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sábado, abril 09, 2011

Ilíada, 5, 711-868: Diomedes fere Ares

(...)
Mas Hera, braços-brancos, viu como os Aqueus
na luta cruel estavam sendo trucidados.
A Atena então profere palavras aladas:
"Filha de Zeus que porta-o-escudo, ó Infatigável!
Será vã a promessa feita a Menelau
por nós, de que, destruída Tróia bem-murada,
retornaria aos seus, se nós deixarmos Ares
enfurecer funesto. Lembremo-nos, ambas,
de nosso ímpeto bélico. Avante". Falou.
Não dissentiu a olhicerúlea, enquanto
Hera, augusta Croníade, os seus cavalos de áureo
frontal ia aprestando. Hebe ao carro adapta
rodas de bronze curvo eixo férreo, oito raios;
pinas de ouro maciço, lâminas de bronze
justas nas órbitas externas: maravilha!,
Em fina prata os cubos de rodas, girando,
de ambos os lados. Tiras feitas de ouro e prata
formam tensas o corpo do carro de dúplice
parapeito; dali sai o timão prateado,
à cuja ponta firma-se um jugo belíssimo
de ouro e peitorais aurilindos; sob o jugo
Hera os corcéis conduz, com gritos de combate.
Atena, por seu turno, filha de Zeus porta-
-escudo, deixa cair sobre o piso paterno
o peplo de polícromo bordado, urdido
por suas próprias mãos. Veste o arnês de Zeus, ajunta-
-nuvens, e cinge as armas para a lacrimosa
guerra. Põe nas espáduas a égide franjada,
pavorosa, que ostenta em coroa o Terror,
Fobos; Éris, Discórdia; Alké, Violência; Ioké,
glacial Perseguição; e a cabeça gorgônea,
monstruosa, obra de Zeus, espavento e prodígio.
A deusa coloca o elmo de cimeira dupla,
tetracórnio, dourado, com friso de heróis
de cem cidades. Sobe então ao carro flâmeo
e empunha a megalança, pesada, maciça,
com a qual, quando irada, a filha do fortíssimo
Pai dizima esquadrões de guerreiros, de heróis.
Hera fustigou rápida os corcéis. As portas
celestes por si mesmas rangeram, guardadas
pelas Horas, custódias do amplo céu urânio,
que abrem e fecham nuvens densas. Os corcéis,
picados, saem por elas. Longe dos demais
numes, Zeus, no mais alto píncaro do Olimpo
multiescarpado, senta-se. Hera, a dos  braços-
-brancos, sofreia então so cavalos, dizendo:
"Pai, não te indignas vendo os torpes feitos de Ares,
que às cegas, em desordem, extermina os Gregos?
Eu sofro, enquanto a Cípria e o arquiargênteo Apolo
gzam com os demandos do demente infrene
que atiçaram. Tua cólera despertarei,
Zeus Pai, se eu castigar Ares com o rigor
devido e o afastar do campo de batalha?"
Volta-se e lhe responde Zeus ajunta-nuvens:
"Mais valerá que incites de encontro a ele Atena
predadora; ninguém melhor para puní-lo".
Disse. E assentiu a deusa braços-brancos, Hera.
Fustigou os corcéis que de bom grado voam
entre a terra e o estelário. Quanto abarca a vista,
a perder-se na bruma, de quem, de um mirante,
contempla o oceano roxo, cor-de-vinho, tanto
os cavalos das deusas num arranco avançam,
altíssonos, nitrindo. Quando aos tróicos plainos
chegaram, ao ponto aonde confluem as correntes
dos dois rios, Escamandro e Simoente, Hera, braços-
-brancos, parou o carro, soltou os cavalos
e em torno espargiu densa névoa. Do Simoente
jorrou para os cavalos pasto ambrosíaco. Elas,
as deusas, seguem, pombas tímidas no andar,
sequiosas de ajudar os Gregos. Aonde mais
- e mais forte - o combate se adensa, as duas divas
acorrem. Em redor de Diomedes, o doma-
-corcéis, se apinha a chusma - leões carnivorazes
ou javalis fortíssimos. Hera, estacando,
emite um berro, símile no vulto a Estêntor,
animoso, voz bronzirreboante, só igual
ao clamor de cinqüenta: "Que vergonha, Aqueus,
