domingo, março 16, 2008

Exorcismo

Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.


Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.


Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.


Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.


Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.


Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.


Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.


Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.


Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronomial obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.


Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista,
Libera nos, Domine.


Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Arquíloco - Fr. 17w

Das riquezas de Giges não cogito;
não nutro inveja; espanto não me causam
prodígios de Imortais; poder não quero:
dessas cousas distante a mente guardo.

Tradução: Aluízio Faria de Coimbra.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Safo 31 - Tradução de Elpino Duriense

Igual aos Deuses me parece aquele
Que defronte de ti se assenta, e te ouve
De perto docemente conversando,
Docemente sorrindo.

Isto no peito o coração me assombra,
Que depois que te eu vi, jamais me veio
Voz alguma à garganta, antes quebrada
A língua se entorpece,

Eis já de veia em veia sutil fogo
Lavrando vai: c'os olhos nada vejo;
E sinto de contínuo em meus ouvidos
um túrbido zumbido.

Geladas bagas por meu corpo correm,
Um frígido tremor me toma toda;
O rosto amarelece (*), e quase morta
Nem respirar já posso.

(*) Nota do tradutor: O texto diz: "Estou mais verde que a erva"; mas esta imagem por muito vulgar não sairia bem em nossa língua; como já notou o douto tradutor português de Longino, pelo que lhe substituímos o rosto amarelece, lembrando-nos da Eglóga X, dos Segadores de Ferreira, que nos diz na altepenúltima oitava: "A mão te treme, o rosto amarelece,"