terça-feira, dezembro 08, 2009

Filodemo: Antologia Grega

7.222

Aqui jaz o corpo macio da luxuriosa Trigónion,
flor das Salmáquidas cultuadoras de Sabázio;
era-lhe grata a loquaz alegria do templo de Rea
e por ela tinha a mãe dos deuses grande afeto.
Nenhuma outra mulher amou assim os mistérios da Cípria
nem chegou tão perto dos encantos de Laís.
Faz brotar, pó sagrado, sobre a estela da que amava Baco,
não espinhos, mas cálices de violetas brancas.


11.30

Eu que outrora dava de cinco a nove, Afrodite, agora
mal dou uma do começo ao fim da noite;
isso que, ai de mim, jaz amiúde semimorto, aos poucos
vai perecendo. Que castigo de Térmero!
Oh, velhice, velhice, que hás de fazer mais tarde, quando
chegares, se já estou assim inerme?

Tradução de José Paulo Paes

Fonte: PAES, J.P. Poemas da Antologia Grega ou Palatina.São Paulo: Companhia das Letras. 1995

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O Funeral de Sarpédon

Kaváfis ("O funeral de Sárpedon")

Grande dor sente Zeus. Pátroclo
matou Sárpedon; e agora se lançam
Menecíades e os aqueus para arrebatar
e aviltar o corpo.

Mas Zeus não concorda absolutamente com isso.
Ao seu filho amado - a quem deixou
morrer: tal era a Lei -
pelo menos o honrará depois de morto.
E eis que envia Febo à planície, lá embaixo,
instruído em como cuidar do corpo.

O cadáver do herói, com respeito e com pesar
Febo levanta-o e leva-o ao rio.
Lava-o da poeira e do sangue;
fecha as horríveis feridas, não deixando
aparecer nenhum vestígi; verte
os aromas de ambrosia sobre ele; com magníficos
trajes olímpicos veste-o.
Branqueia sua pele e com pente
de pérolas penteia seus negríssimos cabelos.
Os belos membros ajeita e estende.

Agora se assemelha a um rei auriga -
em seus vinte e cinco, em seus vinte e seis anos -
que repousa depois que ganhou,
com um carro de ouro e velocíssimos cavalos,
em uma famosa corrida o prêmio.

Assim, quando Febo terminou
sua missão, chamou os dois irmãos
Hipnos e Tânatos, ordenando-lhes
levar o corpo para a Lícia, rica região.

E por aquela rica região, a Lícia,
caminharam esses dois irmãos,
Hipnos e Tânatos, e quando enfim chegaram
à porta da casa real
entregaram o glorioso corpo,
e retornaram aos seus cuidados e trabalhos.

E quando o receberam ali, na casa, começou
com procissões, honras e lamentos,
e com abundantes libações de crateras sagradas,
e com tudo o que é adequado, o triste sepultamento;
e depois, hábeis artesãos da cidade,
e famosos artífices de pedra,
vieram erguer o túmulo e a estela.

Tradução de Ísis B. da Fonseca.

Ilíada, XVI. 666-684

A Apolo disse então o ajunta-nuvens Zeus:
"Do sangue escuro, Febo dileto, depura
Sarpédon, arredando-o das flechas; levando-o
bem longe, lava-o na água de uma corrente; unge-o
de ambrosia e o reveste de imortais roupagens;
depois, a portadores velozes o entrega,
aos gêmeos Sono e Morte, que o conduzirão
ao opulento e vasto país dos Lícios, onde
os parentes e amigos lhe darão sepulcro
e estela, privilégios e pompas da morte."
Falou. E Apolo não deixou de ouvir o Pai.
Baixa dos altos do Ida à batalha feroz.
Das flechadas arreda o divino Sarpédon.
Leva-o bem longe; lava-o na água corente; unge-o
de ambrosia e o reveste de imortais roupagens;
depois, a portadores velozes, o entrega,
aos gêmeos Sono e Morte, que o conduzem presto
ao opulento e vasto país do povo lício.

Tradução de Haroldo de Campos.

Calímaco: Antologia Grega

7.524

A. Jaz Caridas sob ti?
B. Sim, se for filho de Arima, o Cireneu.
A. Ei, Caridas, que tal aí embaixo?
C. Trevas só.
A. E quanto à volta?
C. Mentira.
A. E Plutão?
C. Um mito.
A. Então estamos fritos.
C. Crê no que te digo. Mas se queres algo de aprazível, há boi
barato no Hades.

12.43

Detesto o poema em série; tampouco me agrada o caminho
que leva muitos a várias direções.
Odeio também o amado a varejo, não bebo da fonte,
me aborrece tudo quanto seja público.
Lisânias, é um tesouro, um tesouro; mas antes de eu dizê-lo
claramente, um eco o faz: É de outro, é de outro".

Outra tradução (João Ângelo Oliva Neto)

12.102

Caçador, Epicides persegue nas montanhas toda
lebre e segue as pegadas das gazelas
pela geada e pela neve. Mas se alguém lhe diz:
"Eis um bicho ferido", não o quer.
Assim também o meu amor: perseguindo o que lhe foge,
deixa para trás o que jaz no chão.

12.118

Mil vezes me censura, Arquino, se eu buscar-te de meu grado;
mas, se mau grado meu, releva o açodamento:
amor e vinho forte compeliram-me, um com me empolgar,
outro com tirar-me sobriedade ao espírito.
Aqui chegado, não gritei quem sou nem de quem sou; beijei
tão-só os umbrais; se isso é erro, então errei.

12.139

Existe sim, eu juro por Pã e por Dioniso,
um fogo escondido debaixo das cinzas;
desconfio de mim. Não me abraces; muitas vezes,
rio calmo rói o muro pela base.
Temo pois, Menexeno, que entrando em mim, silente,
este furtivo me atire para o amor.

13.7

Menoítas, o líctio, ofereceu suas armas
com estas palavras: eis meu arco e meus carcás,
Serápis, mas as flechas têm-nas os hesperídios.

Tradução de José Paulo Paes.

Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina. SP: Cia das letras, 1995.