Virgens de voz de mel
tão alta e clara,
meus membros já não podem transportar-me.
Ah quem me dera ser, ah quem me dera,
um martim-pescador,
a voar, de coração sem medo,
junto aos alcíones por sobre a flor das ondas,
o próprio pássaro da primavera,
de cor púrpurea como o mar.
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos.
terça-feira, março 25, 2008
sábado, março 22, 2008
Especulações em torno da palavra homem
Mas que coisa é o homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo ou desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perder o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se faz
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje, mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos, morto?
Menos um do que outro,
se o valor do homem
é a medida do homem?
Como morre o homem,
como começa?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é o homem?
Tem medo da morte,
mata-se sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?
Por que mente o homem?
mente, mente, mente,
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é a sua alma
e o que é alma anônima?
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
Carlos Drummond de Andrade
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo ou desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perder o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se faz
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje, mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos, morto?
Menos um do que outro,
se o valor do homem
é a medida do homem?
Como morre o homem,
como começa?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é o homem?
Tem medo da morte,
mata-se sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?
Por que mente o homem?
mente, mente, mente,
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é a sua alma
e o que é alma anônima?
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, março 21, 2008
Meleagro de Gádara
Leva-lhe esta mensagem, Dorcás; mas repete-lhe
Tudo, Dorcás, duas ou três vezes. Corre,
não te atrases, voa. Um instante, um instante, Dorcás, pára.
Por que te apressas sem antes saber de tudo?
Acrescenta ao que te disse – ou melhor (que tolice a minha!),
Não lhe digas nada – mas não – diz-lhe tudo.
Não deixes de dizer-lhe. Apesar de mandar-lhe, Dorcás,
Vou contigo eu mesmo, vê, e à tua frente.(5.182)
Tradução: José Paulo Paes
Tudo, Dorcás, duas ou três vezes. Corre,
não te atrases, voa. Um instante, um instante, Dorcás, pára.
Por que te apressas sem antes saber de tudo?
Acrescenta ao que te disse – ou melhor (que tolice a minha!),
Não lhe digas nada – mas não – diz-lhe tudo.
Não deixes de dizer-lhe. Apesar de mandar-lhe, Dorcás,
Vou contigo eu mesmo, vê, e à tua frente.(5.182)
Tradução: José Paulo Paes
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