só no aspecto notáveis! Presente à refrega
o divo Aquiles, Tróico nenhum aos dardânios
portais jamais surgiu, temendo-lhe o arremesso.
Agora, é vê-los. Lutam juntos às naves côncavas!"
Disse. E pôs-se a incitar o ânimo grego e a fúria.
Atena, olhos-azuis, busca o Tideide. O príncipe,
junto aos corcéis e ao carro, amainava a ferida
que Pândaro, flecheiro, lhe fizera. O suor,
por so o largo bálteo do broquel redondo,
o afligia. Exaurido, o braço já lhe pesa;
mas afasta a correia e limpa o sangue negro-
-nuvioso. A deusa o jugo os corcéis lhe toma,
dizendo-lhe: "Ó Tideide, ao pai não se assemelha.
De pequena estatura, Tideu era um bravo.
Certa vez o proibi de lutar, de ostentar
seu brilho. Como núncio, apartado dos Gregos,
fora a Tebas, perante Cadmeios sem conta;
impus-lhe banquetear-se nos salões tranqüilo.
Mas ele, de coração fogoso, com sempre,
pôs-se a reptar os jovens cádmios e os bateu
nos vários jogos (facilmente: eu ao seu lado).
Eu, agora, te amparo e guardo e, toda zelos,
te instigo a combater os Troianos. Opresso
de fadiga ou de frio temor descorajoso,
tu não pareces filho de Tideu, flamante-
-coração, da linhagem ilustre de Eneu."
O intrépido Diomedes volta-se e responde:
"Reconheço-te, deusa, filha de Zeus, porta-
-escudo. De boa mente falo, nada oculto.
Descoragem medrosa ou tibieza não travam
meu ímpeto.Recordo apenas teu ditame:
não afrontar jamais deuses no combate;
issso ensinaste a mim e aos outros; Afrodite,
somente, poderia eu ferir com meu bronze.
Eis porque retirei-me e concitei os meus
a reunir-se aqui, junto de mim, pois notei
Ares, em meio aos Tróicos, senhoreando a guerra".
Então, olhos-azuis, a deusa Atena diz-lhe:
Ó Diomedes Tideide, meu dileto no íntimo:
não te arreceies de Ares nem de qualquer outro
imortal. Estarei ao teu lado, incitando-te.
Lança os cavalos unicascos de encontro a Ares,
acomete-o de perto, sem temer-lhe a fúria:
é um insano de má-morte, um falso, um duas caras:
a Hera e a mim, não há muito, se declarou
inimigo dos Tróicos e a favor dos Gregos.
Agora, deslembrado, junta-se aos Troianos".
Assim falando, a deusa afasta o auriga Estênelo
do carro com a mão (este salta, obediente)
e sobe à biga ao lado do árdego Diomedes.
Estala o eixo de faia sob o peso de ambos,
uma deusa terrível e um herói fortíssimo.
Palas Atena empunha o látego e o bridão
e arremessa os corcéis unicascos de encontro
a Ares. Este espoliava o enorme Perifante
o mais valente etólio, progênie de Oquésio.
Despia-o da armadura o deus sanguinolento.
Atena põe (e faz-se invisível) o escuro
elmo de Hades. Invisa, Ares só vê Diomedes.
O matador de gente-larga Perifante,
enorme, ali mesmo onde, exânime, tombou
e se atira Diomedes, cavaleiro exímio.
E quando os dois se enfrentam, cara contra cara,
Ares, por sobre o jugo e as rédeas, pronto, o bronze
desfere, rapace, ávido por desalmar
o Tideide. A deusa, olhos-azuis, com a mão
o empolga e o faz voar no vazio, lançado longe,
além da biga. Então Diomedes, voz altíssima,
arroja o pique brônzeo. Atena o endereça
aos baixos, onde aperta o cinturão do deus.
Ali o fere e punge. A pele fina rasga-lhe
e a lança extrai do ferimento. Ares, o brônzeo,
berra, com um bramido de nove ou dez mil
homens, lutando a mando do nume da guerra.
Troianos e Aqueus tremem aterrorizados,
tão grande o urro de Ares belicoso. Assim
como um vapor das nuvens, tenebroso, exala-se
em tempo de calor, quando o vento colérico
tempestua, assim viu Diomedes o brônzeo Ares
subir, a par das nuvens, para a vastidão
do urânio céu. (...)

