Eu, o poeta que escrevo enamorado, Ovídio,
eu que nasci na úmida terra dos pelignos,
estes versos compus, que assim Amor mandou:
longe de mim, longe de mim, ó vós, austeras!
Não sois a boa audiência para ternos cantos.
Leiam-me a virgem que se inflama ao ver o noivo
e o jovem que só agora conheceu o amor.
Que alguém, ferido pela mesma seta que eu,
pelos vestígios sua chama reconheça
e diga, surpreendido: "Como foi que o poeta
veio a saber destes meus casos?"
Eu ousava
-recordo-me- narrar as guerras celestiais
e Giges de cem mãos, e voz não me faltava
para dizer de como Tellus se vingou
e Pélion e Ossa vieram a cair do Olimpo.
Nuvens eu tinha em mãos, e o raio com que Júpiter
defenderia os céus.
Portas me fecha a amada:
largo Jove e seu raio, que me saem do espírito.
Perdão: não me serviam, Júpiter, teus raios.
Às meiguices voltei e às leves elegias,
que são as minhas armas, e as palavras doces
amoleceram logo a dura porta.
Os versos
fazem descer os cornos da sangrenta Lua
e recuar os corcéis do Sol, brancos de neve;
o canto esmaga a fauce aberta da serpente
e faz retroceder à fonte a água corrente.
Com os meus versos cedeu a porta; e a fechadura,
em carvalho encaixada embora, foi vencida.
Que me daria o ágil Aquiles, se o cantasse?
Que me adviria de qualquer dos dois Atridas?
Do que errou tantos anos quantos combateu,
e de Heitor que arrastaram os corcéis da Hemônia?
Mas se canto a beleza de uma terna jovem,
como preço do poema ela procura o vate:
eis uma digna recompensa. Adeus, heróis
de ilustres nomes: vossa paga não me serve.
Formosas jovens, vós porém lançai o olhar
sobre estes poemas que me dita o Amor púrpureo.
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
domingo, janeiro 18, 2009
domingo, janeiro 04, 2009
Atena e Ulisses. Odisséia, 13. 190-236
Folga o divino herói de estar na pátria,
Que do Egíaco a filha anunciava;
Discursa presto, com desvio e astúcia,
Ardis sempre no peito revolvendo:
"De Ítaca ouvi na transfretana Creta,
Larga e longínqua. Aos meus deixando parte,
Fugi com estes bens, lá tendo morto
O régio garfo Orsíloco ligeiro,
Que no curso vencia os bravos Cressos;
Pois quis privar-me dos despojos de Ílio,
Ganhos com tanta lida nas batalhas
E a tanto mar escapos, de ciúmes
que eu, a outros mandando, às ordens nunca
do genitor Idomeneu servisse.
Tendo um sócio, no campo numa espera,
Orsíloco atravesso ao pé da estrada:
Oculta a morte pela opaca noite,
Ninguém por ela deu. Porção da presa
A ganância fartou da nau Fenícia,
Que me largasse em Pilos ou na diva
Élide Epéia. O rijo oposto vento
Afastou-nos do rumo, e constrangidos,
Não por fraude, arribamos pelo escuro;
No porto aqui saltando, sem tratarmos
Do preciso repasto, nos deitamos.
Lasso peguei no sono; eles, na areia
Depositadas as riquezas minhas,
A Sidônia se foram populosa:
Triste ah! Fiquei na praia abandonado".
A Glaucópide rindo a mão lhe afaga,
Disfarçada em mulher vistosa e guapa,
Ilustre no lavor: "Sagaz e astuto,
só te excedera um deus! Matreiro e fino,
Mesmo exerce na pátria os falsilóquios,
Dolos e ardis, que desde o berço amaste.
Não uses tu comigo de rodeios:
Se aos mortais no juízo te avantajas,
Eu me avantajo aos deuses. Desconheces
Tritônia, que te assiste em dúbios transes?
Eu te fiz agradável aos Feácios;
Agora venho consultar contigo,
E o tesouro esconder que ao povo egrégio
Inspirei te doasse. Em teu palácio
Olha que inda é forçoso padeceres:
A varão nem mulher tu não descubras
O teu regresso; tácito suportes
A própria dor e injúrias e insolências".
Tradução de Odorico Mendes.
Fonte: HOMERO. Odisséia. Tradução de Manuel Odorico Mendes e Edição de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: Edusp. 1996.
