quarta-feira, julho 30, 2008

Sólon

Gloriosas filhas da Memória e de Zeus Olímpico,
Musas da Piéria, ouvi a minha súplica:
dai-me a prosperidade vinda dos deuses abençoados e, vinda de todos os
homens, tenha eu sempre boa fama;
seja doce com meus amigos, amargo com meus inimigos,
para uns venerável, para outros terrível de se ver;
Riquezas desejo ter; adquirí-las injustamente
eu não quero; em todo caso depois vem a justiça.
A riqueza que os deuses dão acompanha o homem,
sólida desde a base mais profunda até o cimo;
aquela que os homens buscam com violência não vem em boa ordem;
obedecendo a ações injustas
segue sem querer, e , rapidamente, se lhe junta a desgraça;
o começo é de pouco, como o do fogo,
fraco a princípio, penoso no fim.
De fato, para os mortais as obras da violência não duram muito tempo.
Mas Zeus vigia o fim de todas as coisas e de súbito -
como um vento que repentino dispersa as nuvens,
primaveril, e, após agitar os abismos do mar estéril de muitas vagas
e devastar as belas culturas sobre a terra fértil em trigo,
chega à inacessível morada dos deuses,
o firmamento, de novo deixa ver um céu sereno,
brilha o sol em sua força sobre a terra fecunda,
esplêndido e nuvem alguma já não se pode ver -
tal a vingança de Zeus: ele não se irrita por qualquer motivo
como um homem mortal;
mas não, jamais lhe escapa esse que tem o coração faltoso,
sempre no fim se revela:
um paga logo, outro mais tarde; uns fogem pessoalmente -
que a Moira divina não sobrevenha e os alcance -
ela vem sempre de novo; os sem culpa pagam os atos,
ou os filhos dele, ou a geração posterior.
Nós mortais assim entendemos - o nobre e o homem comum -
cada qual tem por algum tempo sua própria opinião,
antes de padecer; aí então se lamenta; até esse momento,
boquiaberto, nos alegramos com esperanças vazias.
O homem esmagado por dolorosas enfermidades,
em como ficar são, é disso que cogita;
outro, covarde, pensa que é homem valente e belo,
mesmo sem ter semblante gracioso;
se alguém não é rico e as obras da indigência o oprimem,
pensa que de qualquer forma vai adquirir muitas riquezas.
Um labuta aqui, outro acolá. Um, pelo mar cheio de peixes vagueia
em seus navios querendo levar um lucro para casa,
arrastado por ventos impetuosos
sem nenhuma poupança de vida;
outro - esses que se importam com os arados recurvos - cortando
a terra de muitas árvores, serve o ano inteiro;
outro, conhecedor dos trabalhos de Atena e de Hefesto de muitas artes,
recolhe com as mãos os meios de vida;
outro, nos dons das Musas instruído,
é hábil na ciência encantadora,
e um outro, o soberano Apolo que fere à distância dele fez um adivinho:
conhece o mal que de longe vem para o homem
e os deuses o assistem; mas o que está traçado, em todo o caso,
nem vôos de aves nem sacrifícios poderão evitar;
outros, médicos, têm a tarefa de Peã conhecedor de muitos remédios,
mas também eles não são donos do fim;
muitas vezes de pouca dor nasce um grande sofrimento
e ninguém poderia livrar o doente aplicando-lhe calmantes;
mas um outro, gravemente atormentado por moléstias dolorosas,
basta tocá-lo com a mão e está curado.
Moira é que aos mortais traz o bem e o mal,
dádivas inevitáveis que vêm dos deuses imortais.
Sobre todas as ações paira o perigo e ninguém sabe aonde vai ter,
quando a tarefa começa;
quem tenta agir bem, sem prever
cai em grande e penosa desgraça,
mas ao que age mal a divindade dá em tudo bom êxito,
a libertação da loucura.
Da riqueza não há nenhum limite seguro para os homens;
uns de nós que agora tem vida farta
duplamente labutam. Quem a todos poderia saciar?
Os lucros, os imortais é que os oferecem aos mortais,
mas deles brota a desgraça; e quando Zeus
a envia para punir, ora um ora outro recebe.

