sexta-feira, abril 25, 2008

Teogonia, vv.1-115 - O Hino às Musas

Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar.
Elas têm grande e divino o monte Hélicon,
em volta da fonte violácea com pés suaves
dançam e do altar do bem forte filho de Crono.
Banharam a tenra pele no Permesso
ou na fonte do Cavalo ou no Olmo divino
e irrompendo com os pés fizeram coros
belos ardentes no ápice do Hélicon.
Daí precipitando-se ocultas por muita névoa
vão em renques noturnos lançando belíssima voz,
hineando Zeus porta-égide, a soberana Hera
de Argos calçada de belas sandálias,
Atena de olhos glaucos virgem de Zeus porta-égide,
o luminoso Apolo, Ártemis verte-flechas,
Posídon que sustém e treme a terra,
Têmis veneranda, Afrodite de olhos ágeis,
Hebe de áurea coroa, a bela Dione,
Aurora, o grande Sol, a Lua brilhante,
Leto, Jápeto, Crono de curvo pensar,
Terra, o grande Oceno, a Noite negra
e o sagrado ser dos outros imortais sempre vivos.
Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto
quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.
Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas
Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
"Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações".
Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,
por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso
colhendo-o admirável,e inspiraram-me um canto
divino para que eu glorie o futuro e o passado,
impeliram-me a hinear o ser dos imortais sempre-vivos
e a elas primeiro e por último sempre cantar.
Mas por que me vem isto de carvalho e de pedra?
Eia!pelas musas comecemos, elas a Zeus Pai
hineando alegram o grande espírito no Olimpo,
dizendo o presente, o passado e o futuro
vozes aliando. Infatigável flui o som
das bocas, suave. Brilha o palácio do pai
Zeus troante quando as vozes liriais das Deusas
espalha-se, ecoa a cabeça do Olimpo nevado
e o palácio dos imortais. Lançando voz imperecível
o ser venerando dos Deuses primeiro gloriam no canto
dês o começo: os que a Terra e o Céu amplo geraram
e os deles nascidos Deuses doadores de bens,
depois Zeus pai dos Deuses e dos homens,
no começo e fim do canto hineiam as Deusas
o mais forte dos Deuses e maior em poder,
e ainda o ser dos homens e dos poderosos gigantes.
Hineando alegram o espírito de Zeus no Olimpo
Musas olímpiades virgens de Zeus porta-égide.
Na Piéria gerou-as, da união do Pai Cronida,
Memória rainha nas colinas de Eleutera,
para oblívio dos males e pausa para aflições.
Nove noites teve uniões com ela o sábio Zeus,
longe dos imortais subindo ao sagrado leito.
Quando girou o ano e retornaram as estações
com as mínguas das luas e muitos dias findaram,
ela pariu nove moças concordes que dos cantares
têm o desvelo no peito e não-triste ânimo,
perto do ápice altíssimo do nevoso Olimpo,
aí os seus coros luzentes e belo palácio.
Junto a elas as Graças e o Desejo têm morada
nas festas, pelas bocas amável voz lançando,
dançam e gloriam a partilha e os hábitos nobres
de todos os imortais, voz bem amável lançando.
Elas iam ao Olimpo exultantes com a bela voz,
imperecível dança. Em torno gritava a terra negra
ao hinearem, dos pés amável ruído erguia-se
ao irem ao seu pai. Ele reina no Céu
tendo consigo o trovão e o raio flamante,
venceu no poder o pai Crono, e aos imortais
bem distribuiu e indicou cada honra;
isto as Musas cantavam, tendo o palácio olímpio,
nove filhas nascidas do grande Zeus:
Glória, Alegria, Festa, Dançarina,
Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste
e Belavoz, que dentre todas vem à frente.
Ela é que acompanha os reis venerandos.
A quem honram as virgens do grande Zeus
e dentre os reis sustentados por Zeus vêem nascer,
elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho,
e palavras de mel fluem da sua boca. Todas
as gentes o olham decidir as sentenças
com reta justiça e ele firme falando na ágora
logo à grande discórdia cônscio põe fim,
pois os reis têm prudência quando às gentes
violadas na ágora perfazem as reparações
facilmente, a persuadir com brandas palavras.
Indo à assembléia, como a um Deus o propiciam
pelo doce honor e nas reuniões se distingue.
Tal das musas o sagrado dom aos homens.
Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.
Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito mirra o coração e se o cantor
servo das musas hineia a glória dos antigos
e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.
Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,
gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.
Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.
Os deles nascidos deuses doadores de bens
como dividiram a opulência e repartiram as honras,
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, ó Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.