Que do Egíaco a filha anunciava;
Discursa presto, com desvio e astúcia,
Ardis sempre no peito revolvendo:
"De Ítaca ouvi na transfretana Creta,
Larga e longínqua. Aos meus deixando parte,
Fugi com estes bens, lá tendo morto
O régio garfo Orsíloco ligeiro,
Que no curso vencia os bravos Cressos;
Pois quis privar-me dos despojos de Ílio,
Ganhos com tanta lida nas batalhas
E a tanto mar escapos, de ciúmes
que eu, a outros mandando, às ordens nunca
do genitor Idomeneu servisse.
Tendo um sócio, no campo numa espera,
Orsíloco atravesso ao pé da estrada:
Oculta a morte pela opaca noite,
Ninguém por ela deu. Porção da presa
A ganância fartou da nau Fenícia,
Que me largasse em Pilos ou na diva
Élide Epéia. O rijo oposto vento
Afastou-nos do rumo, e constrangidos,
Não por fraude, arribamos pelo escuro;
No porto aqui saltando, sem tratarmos
Do preciso repasto, nos deitamos.
Lasso peguei no sono; eles, na areia
Depositadas as riquezas minhas,
A Sidônia se foram populosa:
Triste ah! Fiquei na praia abandonado".
A Glaucópide rindo a mão lhe afaga,
Disfarçada em mulher vistosa e guapa,
Ilustre no lavor: "Sagaz e astuto,
só te excedera um deus! Matreiro e fino,
Mesmo exerce na pátria os falsilóquios,
Dolos e ardis, que desde o berço amaste.
Não uses tu comigo de rodeios:
Se aos mortais no juízo te avantajas,
Eu me avantajo aos deuses. Desconheces
Tritônia, que te assiste em dúbios transes?
Eu te fiz agradável aos Feácios;
Agora venho consultar contigo,
E o tesouro esconder que ao povo egrégio
Inspirei te doasse. Em teu palácio
Olha que inda é forçoso padeceres:
A varão nem mulher tu não descubras
O teu regresso; tácito suportes
A própria dor e injúrias e insolências".
Tradução de Odorico Mendes.
Fonte: HOMERO. Odisséia. Tradução de Manuel Odorico Mendes e Edição de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: Edusp. 1996.
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Odorico Mendes
sábado, janeiro 03, 2009
Horácio, I,20
Vile potabis modicis Sabinum
cantharis, Graeca quod ego ipse testa
conditum leui, datus in theatro
cum tibi plausus,
care Maecenas eques, ut paterni
fluminis ripae simul et iocosa
redderet laudes tibi Vaticani
montis imago.
Caecubum et prelo domitam Caleno
tu bibes uuam; mea nec Falernae
temperant uites neque Formiani
pocula colles.
Ordinário sabino por pequenas
taças, claro Mecenas cavaleiro,
tu beberás, que eu mesmo sigilara
guardado em talha grega;
quando o teatro te aplaudiu de modo
que as ribas do paterno rio, e o eco
engraçado do Monte Vaticano
te repetiu louvores.
Cécubo, e uva no lagar Caleno
bebe embora espremida, que meus copos
nem falernas videiras os temperam,
nem formiano outeiro.
Tradução de Elpino Duriense.
Fonte:
A lyrica de Quinto Horacio Flacco. Lisboa: Imprensa régia, 1807.
cantharis, Graeca quod ego ipse testa
conditum leui, datus in theatro
cum tibi plausus,
care Maecenas eques, ut paterni
fluminis ripae simul et iocosa
redderet laudes tibi Vaticani
montis imago.
Caecubum et prelo domitam Caleno
tu bibes uuam; mea nec Falernae
temperant uites neque Formiani
pocula colles.
Ordinário sabino por pequenas
taças, claro Mecenas cavaleiro,
tu beberás, que eu mesmo sigilara
guardado em talha grega;
quando o teatro te aplaudiu de modo
que as ribas do paterno rio, e o eco
engraçado do Monte Vaticano
te repetiu louvores.
Cécubo, e uva no lagar Caleno
bebe embora espremida, que meus copos
nem falernas videiras os temperam,
nem formiano outeiro.
Tradução de Elpino Duriense.
Fonte:
A lyrica de Quinto Horacio Flacco. Lisboa: Imprensa régia, 1807.
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