Tradução: Gilda N.M. de Barros in: Sólon de Atenas,a Cidadania Antiga. SP: Humanitas, 1999.:

sábado, julho 26, 2008

Elegia a Péricles (Arquíloco, Fragmento 13 West)

Κήδεα μὲν στονόεντα, Περίκλεες, οὔτε τις ἀστῶν
μεμφόμενος θαλίηις τέρψεται οὐδὲ πόλις·
τοίους γὰρ κατὰ κῦμα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης
ἔκλυσεν· οἰδαλέους δ᾽ ἀμφ᾽ ὀδύνηισ᾽ ἔχομεν
πνεύμονας. ἀλλὰ θεοὶ γὰρ ἀνηκέστοισι κακοῖσιν,
ὦ φίλ᾽, ἐπὶ κρατερὴν τλημοσύνην ἔθεσαν
φάρμακον. ἄλλοτε τ᾽ ἄλλος ἔχει τάδε· νῦν μὲν ἐς ἡμέας
ἐτράπεθ᾽͵ αἱματόεν δ᾽ ἕλκος ἀναστένομεν͵
ἐξαῦτις δ᾽ ἑτέρους ἐπαμείψεται. ἀλλὰ τάχιστα
τλῆτε γυναικεῖον πένθος ἀπωσάμενοι.


Gementes lutos, Péricles, nenhum dos cidadãos
censurando irá se alegrar em festas, nem pólis.
Pois tais homens ondas do mar políssono
Engolfaram e temos os pulmões intumescidos
pelas dores; mas os deuses para invictos males,
ó caro, concederam forte resistência como fármaco
ora um, ora outro sofre este mal: agora voltou-se
para nós e choramos chaga sangrenta,
que se repassará a outros; mas o mais rápido
resiste, afastando a dor femínea.

(Tradução de Rafael Brunhara)


Comentários
A crítica considera que os fragmentos 8 w, 10 w e 12 w também fizessem parte do poema, assim como o fragmento 16 w, que atribuiria ao poema caráter gnômico.Tal consideração decorre de depoimento de Plutarco, que alude à morte do marido da irmã do poeta,morto em naufrágio. No entanto, não é preciso seguir esse viés interpretativo uma vez que o poema em si apresenta ar de completude: o verso 1 pode ser entendido como um início, enquanto os versos 9-10 parecem trazer uma conclusão, que remete ao centro do poema (“mas os deuses[...]concederam forte resistência, v.6-7).É necessário também salientar que à época de Plutarco tendia a crítica a identificar diretamente a obra do poeta à sua biografia, método hoje não mais corrente e que pode nos levar a problematizar este depoimento. Além disso, é curioso salientar que Arquíloco não se dirige à irmã, como seria conveniente, mas a Péricles (que também é endereçado em outros fragmentos, como o 16 w).
O fragmento ainda pode levar a debater questões da elegia arcaica e sua relação de contigüidade com o lamento, como posteriormente o gênero seria consagrado. Cabe salientar, entretanto, que a atitude proposta pelo poeta é justamente inversa: “Arquíloco” conclama seu interlocutor a resistir, sobrepondo ao seu lamento a resignação concedida pelos deuses.

Horácio II.7

O saepe mecum tempus in ultimum
deducte Bruto militiae duce,
quis te redonauit Quiritem
dis patriis Italoque caelo,

Pompei, meorum prime sodalium,
cum quo morantem saepe diem mero
fregi, coronatus nitentis
malobathro Syrio capillos?

Tecum Philippos et celerem fugam
sensi relicta non bene parmula,
cum fracta uirtus et minaces
turpe solum tetigere mento;

sed me per hostis Mercurius celer
denso pauentem sustulit aere,
te rursus in bellum resorbens
unda fretis tulit aestuosis.

Ergo obligatam redde Ioui dapem
longaque fessum militia latus
depone sub lauru mea, nec
parce cadis tibi destinatis.

Obliuioso leuia Massico
ciboria exple, funde capacibus
unguenta de conchis. Quis udo
deproperare apio coronas

curatue myrto? Quem Venus arbitrum
dicet bibendi? Non ego sanius
bacchabor Edonis: recepto
dulce mihi furere est amico.



Ó tu, comigo muita vez exposto,
Sob mando de Bruto, ao lance extremo,
Quem te tornou Quirite aos pátrios deuses,
E aos céus da Itália, Varo,

De meus sócios primeiro? com que muitas
Vezes gastei bebendo o tardo dia,
Coroado os cabelos luzidios
Com os aromas sírios.

Contigo a filipense guerra, e a fuga
Veloz segui, deixando torpe o escudo,
Quando os minaces, rota a hoste, ó pejo!
Com o rosto o chão te tocaram.


A mim salvou-me de entre imigos pávido
Por densos ares o veloz Mercúrio,
A ti sorveu-te a onda em nova guerra
por estuosos mares.

A Jove presta pois o prometido
Banquete, e o corpo em longa guerra lasso
Sob o meu louro estende, nem perdões
Às talhas, que te esperam.

Do Mássico, por quem já tudo esquece,
As lisas taças enche: de amplas conchas
Cheiros entorna: quem traz presto crôas
De úmido aipo, ou mirto?

Quem fará Vênus árbitro do vinho?
Eu não menos bacante, que os edonios,
com furor beberei, com o amigo salvo,
Enlouquecer é doce.

Tradução: Elpino Duriense