Tradução: J.A.A.Torrano in: HESÍODO.Teogonia, a Origem dos Deuses.Estudo e tradução: J.A.A.Torrano. Iluminuras,2006.

domingo, abril 13, 2008

Horácio, Ode III.1

Odi profanum uolgus et arceo.
Fauete linguis: carmina non prius
audita Musarum sacerdos
uirginibus puerisque canto.

Regum timendorum in proprios greges,
reges in ipsos imperium est Iouis,
clari Giganteo triumpho,
supercilio mouentis.

Est ut uiro uir latius ordinet
arbusta sulcis, hic generosior
descendat in campum petitor,
moribus hic meliorque fama

contendat, illi turba clientium
sit maior: aequa lege Necessitas
sortitur insignis et imos,
omne capax mouet urna nomen.

Destrictus ensis cui super impia
ceruice pendet, non Siculae dapes
dulcem elaboratum saporem,
non auium citharaequecantus

Somnum reducent: somnus agrestium
lenis uirorum non humilis domos
fastidit umbrosamque ripam,
non Zephyris agitata tempe.

Desiderantem quod satis est neque
tumultuosum sollicitat mare,
nec saeuus Arcturi cadentis
impetus aut orientis Haedi,

non uerberatae grandine uineae
fundusque mendax, arbore nunc aquas
culpante, nunc torrentia agros
sidera, nunc hiemes iniquas.

Contracta pisces aequora sentiunt
iactis in altum molibus: huc frequens
caementa demittit redemptor
famulis dominusque terrae

fastidiosus: sed Timor et Minae
scandunt eodem quo dominus, neque
decedit aerata triremi et
post equitem sedet atra Cura.

Quod si dolentem nec Phrygius lapis
nec purpurarum sidere clarior
delenit usus nec Falerna
uitis Achaemeniumque costum,

cur inuidendis postibus et nouo
sublime ritu moliar atrium?
Cur ualle permutem Sabina
diuitias operosiores?



Aborreço o profano vulgo e afasto.
Calai-vos: eu das musas sacerdote
Às virgens, e aos meninos versos canto,
Nunca até agora ouvidos.

Sobre o próprio rebanho os reis tremendos,
Nos mesmos reis tem Jove império,claro
Com giganteo triunfo, que o universo
Com o sobrolho abala.

Disponha um mais árvores à linha
Do que outro: ao campo desça um candidato
com mor nobreza: este mais pretenda
Por costumes, e fama:

Outro tenha mor turba de clientes:
Com lei igual sorteia a fatal morte
Os altos, e os pequenos; a grande urna
Revolve os nomes todos.

A quem sobre a cerviz ímpia a espada
Nua pende, nem siculos banquetes
Darão doce sabor, nem cantos de ave,
Ou doce lira trará sono.

O sono brando dos agrestes homens
Os humildes alvergues não desdenha,
Nem as umbrosas ribas, nem os Tempes
Dos Zéfiros movidos.

A quem deseja quanto lhe é bastante,
Nem o revolto mar lhe dá cuidado,
Nem seva força do cadente Arturo,
Ou do nascente Capro:

Nem do granizo as vinhas açoitadas,
Ou mendaz a terra, a árvore culpando
Ora água, ora astros, que as campinas torram,
Ou iníquios invernos.

