quinta-feira, março 20, 2008

Píndaro - 8º Pítica

Para Aristómenes de Egina, vencedor na luta.

Serenidade, filha benévola da Justiça,
fonte da opulência urbana,
dona das chaves ilustres
em conselhos e guerras:
acolhe meu canto a Aristómenes,
vitorioso pítico.
Sabes o momento justo de propiciar o júbilo
e de prová-lo.

Mas quando alguém introduz no coração
o fel do rancor,
reages ríspida ao inimigo,
afogando a insolência no oceano turvo.
Porfírio provocou-te inadvertidamente,
cego à partilha do destino.
Quem traz da casa amiga o lucro consentido,
conquista prêmio ímpar.

Com o tempo, a violência arruína o arrogante.
Não soube evitá-la Tífon, centicéfalo cilício,
nem o rei dos gigantes;
abateu-os o raio e as flechas de Apolo,
alegre ao ver chegar de Cirra
o filho coroado de Xenarco,
folhas do Parnaso e pompa dórica.

A ilha
- cidade justa -
ganhou as cercanias das Graças,
conheceu a ilustre virtude eácida.
Desde sempre sua fama se perfaz.
Poemas repetem elogios ao berço
de seus heróis,
laureados em lutas esportivas,
conclusivos em rixas bélicas.

Entre cidadãos ela também fulgura.
Carente de ócio,
não levo a longa parlenda às cordas da lira,
nem às vozes sutis,
pois o tédio irrita os ouvintes.
Zeloso de meu débito,
o contexto preme:
teu feito mais recente, rapaz,
sobrevoe nas asas do meu engenho.

Na trilha de teus tios,
honras a glória de Teogneto, prêmio em Olímpia,
e a vitória de um corpo audaz, Clitômaco, no
Istmo.
Agigantas a família Midílida,
cumpres o dizer do filho de Ecleu,
palavras enigmáticas proferidas
quando viu na Tebas de sete portas
os filhos, ansiosos de lança.

Os Epígonos refaziam a campanha argiva.
O Ecleida pronunciou em plena guerra:
“É um feito da natura
o afã paterno brilhar nos filhos.
Vejo nítido Alcméon,
agitando o dragão cintilante
sobre o escudo rútilo,
destaque nos portais de Cadmo.

A ave de bom agouro surpreende agora Adrasto,
herói provado na expedição precedente.
Mas o revés dominará seu lar.
Na tropa dos dânaos,
só ele recolhe os ossos do filho morto.
Deuses decidem seu ingresso
pelas ruas largas de Abas,
com uma única baixa no exército.”

Calou Anfiarau.
Com igual enlevo,
guirlandas e a úmida aragem hínica
recubram Alcméon,
vizinho guardião dos meus haveres:
veio até mim
quando me dirigia ao ônfalo ínclito
- coração da terra -
e colocou-me no rol das profecias,
inatas à sua família.

Flechicerteiro,
senhor do templo ilustre,
abrigo nos vales de Pito,
cumulas de júbilo Aristómenes;
sua casa recebeu anteriormente
o prêmio almejado do pentatlo,
no âmbito de vossa festa:
dádiva tua.

Declina o olhar, Apolo,
acolhe o que traduzo em harmonia.
Dike preside a dança e o doce ritmo.
Aos deuses rogo eterno apuro
por vosso futuro, Xenarques.
Alguém atinge o píncaro sem muita fadiga
e a maioria então cogita:
é um sábio que, entre tolos,

nutre a vida com retos alvitres.
Mas isso foge à alçada humana;
um deus decide: ergue um,
sob o peso das mãos, derruba outro;
participa da porfia na medida.
Ganhaste em Mégara e nos campos de Maratona;
nos jogos de Juno, três vezes
vigorou tua força, Aristómenes.

Negros pensamentos,
encaraste quatro corpos caídos;
por anseio de Pito,
amargaram regresso contrário ao teu.
Nem o riso materno suscita regozijo
a seu redor.
Encolhidos nos becos, feridos pelo azar,
os batidos evitam desafetos.

Mas quem logra o novo louro,
pleno
alça o vôo da esperança
nas asas de seu feito.
Não cabe na riqueza a ambição do vencedor.
O prazer humano surge num átimo
e no mesmo hiato declina,
sob o sismo do querer adverso.

