sábado, janeiro 26, 2008

Ilíada I.348-430 - Aquiles e Tétis

Aquiles põe-se à parte, afasta-se chorando,
sentado junto ao mar salino-cinza, e olhava
ao longe as águas cor de vinho. Então à mãe
implora muitas vezes: "Mãe, que me dotaste
de uma vida tão curta, não devia o Olimpo
cumular-me de honras? Zeus, que no alto soa,
não me deu nem migalha. E o Atreide, o poderoso,
por cima ainda me ofende: priva-me do prêmio
e goza do que é meu". Falou, chorando. E a mãe
augusta o ouviu, sentada junto ao velho pai,
no fundo do oceano. Então surgiu do mar
salino-cinza a deusa - uma bruma - e afagava
o filho em prantos. Disse: "Por que choras, qual
a dor que à mente fere e te magoa? Conta,
nada me escondas, filho. Quero partilhá-la".
Então, ferido fundo, Aquiles, pés-velozes,
respondeu: "Sabes tudo, é repetir contar-te
o que passou. Marchamos contra Tebas, santa
cidade do Eecião. De tudo a despojamos,
e os filhos dos Aqueus repartiram-lhe os bens;
ao Atreide tocou Criseida, belo rosto.
Sacerdote de Apolo, deus flechicerteiro,
veio Crises às naus dos Aqueus de couraça
brônzea. Trazia dons riquíssimos, visando
a libertar a filha. O cetro de ouro e os nastros
do deus flechicerteiro à mão. E suplicava
a todos os Aqueus e a ambos os Atreides,
comandantes. Clamaram os Aqueus uni-
concordes: "Que se atenda o sacerdote e as galas
do resgate se aceitem." Não no coração
tem no entanto Agamêmnon. Com palavras duras
refuga o velho. Este volta atrás, colérico.
Apolo, que o queria, ouviu-lhe os rogos. Logo,
contra os Aqueus dispara um flechaço funesto.
E um por sobre o outro eles caíam: setas
do deus, por toda parte, dizimando tropas.
Aúgure sabedor das coisas nos resolve
o oráculo do deus. Falei antes de todos:
"Urge aplacar o Arqueiro". Fúria escura turva
o Atreide. Fez-me então ameaça que ora cumpre.
A Crises os Aqueus de olhos vivazes com
nau veloz devolveram Criseida; e ao deus, dons
tributaram. Agora à minha tenda arautos
vêm-me tomar Briseida, prêmio que os Aqueus
me deram; Tu, se o podes, socorre teu filho.
Sobe ao Olimpo. Roga a Zeus. Se em algo algum
dia a Zeus, por acaso, o coração tocaste
com palavras e obras - pois te ouvi freqüentes
vezes dizer, no paço de meu pai, que a sós,
sozinha, ao nuvem-turvo soturno Croníade
poupaste a afronta, quando outros imortais
-Hera, Apolo, Posêidon - com grilhões quiseram
aprisioná-lo; vieste então, deusa, e o livraste
e ao Olimpo chamaste o de Cem-mãos, aquele
que é Briareu para os deuses, para os mais, Egêone,
mais forte do que o pai, Egeu, e que sentou-se,
exultando de glória, ao lado do Croníade;
sentiram medo os Venturosos, desistiram
dos grilhões. Vai. Recorda-lhe isso. Os joelhos
lhe abraça. Vê se o moves em favor de Tróia,
aos Aqueus impelindo para o mar e as popas,
e assim, arruinados, que a seu rei festejem
e Agamêmnon, Atreide, amplo-reinante, entenda
seu desvio: não honrou o melhor dos Aqueus".
Tétis, desfeita em lágrimas, lhe respondeu:
"Ai de mim!Te criei nutrido de infortúnio:
Sem lágrimas, sem dor, assim eu te quisera
sentado junto às naves, pois te espreita a Moira,
tens vida breve. Agora ao breve o desditoso
se ajunta. Nestes paços te gerei com má
sorte. Para falar em teu favor a Zeus,
amador de relâmpagos,ao níveo Olimpo
eu mesma subirei. Talvez me ouça. E tu,
sentado junto às naus, mantém contra os Aqueus
a ira e te abstém da guerra; Zeus partiu
com sua corte para a festa dos Etíopes
que vivem no Oceano. Volta em doze dias.
É então que por ti, pisando o assoalho brônzeo
de seu palácio, irei, abraçada a seus joelhos,
suplicar, convencê-lo". Assim falou e Aqules
só, coração colérico, sofria pela
moça - fina cintura - que lhe arrebataram
a contragosto.

