quinta-feira, maio 29, 2008

Proêmio da Ilíada - Tradução de Elpino Duriense

Ó Deusa, do Peleio Aquiles canta
A fatal ira, que infinitas mágoas
Aos aquivos causou; e muitas almas
Valentes de heróis antes do tempo
Mandou ao Orco; e os corpos insepultos
Aos cães e as aves todas deu por pasto
(Assim de Jove o arbítrio se cumpria!)
Depois que desavindos se apartaram
Atrídes rei do povo e o divo Aquiles.


Tradução de Elpino Duriense in: Ensaios de traducções literaes, 1812.

quarta-feira, maio 28, 2008

Tomás Antonio Gonzaga - Lira XXVII

Alexandre, Marília, qual o rio
que engrossando no Inverno tudo arrasa,
na frente das coortes
cerca, vence, abrasa
as cidades mais fortes;
foi na glória das armas o primeiro;
morreu na flor dos anos e já tinha
vencido o mundo inteiro.

Mas este bom soldado, cujo nome
não há poder algum que não abata,
foi, Marília, somente
um ditoso pirata,
um salteador valente:
Se não tem uma fama baixa e escura,
foi por se pôr ao lado da injustiça
a insolente ventura.

O grande César, cujo nome voa,
à sua mesma pátria a fé quebranta;
na mão a espada toma.
oprime-lhe a garganta,
Já senhores a Roma.
Consegue ser herói por um delito:
se acaso não vencesse, então seria
um vil traidor proscrito.

O ser herói, Marília, não consiste
em queimar os impérios: move a guerra,
espalha o sangue humano
e despovoa a terra
também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
e tanto pode ser herói o pobre
como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela,
seguindo da virtude a honrosa estrada:
ganhei, ganhei um trono:
ah! não manchei a espada,
não o roubei ao dono!
Ergui-o no teu peito e nos teus braços,
e valem muito mais que o mundo inteiro
uns tão ditosos laços.

Aos bárbaros, injustos vencedores
atormentam remorsos e cuidados;
nem descansam seguros
nos palácios, cercados
de tropa e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sábia História,
a quem mudou o fado em negro opróbio
a mal ganhada glória!

Eu vivo, minha bela, sim, eu vivo
nos braços do descanso e mais do gosto:
quando estou acordado
contemplo no teu rosto,
de graças adornado;
se durmo, logo sonho e ali te vejo.
Ah! Nem desperto nem dormindo sobe
a mais o meu desejo!

domingo, maio 25, 2008

Trabalhos e Dias, 202-211: A fábula do gavião e do rouxinol

Agora uma fábula falo aos reis mesmo que isso saibam.
Assim disse o gavião ao rouxinol de colorido colo
no muito alto das nuvens levando-o cravado nas garras;
ele miserável varado todo por recurvadas garras
gemia enquanto o outro prepotente ia lhe dizendo:
"Desafortunado, o que gritas? Tem a ti um bem mais forte;
tu irás por onde eu te levar, mesmo sendo bom cantor;
alimento, se quiser, de ti farei ou até te soltarei
Insensato quem com mais fortes queira medir-se,
de vitória é privado e sofre, além das penas, vexame".
Assim falou o gavião de vôo veloz, ave de longas asas.

tradução de Mary de Camargo Neves Laferin: Hesíodo. Os trabalhos e os dias. São Paulo: Iluminuras.2006