Tradução de Haroldo de Campos  

sexta-feira, março 18, 2011

Anacreonte

Fragmento 391 PMG

Mas agora a grinalda da cidade foi destruída.

Fragmento 394 PMG

Graciosa andorinha de voz tão doce!

Fragmento 396 PMG

Traz água e traz vinho, ó rapaz! Traz-me também coroas
de flores. Vai buscá-las: quero andar ao murro com o Amor.

Fragmento 398 PMG

Os dados do Amor
são a loucura e a algazarra.

Fragmento 407 PMG

Oferece-me, meu querido,
as tuas coxas tão esbeltas.

Fragmento 413 PMG

Como um ferreiro de novo o Amor me golpeou
com um grande machado e banhou-me na corrente invernosa.

Fragmento 414 PMG

Cortaste a flor perfeita do teu cabelo macio.

Fragmento 428 PMG

De novo amo e não amo,
estou doido e não estou doido.

Tradução de Frederico Lourenço

Fonte: LOURENÇO, F. Poesia grega de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia, 2006

Íbico, fragmento 282a - "Arte Poética"

...destruíram de Príamo Dardânida
a grande, famosa e venturosa cidade,
vindos de Argos, devido
à deliberações do grande Zeus,

por causa da beleza da loira Helena
suportando conflitos muito cantados
na guerra lacrimosa;
e a desgraça montou Pérgamo miseranda,
devido a Cípris dos dourados cabelos.

Mas agora não é meu desejo cantar
Páris, traidor do anfitrião que o recebeu,
nem Cassandra dos finos tornozelos,
nem todos os outros filhos de Príamo,

nem o dia inominável da tomada
da alta Tróia; nem narrarei
o altivo valor dos heróis,
trazidos em côncavas naus

de muitas cavilhas como flagelo
para Tróia, heróis excelentes.
Comandava-os o poderoso rei
Agamémnon, da linhagem de Plístenes,
condutor de homens, belo filho de Atreu.

Nestes temas as sábias Musas
do Hélicon talvez embarcariam,
mas nenhum homem mortal
...conseguiria dizer tudo:

quantas naus de Áulis
através do mar Egeu desde Argos
vieram até Tróia
apascentadora de cavalos,

com homens vestidos de bronze a bordo,
filhos dos Aqueus; entre os primeiros,
com a sua lança, Aquiles de pés velozes,
e o potente Ájax Telamónio...
...do fogo

....o mais belo homem de Argos...
...

...que a náiade de cinta dourada,
Hílis, deu à luz; a este, Troianos e Dânaos
comparavam Troilo,
como ouro três vezes trabalhado
a uma liga de bronze,

pois consideravam-no
muito parecido na beleza.
Estes têm a beleza para sempre.
Também tu, ó Polícrates, terás renome imorredouro,
graças ao meu canto e à minha fama.

Tradução de Frederico Lourenço.

Fonte: LOURENÇO, F. Poesia grega de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia, 2006.

Semônides, Fr.1 W - "A Condição Humana"

Ó rapaz, é Zeus tonitruante que detém o desfecho
de tudo quanto existe e tudo dispõe como quer.
Não há inteligência nos homens, mas vivemos
efêmeros como gado, sem sabermos
como o deus terminará cada coisa.
Porém a esperança e a credulidade
alimentam-nos a vontade do impossível.
Uns esperam que venha o dia, outros as estações.
Não há ninguém que não julgue chegar ao ano
seguinte, amigo da riqueza e da prosperidade.
Mas a velhice, nada invejável, apanha um homem
antes de chegar à sua meta; a outros mortais
destroem as doenças miseráveis; e Hades envia
outros para debaixo da negrra terra, mortos por Ares.
Outros agitados na tempestade marítima
e nas ondas numerosas do mar purpúreo
morrem, quando não conseguem sustento em terra.
Outros ainda atam uma corda ao pescoço em desgraçado
destino e deixam por sua vontade a luz do sol.
Assim, nada existe sem misérias, mas incontáveis
desgraças e sofrimentos inesperados existem
para os mortais. Mas se eu tivesse o poder de persuadir,
não estaríamos apaixonados pelas desgraças,
mas daríamos cabo do coração com dores amargas.

