segunda-feira, janeiro 18, 2010

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos da obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
da nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade, in: Farewell.

domingo, janeiro 17, 2010

Teognideia, 1319-1328, 1335-1336

1319-1322

Menino, já que a Cípris te dá ardente graça,
que teu porte aos moços todos concerne,
ouve estes versos e põe no coração minha graça,
ciente do quão árduo é ao homem suportar o amor.


1323-1326

Ciprogênia, cessa-me os suplícios, dissipa-me anseios
que devoram o coração, volta-me para a alegria:
cessa os maus cuidados, dá ao meu coração alegre,
findado o apogeu da juventude, atos de prudência.


1327-1328

Menino, enquanto tiveres queixo implume, nunca deixarei
de cortejá-lo, inda que morrer seja meu destino.


1335-1336


Feliz, quem ama se exercitar e quando vai
p’ra casa, dorme o dia todo com um belo menino


(Tradução de Rafael Brunhara)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Velas

Os dias do futuro erguem-se diante de nós
como uma série de pequenas velas acesas -
pequenas velas douradas, quentes e vivas.

Os dias passados ficam atrás,
uma triste fileira de velas apagadas;
as mais próximas ainda exalam fumaça,
velas frias, derretidas e recurvadas.

Não quero vê-las; entristece-me seu aspecto,
e entristece-me lembrar seu primeiro clarão.
Adiante contemplo minhas velas acesas.

Não quero voltar-me para não ver, apavorado,
com que rapidez a sombria fileira se alonga,
com que rapidez se multiplicam as velas apagadas!

Konstantinos Kaváfis

Tradução de Ísis B. da Fonseca