Tradução: Haroldo de Campos

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Od. VIII- Os Amores de Afrodite e Ares

Demódoco depois dedilha e canta
como furtiva a coroada Vênus
uniu-se a Marte, que o Vulcânio toro
maculou com mil dons peitando a esposa.
Pelo Sol advertido, o grão ferreiro
parte, vingança a meditar profundo;
no cepo encava a incude, laços forja
que desdar-se não podem nem romper-se.
Mal os conclui, à câmara caminha
do seu leito amoroso; uns aos pés liga,
outros ao sobrecéu, com tanta insídia,
que de aranha sutil quais teias eram,
mas a qualquer celícola invísiveis.
Armada a fraude, simulou viagem
de Lemos à caríssima cidade.
Marte, cujos frisões têm freios de ouro,
não obcecado, o fabro viu partindo;
veio-lhe presto à casa, cobiçoso
de gozar Vênus bela: esta pousava
de visitar o genitor Satúrnio;
pega-lhe o amante na mimosa destra:
"Vazia a cama está; Vulcano é fora,
aos Síntios foi-se de linguagem bronca".
Ei-los ao leito jubilando ascendem,
e nas malhas do artista se emaranham;
nem desatar-se nem mover-se podem,
sem ter efúgio algum. Torna Vulcano,
antes que a Lemos chegue; o Sol o avisa.
Ao seu pórtico pára angustiado,
urro esforça raivoso, que no Olimpo
retumba horrendo: "Ó Padre, ó vós deidades,
vinde rir e indignar-vos desta infâmia.
Por coxo a Dial Vênus me desonra,
amando ao sevo Marte, que é perfeito:
Se esta lesão me afeia, é toda a culpa
de meus pais, que gerar-me não deviam.
Vede-os,oh!,triste aspecto, como dormem
em meu leito enleados; mas duvido
que em seu ardor jazer assim desejem.
Meu laço os reterá, té que haja o dote
e os dons feitos ao pai, que deu-me a filha
de formosura exemplo e de inconstância".
No éreo paço Vulcânio já Netuno,
mas o frecheiro Febo e o deus do ganho,
as deusas de pudor não comparecem;
Do pórtico os demais, às gargalhadas,
o dolo observam do prudente mestre,
olham-se e clamam: "Da virtude o vício,
do ínfero o lesto e forte é suplantado;
o manco ao mais veloz prendeu com arte,
pague o adúltero a multa". Apolo ao núncio
de bens dador voltou-se: "Quererias,
filho de Jove, assim dormir nos braços
da áurea Ciprina?" Respondeu Mercúrio:
"Oxalá, Febo Apolo, ao pé de Vênus
vós me vísseis dormir, e às próprias deusas,
no tresdobro dos fios envolvido".
Renovou-se a risada; mas Netuno
sério ao mestre pediu que solte a Marte:
"Solta-o; prometo que a teu grado e à risca
hajas a multa aos imortais devida".
"Rei, contesta o aleijado, não mo ordenes;
A caução para o fraco é fraca sempre:
como te obrigaria, se ele escapo
se recusasse?" Então Netuno: "Marte
se renuir, pagar-te-ei, Vulcano".
Rende-se o ínclito coxo: "Não me é dado
negar-to". E os laços desliou de um toque.
Os réus fugiram: para a Trácia, Marte;
para Pafos, Ciprina, a mãe dos risos,
que ali tem bosque e recendentes aras.
Banhada e em óleo divinal ungida,
as graças do mais fino a paramentam.


[Tradução de Odorico Mendes]

terça-feira, janeiro 22, 2008

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.