sexta-feira, setembro 14, 2007

Alceu 346 LP

Fúria destes ventos me entorpece:
Ou se engalfinham ondas pela proa,
Ou pelo lado a onda me aborrece,
Em negra embarcação vamos a toa,
E na tormenta o ardor então falece.
Já encobre o mastro agora um aguaceiro,
E a vela vai dançando pelo vento,
Esfarrapada, à força do salseiro,
E agora(é o fim!)cedeu o amarramento.

Tradução: Antônio Medina Rodrigues.

quarta-feira, setembro 12, 2007

A uma passante - Baudelaire

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douleur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair...puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement rena�tre,
Ne te verrai-je plus que dans l’eternité?

Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Perna de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu de seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho...e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

(Tradução: Guilherme de Almeida)

Vida dos filósofos - Heráclito

Diógenes Laércio IX, I [DK 22,1]

Heráclito, filho de Blosón (ou, conforme dizem alguns, Herakon) de Éfeso. Este homem floresceu por ocasião da sexagésima nona olimpíada. Ele era extraordinarimente arrogante e desdenhoso, como de fato se depreende claramente de seu livro, onde ele afirma "Muita erudição não confere bom senso - de outra forma, o teria conferido a Hesíodo e Pitágoras, bem como a Xenófanes e Hecateu". (...) Por fim, tornou-se um misantropo, abandonando a cidade para viver nas montanhas, onde alimentava-se de plantas e ervas. Porém, em conta disso, contraiu hidropisia e regressou à cidade. Perguntou aos médidos, à maneira de um enigma, se conseguiriam transformar uma copiosa tempestade em seca. Como estes não o compreendessem, enterrou-se em um estábulo, na esperança que a hidropisia fosse evaporada pelo calor do estrume. Porém mesmo assim não logrou êxito, e morreu aos sessenta anos.

Comentários:
A informação de que Heráclito viveu seu apogeu aos quarenta anos, à época da sexuagésima nona olimpíada, foi, sem sombra de dúvidas, extraída do historiógrafo Apolodoro: A meia-idade de Heráclito é situada aproximadamente quarenta anos após Anaxímenes ter alcançado o seu apogeu e a partida de Xenófanes de Cólofon. (Confome afirma Sócion [Diog. L. IX, 5, DK22 AI) algumas pessoas diziam que Heráclito ouviu os ensinamentos de Xenófanes. Supor que havia alguma influência provavelmente seria o bastante, mas o tom crítico do fr.40, citado acima, não sugere uma relação formal entre mestre e discípulo). Não há motivo para suspeitar da datação de Apolodoro, visto que Heráclito mencionou Pitágoras e Hecateu assim como Xenófanes, e foi, talvez, aludido indiretamente por Parmênides. Tentativas de situar a atividade filosófica de Heráclito posteriormente à datação de Apolodoro foram sabiamente propostas após 478 A.C ( e ainda, mais improvável, em consequência de Parmênides) contudo, não tiveram aceitação e sustentam-se em hipóteses implausíveis, tais quais que a ausência de um governo autonômo (Sugerida pela afirmação do fr.121, de que os efésios exilaram Hermodoro, amigo de Heráclito) seria possível em éfeso antes de sua liberação pela Pérsia, em 478. Heráclito pode ter vivido mais do que os sessenta anos de Apolodoro (na mesma idade em que também teriam morrido Anaxímenes e Empédocles, conforme afirma Aristóteles); Todavia, nós podemos provisoriamente aceitar que ele estava em sua meia-idade no fim do sexto século e que sua grande atividade filosófica encerrou-se por volta de 480.

O resto do fr.40 é citado como exemplo do tipo de ficção biográfica que proliferou-se em volta do nome de Heráclito. Diógenes também nos conta que Heráclito recusou-se a criar leis para os Efésios, preferindo brincar com crianças no templo de Àrtemis. Grande parte destas histórias são baseadas em ditos notórios de Heráclito; muitas tencionavam ridicularizá-lo e foram criados com propósitos mal-intencionados por helênicos ofendidos por seu tom superior. Por exemplo, sua misantropia deduz-se por suas críticas à maioria dos homens , o vegetarianismo por menção à uma contaminação do sangue, e a hidropisia por sua asserção "É a morte para as almas tornar-se água". Ele era conhecido por propor enigmas obscuros, o que teria lhe custado a vida: Os médicos, a quem ele aparentemente critica no fragmento 58, nada fazem para salvá-lo; É dito que enterrou-se no estrume porque dissera no fr.96 que "os cadáveres são mais desprezíveis que estrume". "Ser exalado" refere-se a sua teoria das exalações do mar. Os únicos detalhes a respeito da vida de Heráclito que podem seguramente ser aceitos como verdadeiros são de que ele passou-a em Éfeso, que veio de uma antiga família aristocrática, e que estava em maus termos com seus conterrâneos.