Tradução de Frederico Lourenço

FONTE: LOURENÇO, F. Poesia Grega de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia, 2006.

sábado, fevereiro 26, 2011

O Prazo de Nero

Não se perturbou Nero quando ouviu
do Oráculo de Delfos a profecia:
"Que tema os setenta e três anos".
Tinha ainda tempo para aproveitar.
Tem trinta anos. Bastante longo
é o prazo que o deus lhe dá
para preocupar-se com os riscos futuros.

Agora, vai retornar a Roma um pouco fatigado,
mas maravilhosamente cansado desta viagem,
que foi sempre dias de prazer -
nos teatros, nos jardins, nos ginásios ...
Noitinhas das cidades da Acaia ...
Ah! a volúpia dos corpos nus, sobretudo ...

Eis aí Nero. E na Espanha Galba
secretamente congrega sua tropa e a exercita,
o velho de setenta e três anos.

K.Kaváfis

Fonte: Poemas de K.Kaváfis; Tradução de Ísis B. da Fonseca. São Paulo: Odysseus, 2007.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Simônides de Céos, fr. 579 P

Há um apólogo que diz
que Aretê habita em rochedos inacessíveis,
na companhia de um coro sagrado de céleres ninfas.
Porém não é visível aos olhos de todos os mortais,
- apenas ao daquele que, alagado de suor que devora o ânimo,
chegar ao cume, graças à sua coragem.

Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira

Simônides de Céos fr.543 P

Quando
na arca lavrada
o vento soprando
e o mar encapelado
e o terror a abateu com faces não enxutas,
lançou os seus braços em volta de Perseu e disse: "Ó filho,

que aflição a minha!
Tu dormes, e com teu lácteo rosto
entregas-te ao sono neste madeiro sem deleite,
e na noite cravejada de pregos
brilhas estendido nas trevas escuras.
Da espuma profunda, sobre o teu cabelo,
ao passar da onda,
não curas, nem da voz do vento: deitado
no teu manto, belo é o teu rosto.
Se o que é terrível o fosse para ti,
às minhas palavras darias brandos ouvidos.
Mas eu te ordeno: dorme, filho, dorme, ó mar, dorme,
ó minha dor desmedida! Que uma mudança surja,

ó Zeus pai, vinda da tua parte!
Mas, por eu ter dito esta palavra ousada
e fora da justiça, eu te imploro, perdoa-me!"

Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira.

Hino Homérico VIII: Ares

Ares muito forte, condutor da carruagem, de elmo áureo,
ânimo terrível, porta-escudo, salva-cidades, arnês-de-bronze,
braço forte, incansável, hábil-na-lança, muralha do Olimpo,
Pai de Vitória boa-na-guerra, ajudante de Justiça,
Tirano aos contrários, guia dos mais justos mortais,
porta-cetro da virilidade, que revolve o globo flamante
Etéreo nas constelações de sete estrelas, onde corcéis em chamas
eternamente acima da terceiro órbita mantêm-te;
Ouve, defensor dos mortais, dotador da juventude bem audaz,
Do alto do céu desce brilhando em fulgor para a nossa
vida e belicosa força, que eu seja capaz
de repelir malfazeja aflição de meu peito,
de vergar os enganosos impulsos da alma nas entranhas,
Detém também acerba cólera em meu coração, que me incita
a marchar em frias disputas: Mas tu, venturoso,
concede audácia para manter em leis propícias de paz
disperso do ardor pelo combate aos inimigos e da violência da Sina.

