sábado, maio 10, 2008

Estesícoro - "Helena"

Muitos marmelos atiraram
ao Príncipe em seu carro,
muitos ramos de mirto
e coroas de rosas,
grinaldas de violetas.

Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

Tomás Antônio Gonzaga

Marília de Dirceu [1]

Pintam, Marília, os poetas
a um menino vendado,
com uma aljava de setas,
arco empunhado na mão;
ligeiras asas nos ombros,
o tenro corpo despido,
e de Amor ou de Cupido
são os nomes que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego,
que assim seja Amor,pois ele
nem é moço nem é cego,
nem setas nem asas tem.
Ora pois, eu vou formar-lhe
um retrato mais perfeito,
que ele já feriu meu peito:
por isso o conheço bem.

Os seus compridos cabelos,
que sobre as costas ondeiam,
são que os de Apolo mais belos,
mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
e com o branco do rosto
fazem, Marília, um composto
da mais formosa união.

Tem redonda e lisa testa,
arqueadas sobrancelhas,
e seus olhos são uns sóis.
Aqui vence Amor ao Céu:
que no dia luminoso
o Céu tem um sol formoso,
e o travesso Amor tem dois.

Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
púrpureas folhas de rosa,
brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
os seus beiços são formados;
os seus dentes delicados
são pedaços de marfim.

Mal vi seu rosto perfeito,
dei logo um suspiro, e ele
conheceu haver-me feito
estrago no coração.
Punha em mim os olhos, quando
entendia eu não olhava;
vendo que o via, baixava
a modesta vista ao chão.

Chamei-lhe um dia formoso;
ele, ouvindo seus louvores,
com um modo desdenhoso
se sorriu e não falou.
Pintei-lhe outra vez o estado,
em que estava esta alma posta;
não me deu também resposta,
constrangeu-se e suspirou.

Conheço os sinais; e logo,
animado de esperança,
busco dar um desafogo
ao cansado coração.
Pego em seus dedos nevados,
e querendo dar-lhe um beijo,
cobriu-se todo de pejo
e fugiu-me com a mão.

Tu, Marília, agora vendo
de Amor o lindo retrato,
contigo estarás dizendo
que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
que Cupido é deus suposto:
se há Cupido, é só teu rosto,
que foi ele quem me venceu.

sexta-feira, maio 09, 2008

Horácio, I, 1.

Maecenas atauis edite regibus,
o et praesidium et dulce decus meum,
sunt quos curriculo puluerem Olympicum
collegisse iuuat metaque feruidis
euitata rotis palmaque nobilis
terrarum dominos euehit ad deos;
hunc, si mobilium turba Quiritium
certat tergeminis tollere honoribus;
illum, si proprio condidit horreo
quicquid de Libycis uerritur areis.
Gaudentem patrios findere sarculo
agros Attalicis condicionibus
numquam demoueas, ut trabe Cypria
Myrtoum pauidus nauta secet mare.
Luctantem Icariis fluctibus Africum
mercator metuens otium et oppidi
laudat rura sui; mox reficit rates
quassas, indocilis pauperiem pati.
Est qui nec ueteris pocula Massici
nec partem solido demere de die
spernit, nunc uiridi membra sub arbuto
stratus, nunc ad aquae lene caput sacrae.
Multos castra iuuant et lituo tubae
permixtus sonitus bellaque matribus
detestata. Manet sub Ioue frigido
uenator tenerae coniugis inmemor,
seu uisa est catulis cerua fidelibus,
seu rupit teretis Marsus aper plagas.
Me doctarum hederae praemia frontium
dis miscent superis, me gelidum nemus
Nympharumque leues cum Satyris chori
secernunt populo, si neque tibias
Euterpe cohibet nec Polyhymnia
Lesboum refugit tendere barbiton.
Quod si me lyricis uatibus inseres,
sublimi feriam sidera uertice.



De reis avós Mecenas descendente,
Ó meu amparo, ó doce glória minha:
A uns apraz alevantar no circo
Olímpica poeira, e das ferventes
Rodas a meta salva, e a palma nobre,
Que os alça aos Deuses árbitros da terra:
A este, se dos móbiles Quirites
Porfia a turba erguê-lo às mores honras:
Àquele, se guardou em seu celeiro,
Quanto das eiras líbicas se varre.
A quem folga com a enxada os pátrios campos
Fender nunca moveras com as atálicas
Fortunas, a que em cíprio lenho corte
o mar Mirtôo pavoroso nauta.
Temendo o mercador ábrego em luta
Com o mar icário, louva o ócio e os campos
Do ninho seu: mas logo os rotos vasos
Concerta indócil a sofrer pobreza.
Um do Massico anejo os copos ama,
E tirar parte ao dia inteiro, uma hora
Jazendo sob o verde medronheiro,
Ora à branda matriz da sacra linfa.
A muitos o arraial, e o som da tuba
Com os clarins misturado apraz, e as guerras
ódios das mães. Atura ao frio Jove
O caçador, e a tenra esposa esquece;
Ou vissem fiéis cães a corça, ou Marso
Javardo entrasse nas torcidas malhas.
A ti, das doutas frentes prêmio, as eras
Com os Deuses supernos me misturam;
A mim gélido bosque, e leves coros
Das ninfas, e dos sátiros, me extremam
Do povo: se nem tolhe Euterpe as frautas,
Nem foge de afinal Polínia a lira
Lésbia. Se aos vates líricos me ajuntas,
Ferirei com a sublime frente os astros.

Tradução: Elpino Duriense.