Com os molhos lançados no alto pego
O peixe sente os mares estreitados:
Aqui contino com os serventes lança
Cimentos o empreiteiro,

E da terra o senhor enfastiado:
Mas sobe o medo, e as ameaças, onde
O dono: nem da brônzea nau se arreda,
Com cavaleiros de ancas

Monta o escuro cuidado: se ao doente
Nem frígio jaspe abranda, nem a púrpura,
Mais que os astros brilhante, nem falerna
Vide, ou aquimênio nardo;

Por que alçarei com pórticos, que invejem,
E por um novo estilo, átrio sublime?
Por que o sabino vale por riqueza
Trocarei mais penosas?


Tradução: Elpino Duriense in: Obras completas de Horácio.São Paulo: Edições Cultura. 1941.

sexta-feira, março 28, 2008

Píndaro - Primeira Ode Pítica

Khryséa phórmincs

Lira de ouro, bem comum
de Apolo e das Musas de trança violeta:
os passos de dança, princípio de júbilo,
te escutam, os aedos
obedecem teu sinal
quando pulsas vibrada os primeiros compassos
dos prelúdios condutores de coros.
Consegues apagar o pontiagudo raio
de fogo semprefluente. Sobre o cetro de Zeus
adormece a águia,
que recolhe de um flanco e de outro suas asas rápidas,
rainha dos pássaros.
Toldas sua cabeça em gancho de uma névoa escura,
doce claustro das pálpebras; possuídas por teus sons
ela crispa no sono o dorso flexível.
E mesmo o violento Ares
rejeitando a rudeza das armas
arrefece o coração que dorme. Sábios,
teus dardos aplacam o íntimo da alma dos deuses
por arte do filho de Latona
e das Musas vestidas de dobras sinuosas.

Porém todos os que Zeus desamou
estremecem ouvindo o clamor
sonoro das Piérides
na terra ou no mar indomável.
Assim aos deuses adverso
Tífon o de cem-testas
jaz, no terrível Tártaro.
Nutriu-o outrora a cilícia
gruta polinome
e agora as escarpas que o mar rebatem
sobre Cumas
e a Sicília
esmagam-lhe o peito de saliente felpa.
O Etna, todo neve, nutriz dos gelos cortantes,
pilar do céu,
o detém.

Fontes de um fogo inacessível
puríssimas rebentam-lhe
da mais interna entranha.
E rios de dia vazam
abrasadas torrentes de fumaça.
E púrpura na treva
uma chama rolando
repulsa ao mar profundo
um tumulto de pedras.
O monstro ali está. Ele é quem jorra
os fachos de Hefesto, aterradores.
Prodígio de se ver. Prodígio ainda
senão de ver, de ouvir de quem já viu.
Assim no Etna entre o píncaro
(folhas negras) e o plaino
preso
ele jaz,
numa cama de pontas
descarnando as costas contrapostas.
Dá-nos, Zeus, a graça de agradarmos
a ti, dominador dessa montanha
fronte e frente de uma terra fértil:
a cidade vizinha um fundador ilustre
ilustrou-a em seu nome
e o arauto o proclamou na arena pítica
celebrando Híeron na corrida de carros
belo de vitória.
Ao navegante principiando a viagem
primeiro prêmio é um vento favorável
que ao cabo prenuncia um propício retorno.
Pensar no que passou promete a esta cidade
por igual um porvir glorioso de corcéis
e coroas de festa
e um nome renomeado em canoros triunfos.
Dono de Lícia e Delos, Febo,
amador da castália fonte do Parnaso,
que este augúrio te agrade e faças desta terra
um solo fértil de heróis.

