quinta-feira, maio 17, 2007

Catulo, 2

Pássaro, delícias de minha amiga --
com quem brincar e ter no colo, a quem
no ataque dar a ponta dos dedinhos
e acres dentadas incitar costuma
quando lhe apraz ao meu desejo ardente
um capricho, um gracejo preparar,
não sei qual, só um consolo à sua dor,
creio, para acalmar o ardor assim --
pudesse eu como ela brincar contigo
e a mente esquecer pensamentos tristes!
Para mim é tão bom quanto à menina
veloz se diz que foi a maçã de ouro
que o cinto atado há muito enfim soltou.
(Trad. de João Ângelo Oliva Neto)

Poema 2B
Tão caro a mim quanto à moça
de pernas ágeis (dizem)
a maçã de ouro
graças à qual desatou a cintura
longamente ligada.
(Trad. de Haroldo de Campos)



terça-feira, maio 15, 2007

Balada do amor através das idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão em Versailles
espirituoso e devasso,
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

(Carlos Drummond de Andrade)

Catulo, 89

Gélio está magro. Pudera!
Tem u'a mãe tão bondosa
E tão cheia de saúde;
Tem uma irmã tão gostosa,

Tem um tio tão complacente,
Tem primas por todo o lado,
Como é que ele poderia
Deixar de ser tão mirrado?

Ainda que só tocasse
Naquilo que é interdito,
Mesmo assim compreenderias
Por que ele está um palito.

(Tradução de José Dejalma Dezotti)