domingo, julho 05, 2009

Ilíada XVI, 419-461

Sarpédon, quando viu os couraças-sem-cinto,
seus camaradas, mortos pela mão de Pátroclo
Menécio, reprovou os Lícios quase-deuses:
"Que vergonha! Para onde fugis, Lícios, à hora
de mostrar a que viestes? Vou ao encontro
eu mesmo desse homem. Quero saber quem é o forte
que a tantos causou males e quebrantou joelhos!"
Disse. E saltou do carro ao solo, todo-em-armas.
Pátroclo apeia da biga, ao vê-lo; feito abutres,
garras-em-gancho, bicos recurvos, brigando
num rochedo elevado, aos guinchos, eles dois,
opostos uns aos outros, embatem-se, gritando.
Viu-o o Croníade, de mente-aguda, e teve pena.
E a Hera, sua esposa-irmã,se voltou e lhe disse:
"Dói-me que o mais caro entre os humanos, Sárpedon,
a Moira-morte o dome sob as mãos de Pátroclo.
Meu coração se agita entre dois pensamentos:
se o retiro da lácrima luta com vida,
e o reponho na terra opulenta dos Lícios,
ou se deixo que o braço de Menécio o dome."
Então, olhos-de-toura, Hera augusta, lhe torna:
"Que palavras são essas, ó terribilíssimo
Croníade? Um ser mortal, fado há muito traçado,
tencionas seqüestrá-lo à morte dolorosa?
Que o faças! Mas irá de encontro aos deuses todos!
Outra coisa direi, guarda-a dentro da mente:
se quiseres enviar Sárpedon, vivo, ao lar,
atenta que os outros deuses podem intentar
livrar seus filhos caros do embate violento;
dos que lutam em torno à cidade de Príamo,
os filhos de imortais são muitos; seus pais-numes
hão de ficar furiosos. Se o dileto choras,
deixa que ele pereça no violento embate,
domado pelas mãos de Pátroclo Menécio.
Assim que a psiquê e o éon vital dele despeguem,
manda que a morte, Tânatos, e Hipnos, o sono,
o transportem de volta ao vasto país dos Lícios,
onde a família e amigos lhe darão sepulcro,
tumba e estela,o tributo devotado aos mortos"
Disse. E escutou-a o pai de homens e dos deuses.
E choveu sobre a terra um orvalho de sangue,
honra ao filho dileto que, longe da pátria,
morituro aguardava, na fértil Tróia, Pátroclo.

domingo, junho 28, 2009

Science Fiction

O marciano encontrou-me na rua
e teve medo de minha impossibilidade humana.
Como pode existir, pensou consigo, um ser
que no existir põe tamanha anulação de existência?
Afastou-se o marciano, e persegui-o.
Precisava dele como de um testemunho.
Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se
no ar constelado de problemas.

E fiquei só em mim, de mim ausente.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, junho 17, 2009

Agamêmnon: Prólogo (vv. 1- 35)

Aos Deuses peço: afastem estas fadigas,
a vigilância de longo ano, quando deitado
nos tetos dos Atridas como um cão
conheço a ágora dos astros noturnos
e os que dão inverno e verão aos mortais,
claros príncipes a brilhar no firmamento,
astros, ao desaparecerem e ascedentes.
Agora aguardo o sinal do lampejo,
a luz do fogo a trazer voz de Tróia
e notícia da captura, tal é o poder
do viril coração expectante da mulher.
Quando tenho o meu leito noctívago
e orvalhado sem a visita de sonhos
pois o pavor em vez do sono assiste
sem fechar pálpebras firmes no sono,
choro e gemo a conjuntura desta casa
não como antes a mais bem servida.
Agora seja feliz afastamento de fadigas,
ao surgir nas trevas o fogo mensageiro.
Salve, ó luzeiro da noite, anúncio
de diurna claridade e de muitos coros
compostos em Argos por esta conjuntura
Ioú, Ioú,
assinalo claro à mulher de Agamêmnon:
ergue-te do leito e já eleva pelo palácio
o alarido alácre por este lampejo,
se está capturada a fortaleza de Ílion
como o clarão se mostra mensageiro.
Por mim mesmo dançarei o prelúdio
pois farei os bons lances dos soberanos
quando o clarão me deu triplos seis.
Que possa na vinda tomar nesta mão
a mão amigga do senhor do palácio!
O mais calo. Grande boi na língua
pisou. A casa mesma, se tivesse voz,
falaria bem claro como eu adrede
a quem sabe falo e aos outros oculto.

Tradução de Jaa Torrano

ÉSQUILO. Orestéia I: Agamêmnon. Estudo e tradução: Jaa Torrano. São Paulo, Iluminuras, 2004.