Da máquina dos deuses
procedem as virtudes dos mortais:
ciência, vigor dos pulsos, fala fácil, tudo
eles engendram.
Meditando o louvor deste herói,
espero não lançar fora da liça
o dardo de brônzeo topo suspenso em minha mão,
mas no extenso arremesso ultrapassar os meus contrários.
Que o restante do tempo lhe promova
um próspero porvir, o pleno dom dos bens
e o olvido das penas.
Ele há de rever-se nas batalhas
- coração de coragem - resistindo,
e pela mão dos deuses vencedor.
Heleno algum colheu igual seara,
orgulhosa coroa de conquistas.
Agora segue o exemplo a Filoctetes
quando se lança à luta. No nó do necessário,
mesmo o soberbo suplica o seu favor.

Quase-deuses heróis (dizem) a Lemnos
vieram e levaram o filho de Póias,
o arqueiro, que uma chaga afligia.
E ele destruiu a cidade de Príamo,
pôs um fim aos trabalhos dos Dânaos:
o destino movia-lhe os membros malseguros.
Assim a divindade
dirija reto Híeron
pelos dias que avançam passo lento,
sempre a tempo lhe dando o que mais queira.
Atende, Musa, e junto a Dinomedes
vem celebrar a esplêndida quadriga
no prêmio de vitória.
Que não se alheia o filho ao júbilo paterno.
Vem, inventa comigo
um canto caro ao soberano de Etna.

Para ele Híeron fundou esta cidade
seguindo à risca os preceitos de Hilos,
com liberdade, divino edifício.
Dorianos,
os descendentes de Pânfilo,
e também os da estirpe de Hércules,
que habitam junto às penhas do Taígeto,
querem preservar perenes os princípios de Egímios.
Levantando-se do Pindo,
afortunados tomaram Amiclas,
agora - profundos de glória -
vizinhos dos Tindáridas de cavalos brancos.
E floresceu a fama da ponta de suas lanças!
Zeus,
perfazedor!
Junto às águas do Amenas,
que a palavra dos homens para sempre assegure
aos cidadãos e aos reis um tão nobre destino.
Com teu respaldo o príncipe
seguido pelo filho
na honra dirija o povo para a concorde paz.
Filho de Cronos,
eu te peço um aceno de cabeça:
aprova que o Fenício se aplaque em sua morada,
contém o alarido de guerra do Tírseno,
Lamentando navios por seu desplante,
eles revêem o infortúnio de Cumas.
Que revés!
Do alto dos navios de proa rápida,
seus jovens eram jogados ao mar,
domados pelo senhor de Siracusa
que redimia Hélade da servidão mais dura.
Meu salário será por Salamina
a glória dos Atenienses;
em Esparta cantarei a batalha de Citéron,
derrota para os Medas de arcos recurvos;
mas à margem do Hímera de águas copiosas
cumpro meu hino aos filhos de Dinomedes,
prêmio por seu valor
quando bateram o inimigo.

Se falas o justo no momento justo
e tens as cordas do muito retensas na curva do breve,
a censura dos homens pouco te persegue.
O tédio saciado embota a ávida espera.
No ouvido de cada um,
no coração calado,
pesa a demasia da ventura alheia.
Preferível porém o ciúme à compaixão:
por isso não te detenhas no curso do que é belo.
Preciso no leme, governa o povo,
forjando na bigorna da verdade uma linguagem de bronze.
Uma frívola faísca de nada
avulta, vinda de ti.
Árbitro de muitos, muitos,
- no bem ou no mal -
atestam fiéis os teus atos.

Guarda em beleza a flor do teu caráter.
Se amas sempre ouvir o que é doce de ouvir
não te canses de ser generoso:
como o bom piloto, livra a vela ao vento.
Amigo, não te iluda a isca do lucro fácil.
Aos oradores e poetas
somente o renome além-morte ressoando
revela os fatos dos que foram.
Cresus, alma aberta, não perece.
Mas Fálaris, coração cruel,
torrava suas vítimas no búfalo de cobre;
por toda a parte o ódio cerca sua memória.
Nenhuma lira sob os telhados
nenhuma o recorda,
para o suave acorde das vozes de crianças.
Primeiro bem: boa fortuna.
Segundo: bom nome.
O homem que a ambos recolhe,
colhe a suprema guirlanda.

Haroldo de Campos