Tradução: Rafael Brunhara

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Hino Homérico XXVI: A Dioniso

De cabelos hederosos Dioniso mui clamoroso começo a cantar,
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa:  ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez
e das estações vir outra vez por muitos anos.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXI: A Apolo

Febo se a ti até o cisne com canoras asas canta
ao monte lançando-se das margens do rodopiante rio
Peneu, também a ti o aedo portando a lira canora
de doce voz canta no princípio e no fim.
Também assim, tu, salve, soberano: propicio-te com o canto.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXVIII: A Atena

Palas Atena ilustre Deusa começo a cantar,
a Glaucópida multiversátil que tem um coração sem doçuras;
virgem venerável protetora de cidades poderosa
Tritogênia, que o próprio Zeus próvido engendrou
de sua insigne cerviz, armas de guerra portando
áureas, omniluzentes. Vendo-a, reverência tomou
os imortais: diante de Zeus Egífero
impetuosamente irrompeu de sua imortal cabeça
brandindo pontiaguçado dardo: retumbou o vasto Olimpo
terrívelmente pela força da Glaucópida. A terra ao redor
temívelmente gritou, moveu-se então o alto mar
com purpúreas vagas agitado, conteve-se a água
de repente:  o esplêndido filho de Hipérion manteve
seus corcéis celerípedes até que a donzela
tomasse dos ombros imortais as deiformes armas,
Palas Atena! Alegrou-se Zeus próvido.
Também assim, tu, salve, filha de Zeus Egífero
Depois eu também te lembrarei em outro canto.

Tradução: Rafael Brunhara

terça-feira, dezembro 14, 2010

Hino Homérico XXXI: Ao Sol

Sol começa a cantar então, filha de Zeus, Musa
Calíope: o Resplandecente, que Eurýfaessa olhitáurea
engendrou para o filho de Terra e Céu constelado:
Pois Hipérion casou-se com Eurýfaessa mui ínclita,
a irmã, do mesmo ventre, que para ele engendrou bela prole:
Aurora dedirrósea, Lua de belas tranças
e Sol infatigável símil aos imortais
que reluz para mortais e imortais deuses,
a avançar com seus corcéis: temível ele observa com os olhos,
do áureo elmo;  brilhantes raios a partir dele
resplendem, cintilam, além das têmporas, e as faces
brilhantes, da cabeça grácil, retêm o rosto
longiluzente. Em volta do corpo reluz bela veste
de fino talhe no sopro dos ventos com machos corcéis
[...]
então permanece no carro de jugo áureo e os corcéis
conduz pelo céu até o Oceano.
Salve soberano benévolo concede vida que deleite meu coração:
por ti começando celebrarei a raça dos homens semideuses
de fala articulada, cujas obras Deuses aos mortais mostraram.

Tradução: Rafael Brunhara

Hino Homérico XXXII: À Lua

Mene amplivolante cantai em seguida, Musas
de voz doce filhas de Zeus Cronida  sabedoras da canção.
A partir dela resplendor visível do céu envolve a terra,
a partir de sua imortal cabeça, amplo adorno é visto com
lúcido resplendor e cintila o ar sem luz;
a partir da áurea coroa refletem-se os raios;
sempre depois de no Oceano banhar o belo corpo,
de os trajes vestir longiluzentes a Deusa Lua
e de jungir os potros resplendentes de arqueada cerviz
impetuosamente avançando toca os corcéis de linda melena
pelo anoitecer que divide o mês. Preenche-se a vasta órbita
e então seus raios crescentes iluminam e ao máximo brilham
no céu. Marca aos mortais e um sinal ela é.
Com ela uma vez Cronida uniu-se em amor e deitou-se
e engravidando-a donzela Pandeia gerou
tendo notável formosura  entre as Deusas imortais.
Salve soberana bracinívea Deusa Lua
benévola de belas tranças, por ti começando glórias
de mortais semideuses cantarei cujas obras celebram aedos
acólitos das Musas com seus deleitosos lábios.

Tradução: Rafael Brunhara

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Píndaro - Fragmentos

Hiporquemas

Fragmento 108

Quando um Deus aponta o início
de cada ação, reto então é
o caminho para obter virtude,
mais belo é o fim.

Fragmento 142

Um Deus é capaz de evocar
da negra noite a imaculada luz
E em sombria turva nuvem
ocultar o puro esplendor
do dia.


Fragmentos Incertos

Fragmento 150

Dá teu augúrio, Musa! Serei teu profeta.

Fragmento 159

De homens justos o tempo é o salvador supremo.

