domingo, dezembro 16, 2007

Mimnermo: Fr.2 Diehl

Nós, como em tantas flores faz a primavera
Folhas se abrirem, quais flores tenras,
Ébrios vamos vivendo efêmero fulgor,
Sem saber nada do que os deuses tramam!
As negras Parcas nos espiam, entretanto,
Uma em torturas finda nossa idade,
Outra costura a morte, e dura a juventude
O tanto quanto o sol passeia ao solo.
Morrer prefiro, antes que suma a primavera.
No fim das flores, crescem na alma os males,
E, consumada a queda, sobra a mágoa:
Um cai dentro do Inferno, uivando os filhos
Que não teve, outro adoece e morre, qual!
Aos males que nos manda Zeus ninguém escapa!

[Tradução: Antonio Medina Rodrigues]

Píndaro - 1º Ode olímpica

Água é o melhor de tudo: o ouro incandescente
À noite brilha no exceder-se da riqueza.
Se os prélios, ó minh'alma, anseias celebrar,
Brilhante, mais que o sol, tu nada encontrarás,
Quando no céu se queima, encastelado, o dia.
Melhores prélios que os olímpios tu não cantas!
De lá desatam-se mil vozes,
A incitar o gênio dos artistas,
Para gáudio de Zeus, filho de Crono,alçando-se
Dos ricos tetos do herói Hierão,
Que na Sicília, prenhe de manadas, tem

Um cetro e colhe da virtude a fina essência,
E a si cultiva com deslumbres musicais,
Com que em sua mesa nós também somos honrados!
A dória lira enceta, se de Ferenico,
Em Pisa, o trote belo te empolgou,
Quando às margens do Alfeu,
Num solavanco, sem espora e sem chicote,
A seu senhor nessa carreira deu a taça.

Do cavaleiro rei de Siracusa, a glória
Rebrilha na colônia dos heróis, fundada
Por Pélops, a quem o Abala-terra amou,
Posídon, desde que viu Cloto retirá-lo
À mágica bacia, co'as espaldas lúcidas,
Ornato de marfim. Espanto há neste mundo,
Onde a saga dos homens se deturpa sempre,
E as narrativas mentirosas,
mesmo buriladas, sempre desanimam.

Ilude sempre o mel da graça o pensamento
Aos que estão vivos, o que é falso vira ser,
Veraz e costumeiro: só em vindouros dias
Os testemunhos confiáveis nos teremos.
Só coisas belas é veraz falar dos deuses,
Que assim menor vai ser a nossa culpa! Ó filho
De Tântalo, de ti, contra os antigos, vou
Falar: quando teu pai os deuses convidou
Para um banquete no alto da montanha, em Sípilo,
O lúcido senhor do garfo de três pontas
Te enlevou alucinado de desejo em seus
Corcéis de ouro para Zeus de amados paços,
Como depois também viria Ganimedes
Para honrar Zeus, e foi por isso que sumiste!
Contudo, à tua mãe, de mãos vazias voltam
Os que a buscar-te ela mandara, e então falaz
Vizinho por inveja diz que em flama ardente
E n'água borbulhante os membros co'uma faca
Te cortaram para seres pasto no banquete.

É impossível chamar-se um deus de canibal!
Eu me recuso! A impunidade não compensa
Esta calúnia.Ora, se alguém no Olimpo honrado
um dia foi, ninguém o foi melhor que Tântalo.
Mas conviver ele não soube com a glória.
A ganância foi levá-lo para a suma desventura,
Pois uma pedra Zeus lhe pôs sobre a cabeça,
Que ele tem sempre que afastar, pra sua inglória.

E a vida sob tal desgraça lhe foi dura,
Após o néctar ter roubado aos imortais,
E mais a ambrósia que confere a eterna vida,
E tê-los aos convivas dado num banquete.
Erra quem pensa se ocultar de um deus,
Ao praticar um mal. Por isso os deuses
O filho dele despediram para o mundo
Dos mortais, e quando em flor ao queixo
Lhe cobriu penugem negra, ele cuidou

Em Pisa se casar com Hipodâmia bela,
No escuro, vindo só, e o mar acinzentado,
E a Posídon-dos-Ruídos-Retumbantes invocou,
E o deus de pé lhe apareceu, e o herói
Lhe disse: "Se os dons de Vênus terna têm
Encanto, ó Posídon, a espada de Oinomao
Tu paralisa, e a mim me leva a Élis
No mais rápido corcel que tu tiveres,
Porque tal pai matou os treze que sua filha
Desejaram desposar, e assim vai retardando
Um casamento, mas um risco não arrasta
A um homem sem valor. Por que me iria consumir
Em vil velhice, à sombra recostado, em vão,
E sem provar da formosura? O prêmio eu tenho
À minha frente, a tua ajuda não me negues".
E as palavras que ele usou não foram vãs.
O deus lhe deu para ajudá-lo um áureo carro
Com corcéis que, alados, não se cansam nunca.

Com tal donzela ele casou, pois superou
Ao bravo pai, e dela teve filhos ínclitos,
Ao todo seis, a conduzir nações, e ao túmulo
Deitado junto ao rio Alfeu, exposto jaz
Pras santas libações, perto do altar que mais
Recebe visitantes, e alta brilha assim a glória
De Pelops nas disputas Olimpiais,
Seja no curso ou força bruta, e goza
O vencedor sua glória toda a vida, doce
Como a colmeia, cumulado de regalos,
Pois os dons que não se perdem são para sempre.
A mim compete coroar então ao grão patrono,
Ou quer na lira eólia ou síncope dos trotes,
Pois nunca irão louvar os hinos meus alguém
Que mais adoração demonstre ao grandioso
E ao belo como tu, Hierão, que um deus sempre te siga!
Mais doce a mim será te celebrar em teu triunfo,
Quando um carro vais de Cronos à colina,
Buscar razões mais dignas de encômios,
E as setas mais potentes guarda para mim
A musa, maiores umas do que as outras,
Porque são dos reis! Ao longe não me olhes,
Olhar ao céu é o que te cabe,
E a mim juntar-me aos vencedores,
E espalhar por Grécia toda a flama dos meus versos.


[Tradução: Antônio Medina Rodrigues]

Estrela da manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecais por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra
[e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã

(Manuel Bandeira)