quinta-feira, janeiro 31, 2008

Ilíada II. 484-494 - Segunda invocação às Musas

Ó musas, me dizei, moradoras do Olimpo,
divinas, todo-presentes, todo-sapientes
(nós, nada mais sabendo, só a fama ouvimos)
quais eram, hegemônicos, guiando os Danâos,
os príncipes e os chefes.
O total de nomes
da multidão, nem tendo dez bocas, dez línguas,
voz inquebrável, peito brônzeo, eu saberia
dizer, se as Musas, filhas de Zeus porta-escudo,
olímpicas, não derem à memória ajuda,
renomeando-me os nomes. Só direi o número
das naves e os navarcas que assediaram Tróia.

Tradução: Haroldo de Campos
Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Ricardo Reis

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Odisséia, XI,470-491: O discurso de Aquiles

Reconheceu-me a alma logo de Aquiles, de pés muito rápidos,
e, com sentidos queixumes,me diz as palavras aladas:
"Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
que nova empresa, infeliz, mais ousada que as outras concebes?
Como até o Hades ousaste baixar, onde os mortos se encontram,
de consciências privados, quais vão simulacros dos homens?"
Isso me disse; em resposta, lhe torno as seguintes palavras:
"Ó nobre filho do Eácida, Aquiles, primeiro entre os Dânaos!
Vim por me ser necessário pedir um conselho a Tirésias
sobre a maneira de em Ítaca alpestre chegar de tornada.
Ainda ao país dos Aqueus não fui ter, nem à pátria querida;
sim, continuo a vagar e sofrer. Mas ninguém, nobre Aquiles,
é tão feliz como tu, no passado e nos tempos vindouros.
Enquanto vivo, os Argivos te honrávamos, qual se um deus fosses;
ora que te achas no meio dos mortos, sobre eles exerces
mando inconteste; Não podes queixar-te da Morte, ó Pelida!"
Isso lhe disse; ele, logo, me volve as seguintes palavras:
"Ora não me venhas, solerte Odisseu, consolar-me da morte,
pois preferira viver empregado em trabalhos do campo
sob um senhor sem recursos, ou mesmo de parcos haveres,
a dominar deste modo nos mortos aqui consumidos."

[Tradução: Carlos Alberto Nunes]