sexta-feira, outubro 09, 2009

Aspiração

Já não queria a maternal adoração
que afinal nos exaure, e resplandece em pânico,
tampouco o sentimento de um achado precioso
como o de Catarina Kippenberg aos pés de Rilke.

E não queria o amor, sob disfarces tontos
da mesma ninfa desolada no seu ermo
e a constante procura de sede e não de linfa,
e não queria também a simples flor do sexo,

abscôndita, sem nexo, nas hospedarias do vento,
como ainda não quero a amizade geométrica
de almas que se elegeram numa seara orgulhosa,
imbricamento, talvez? de carências melancólicas.

Aspiro antes à fiel indiferença
mas pausada bastante para sustentar a vida
e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante,
capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Teognideia, vv. 01-04

Ó senhor, filho de Leto, nascido de Zeus, jamais te
esquecerei nem ao começar a compor nem ao terminar
mas, sempre, no início, no fim e no decorrer do poema
te cantarei; assim, ouve-me e concede-me teu favor.

Tradução: Daisi Malhadas e Maria Helena da Moura Neves

Fonte: MALHADAS, D. & NEVES, M.H.M. Antologia de poetas gregos de Homero a Píndaro. Araraquara: FFCLAr-UNESP, 1976

Sólon Fr. 4 W (Tradução de Daisi Malhadas e Maria Helena da Moura Neves)

Nossa cidade jamais pelo desígnio de Zeus
perecerá nem pela vontade dos bem-aventurados deuses imortais
pois a tão magnânima e protetora Palas Atena,
filha do poderoso pai, tem suas mãos sobre nós.
Os próprios cidadãos, porém, querem destruir, com suas loucuras [5]
nossa grande cidade, persuadidos pelas riquezas,
e há também o injusto propósito dos chefes do povo,para os quais está reservado,
por seu grande descomedimento, muitas dores sofrer:
pois nem sabem controlar a fartura nem organizar
com tranqulidade as alegrias do festim de hoje [10]
..............................................
enriquecem, por ações injustas deixando-se persuadir
.............................................
nem os bens sagrados nem os do estado
poupam, mas furtam-nos em pilhagem cada qual por seu lado,
nem guardam os veneráveis fundamentos da Justiça,
a qual, silenciosa, ciente do que acontece e do que aconteceu,[15]
com o tempo vem para executar cabal vingança.
Esta ferida inevitável já atinge a cidade toda,
leva-a rapidamente à nociva escravidão,
que desperta a sedição civil e a guerra adormecida,
esta que foi a ruína da juventude encantadora de muitos homens;[20]
pois pelos inimigos rapidamente uma cidade formosa
é arruinada nas associações em que se comprazem os injustos.
Esses os males que envolvem o povo; muitos
pobres chegam a uma terra estranha
vendidos e, com desonrosas correntes, amarrados,[25]
.................................................
Assim o infortúnio público atinge cada um em sua casa;
as portas do pórtico não podem detê-lo,
por cima do elevado muro salta, e encontra por certo o morador
mesmo que fuja para a parte mais recuada de seu quarto.
Ensinar isto aos atenienses é o que o meu coração ordena: [30]
de que modo os mais numerosos males a uma cidade Disnomia causa,
e de que modo Eunomia garante ordem e justiça plena e sempre aos injustos acorrenta;
ela aplaina as asperezas, faz cessar a fartura, aniquila o descomedimento,
seca as flores da desgraça, quando brotam,
corrige os julgamentos errados e modera as ações
orgulhosas; faz cessar as obras da discórdia,
faz cessar o ódio da terrível sedição, e graças a ela
todas as ações humanas são justas e sábias.

Tradução de Daisi Malhadas e Maria Helena da Moura Neves

Fonte: MALHADAS, D. & NEVES, M.H.M. Antologia de poetas gregos de Homero a Píndaro. Araraquara: FFCLAr-UNESP, 1976