Criatura fugaz:
o que é alguém?
O que é ninguém?
Sonho de uma sombra: o homem.
Porém, quando o brilho divino desce,
sobreverbera a luz,
e a vida é doce.

Egina, mãe querida,
protege o livre curso da cidade,
com Zeus, com o rei Éaco,
com Peleu, com Télamon, intrépido, e com Aquiles.


Tradução: Trajano Vieira

quarta-feira, março 19, 2008

Os trabalhos e os dias, vv. 42-105: O Mito de Prometeu e Pandora

Oculto retém os deuses o vital para os homens;
senão comodamente em um só dia trabalharias
para teres em um ano, podendo em ócio ficar;
acima da fumaça logo o leme alojarias,
trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam.
Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou,
pois foi logrado por Prometeu de curvo-tramar;
por isso para os homens tramou tristes pesares:
ocultou o fogo; E de novo o bravo filho de Jápeto
roubou-o do tramante Zeus para os homens mortais
em oca férula, dissimulando-o de Zeus frui-raios.
Então encolerizado disse o agrega-nuvens Zeus:
"Filho de Jápeto, sobre todos hábil em tuas tramas,
apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas;
grande praga para ti e para os homens vindouros!
Para esses em lugar do fogo eu darei um mal e
todos se alegrarão no ânimo, mimando muito este mal".
Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses;
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem; e a Atena
ensinar os trabalhos, o polidédaleo tecido tecer;
e à àurea Afrodite à volta da cabeça verter graça,
terrível desejo e preocupações devoradoras de membros.
Aí por espírito de cão e dissimulada conduta
determinou ele a Hermes mensageiro Argifonte.
Assim disse e obedeceram a Zeus Cronida Rei.
Rápido o ínclito Coxo da terra plasmou-a
conforme recatada virgem, por desígnios do Cronida;
Atena, deusa de glaucos olhos, cingiu-a e adornou-a;
deusas Graças e soberana Persuasão em volta
do pescoço puseram colares de ouro e a cabeça,
com flores vernais, coroaram as bem comadas Horas
e Palas Atena ajustou-lhe ao corpo o adorno todo.
Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte
mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta
forjou, por desígnios do baritonante Zeus. Fala
o arauto dos deuses aí pôs e esta mulher chamou
Pandora, porque todos os que têm olímpia morada
deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.
E quando terminou o íngreme invencível ardil,
a Epimeteu o pai enviou o ínclito Argifonte
veloz mensageiro dos deuses, o dom levando; Epimeteu
não pensou no que Prometeu lhe dissera jamais dom
do olímpio Zeus aceitar, mas que logo o devolvesse
para mal nenhum nascer aos homens mortais.
Depois de aceitar, sofrendo o mal,ele compreendeu.
Antes vivia sobre a terra a grei dos humanos
a recato dos males, dos difíceis trabalhos,
das terríveis doenças que ao homem põem fim;
mas a mulher, a grande tampa do jarro alçando,
dispersou-os e para os homens tramou tristes pesares.
Sozinha, ali, a Expectação [Elpís]em indestrutível morada
abaixo das bordas restou e para fora não
voou, pois antes repôs ela a tampa no jarro,
por desígnios de Zeus porta-égide, o agrega-nuvens.
Mas outros mil pesares erram entre os homens;
plena de males, a terra,pleno, o mar;
doenças aos homens, de dia e de noite,
vão e vêm, espontâneas, levando males aos mortais,
em silêncio, pois o tramante Zeus a voz lhes tirou.
Da inteligência de Zeus não há como escapar!

Tradução: Mary de Camargo Neves Lafer

terça-feira, março 18, 2008

Kobayashi Issa

1.
katatsumuri
soro soro nobore
Fuji no yama


Um caracol sobe
lentamente, lentamente
sobe o monte Fuji.

2.

Yo no naka wa
Jigoku no ue no
Hanami kana


Aqui,neste mundo
Acima da Perdição,
contemplando flores.*

* Comentários:
A beleza desse Haikai consiste em sua antítese: enquanto almas sofrem no Inferno, as pessoas acima vivem agradavelmente - contemplando as flores que nascem na primavera. A antítese sugere que, para o poeta, o oposto do Inferno não é o Paraíso: é o próprio mundo dos vivos em um dia em que nascem flores.