sábado, abril 28, 2007

Catulo, 8

Infeliz Catulo, deixa de loucura
e o que pereceu considera perdido.
Outrora brilharam-te dourados sóis
Quando ias aonde levava a menina
amada por nós como ninguém será;
lá muitos deleites havia que tu
querias bem, e ela não queria mal.
É certo, brilharam-te dourados sóis...
Agora ela não quer: Tu, louco, não queiras
nem busques quem foge nem vivas aflito,
porém duramente suporta, resiste.
Vai,menina, adeus, Catulo já resiste,
não vai te implorar nem à força exigir-te
mas quando ninguém te quiser vais sofrer.
Ai de ti, maldita, que vida te resta?
Pois quem vai te ver? P'ra quem te enfeitarás?
E quem vais amar? De quem dirás que és?
Quem hás de beijar? Que lábios vais morder?
Mas tu, Catulo, resoluto, resiste.

Tradução: João Angelo Oliva Neto

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

(Manuel Bandeira)

domingo, janeiro 21, 2007

Unidade

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam
se esa é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada
por mão inconsciente
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.

A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.

(Carlos Drummond de Andrade)