domingo, maio 25, 2008

Trabalhos e Dias, 202-211: A fábula do gavião e do rouxinol

Agora uma fábula falo aos reis mesmo que isso saibam.
Assim disse o gavião ao rouxinol de colorido colo
no muito alto das nuvens levando-o cravado nas garras;
ele miserável varado todo por recurvadas garras
gemia enquanto o outro prepotente ia lhe dizendo:
"Desafortunado, o que gritas? Tem a ti um bem mais forte;
tu irás por onde eu te levar, mesmo sendo bom cantor;
alimento, se quiser, de ti farei ou até te soltarei
Insensato quem com mais fortes queira medir-se,
de vitória é privado e sofre, além das penas, vexame".
Assim falou o gavião de vôo veloz, ave de longas asas.

tradução de Mary de Camargo Neves Laferin: Hesíodo. Os trabalhos e os dias. São Paulo: Iluminuras.2006

domingo, maio 18, 2008

Eurípides - Hipólito, 525-564

Eros, Eros, que dos olhos
destilas desejo, a deliciosa volúpia
vertendo nas almas que assaltas,
com teus malefícios a mim nunca te manifestes,
não venhas a mim com desmedida:
nem dos astros nem do fogo mais potente é o raio
que o de Afrodite, arremessado
pelas mãos de Eros, filho de Zeus.

Em vão, em vão, nas margens do Alfeu,
sob os pítios tetos de Febo,
sacrifícios de touros a Hélade acumula,
se Eros, o potente senhor dos humanos,
guarda-chaves do tálamo deleitoso
de Afrodite,não venerarmos,
a ele, que destrói e em toda desgraça lança
os mortais, quando vem.

Também a potrinha
de Ecália, livre do jugo do leito,
donzela e não desposada, levou-a
da casa de Êurito,
como fugitiva náiade ou bacante,
entre sangue, entre fumaças,
em sangrentas núpcias,
a Cípria, para entregá-la ao filho de Alcmena,
ó desventurada união!

Ó de Tebas sagrados
muros! ó boca de Dirce,
poderíeis atestar do advento da Cípria:
aos trovões coruscantes cingidos de fogos,
a mãe de Baco duas vezes nascido
como esposa ela entregou e em sangrento sono
estendeu.
Terrível maravilha, em tudo escorre seu sopro:
tal abelha que ondula nos ares.

Tradução: Joaquim Brasil Fontes in: Eurípides,Sêneca e Racine. Hipólito e Fedra, três tragédias. Iluminuras. 2007.

domingo, maio 11, 2008

Basílio da Gama - Soneto

A uma senhora natural do Rio de Janeiro, onde se achava então o autor.

Já, Marfiza cruel, não me maltrata
saber que usas comigo de cautelas,
Qu'inda te espero ver, por causa delas,
arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d'oiro converter-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco a flor dos anos.