os ventos
sopram docemente:
Aqui, Cípris, tu conquistaste
néctar mesclado a festividades
vertendo-o com delicadeza
em nossos dourados cálices.
Outras fontes do fragmento:
Hermógenes, As formas do estilo, 2.34:
"E (sc. sobre os prazeres) pode-se descrever com simplicidade aqueles que não são torpes, como a beleza de uma região, plantas diversas, a variedade dos rios e tantas outras coisas. É que estes incutem prazer aos olhos, ao serem vistos, e aos ouvidos, quando alguém os anuncia, como fez Safo:
“ à sua volta, águas frescas murmuram através de ramos de macieiras”, e “das trementes folhagens derrama-se um feitiço: o sono”. e o que mais é dito antes desses versos e depois.
Ateneu, o Banquete dos eruditos:
E segundo a bela Safo:
“Vem, Cípris,
Vertendo com delicadeza
Em nossos dourados cálices
Néctar mesclado a festividades”
Aos meus e aos teus companheiros.
(Tradução de Rafael Brunhara)
onde há para ti um querido bosque
de macieiras, altares que se acen-
-dem com incensos:
Lá águas frescas murmuram através de ramos
de macieiras, sombreia-se com rosas
todo o solo, e de trementes folhagens
derrama-se um feitiço: o sono.
Lá viceja um prado, pasto de corcéis,
com flores de primavera, e os ventos
sopram docemente:
Aqui, Cípris, tu conquistaste
néctar mesclado a festividades
vertendo-o com delicadeza
em nossos dourados cálices.
Outras fontes do fragmento:
Hermógenes, As formas do estilo, 2.34:
"E (sc. sobre os prazeres) pode-se descrever com simplicidade aqueles que não são torpes, como a beleza de uma região, plantas diversas, a variedade dos rios e tantas outras coisas. É que estes incutem prazer aos olhos, ao serem vistos, e aos ouvidos, quando alguém os anuncia, como fez Safo:
“ à sua volta, águas frescas murmuram através de ramos de macieiras”, e “das trementes folhagens derrama-se um feitiço: o sono”. e o que mais é dito antes desses versos e depois.
Ateneu, o Banquete dos eruditos:
E segundo a bela Safo:
“Vem, Cípris,
Vertendo com delicadeza
Em nossos dourados cálices
Néctar mesclado a festividades”
Aos meus e aos teus companheiros.
(Tradução de Rafael Brunhara)
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Sólon: Fragmentos
9 W
Da nuvem vem a fúria da neve e do granizo
e o trovão nasce do raio fulgurante;
por causa de homens poderosos a cidade perece
e o povo em sua ignorância cai na escravidão de um só governante.
Quando um homem se elevou muito, não é fácil contê-lo depois;
mas agora é preciso considerar tudo isso.
10 W
Breve tempo mostrará aos cidadãos a minha loucura,
mostrará, quando a verdade vier a público.
12 W
Pelos ventos o mar é perturbado; se nenhum (vento) o agita
é a mais justa de todas as coisas.
14 W
Não, homem algum é feliz: miseráveis
são todos os mortais que o sol contempla.
16 W
É muito difícil conhecer a medida oculta da sabedoria,
ela, a única que tem o fim de todas as coisas.
17 W
De todos os lados, a mente dos imortais é oculta aos homens.
22a W
Dize por mim a Crítias de ruivos cabelos que ouça o seu pai,
pois não obedecerá um guia de mente errada.
23 W
Feliz quem possui filhos queridos, cavalos de casco não partido,
cães de caça e um hóspede estrangeiro.
25 W
Até a amável flor da juventude amarás um rapaz,
desejando suas coxas e sua doce boca.
Tradução: Gilda N.M. de Barros
Da nuvem vem a fúria da neve e do granizo
e o trovão nasce do raio fulgurante;
por causa de homens poderosos a cidade perece
e o povo em sua ignorância cai na escravidão de um só governante.
Quando um homem se elevou muito, não é fácil contê-lo depois;
mas agora é preciso considerar tudo isso.
10 W
Breve tempo mostrará aos cidadãos a minha loucura,
mostrará, quando a verdade vier a público.
12 W
Pelos ventos o mar é perturbado; se nenhum (vento) o agita
é a mais justa de todas as coisas.
14 W
Não, homem algum é feliz: miseráveis
são todos os mortais que o sol contempla.
16 W
É muito difícil conhecer a medida oculta da sabedoria,
ela, a única que tem o fim de todas as coisas.
17 W
De todos os lados, a mente dos imortais é oculta aos homens.
22a W
Dize por mim a Crítias de ruivos cabelos que ouça o seu pai,
pois não obedecerá um guia de mente errada.
23 W
Feliz quem possui filhos queridos, cavalos de casco não partido,
cães de caça e um hóspede estrangeiro.
25 W
Até a amável flor da juventude amarás um rapaz,
desejando suas coxas e sua doce boca.
Tradução: Gilda N.M. de Barros
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