[Tradução Rafael Brunhara]

terça-feira, dezembro 07, 2010

Medeia vv. 1-52 - Duas traduções

 [Cena diante do palácio de Medeia, de onde sai a nutriz]

NUTRIZ

Argo, carena transvoante, não
cruzara o azul-cianuro das Simplégades,
rumo aos colcos! O talhe em pinho pélio
não produzira o remo dos heróis
condutores do velo pandourado
a Pélias: longe das ameias de Iolco,
Medeia ficaria, e eu com ela,
sem que eros, por Jasão, a transtornasse!
Nem Pélias jazeria pelas mãos
das filhas convencidas por quem sirvo,
nem ela viveria com os filhos
e o marido no exílio de Corinto,
sempre solícita com os daqui,
jamais em discordância com o cônjuge.
Se há concordância entre o casal, a paz
no lar é plena. O amor adoece agora,
instaura-se o conflito, pois Jasão
deitou-se com a filha de Creon.
Rebaixa a própria esposa e os descendentes.
Medeia amealha a messe da miséria,
soergue a destra, explode em jura, evoca
o testemunho dos divinos: eis
a paga de Jasão com o que lucra!
Seu corpo carpe, inane ela se prostra,
delonga o pranto grave assim que sabe
o quanto fora injustiçada. O olhar
sucumbe à terra, nada a faz erguê-lo,
feito escarcéu marinho, feito pedra,
discerne o vozerio amigo, exceto
quando regira o colo ensimesmado,
alvíssimo, em lamúrias pelo pai,
pelo país natal, que atraiçoou
por quem sem honra a tem agora. Aprende
o quanto custa renegar o sítio
natal. Ao ver os filhos, tolda o cenho
com desdém. Tremo só de imaginar
que trame novidades. Sua psique
circunspecta suporta mal a dor.
Conheço-a de longa data e não
descarto a hipótese de que apunhale
o fígado, depois que entrou sem voz,
rumo ao leito...ou será que mata o rei
e o marido, agravando o quadro mais?
Ela é terribilíssima. Ninguém
que a enfrente logra o louro facilmente.
Seus filhos chegam, finda a correria,
sem ter noção do que acomete a mãe,
pois tem horror à dor a mente em flor.


Tradução de Trajano Vieira
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução, posfácio e notas de Trajano Vieira. Comentário de Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Editora 34, 2010.

NUTRIZ

Nunca a nau Argo, rumo a solo cólquido,
transvoasse as negras fragas das Simplégades!
Jamais nos pélios bosques decaísse
cortado pinho que virasse remo
em mãos de bravos que o pancríseo velo
deram a Pélias! Pois Medéia minha
dona às torres da terra de Iolco nunca
viria, por Jasão de amor turbada,
nem de Pélias as filhas suadiria
a matá-lo; aqui nunca viveria
com seu marido e filhos, agradando
êxule ao povo da coríntia terra,
ela em tudo concorde com Jasão.
A segurança torna-se suprema
quando mulher do esposo não disside.
Mas ora é tudo imigo, sofre o amor:
traiu seus filhos e a senhora minha
Jasão em núpcias régias foi deitar-se
co a filha de Creonte, o soberano.
Medéia, a miseranda, desonrada
evoca juramentos, clama a fé
empenhada: deidades chama testes
do que recebe de Jasão em troca.
Jaz inane. seu corpo entregue a dores,
esvaindo-se o tempo todo em lágrimas,
pós ouvir que seu homem a lesara.
Nem alça os olhos nem afasta o rosto
da terra e como pedra ou onda equórea
condescende aos conselhos dos amigos -
exceto quando vira o colo alvíssimo
e deplora consigo o caro pai,
a terra, a casa que traiu ao vir
com o varão que desonrada a tem.
Aprende a desgraçada, no desastre,
que deixar não se deve o solo pátrio.
Odeia aos filhos, não lhe apraz olhá-los.
Tremo que trame novidades, pois
o espírito tem grave e a dor não há
de suportar: eu a conheço e temo
que no fígado finque agudo gládio,
após entrar silente no aposento
ou que mate o tirano e o que se casa
e receba depois maior desdita.
Ela é terrível: quem seu inimigo
se tornar nao trará vitória fácil.
Mas eis que, findas as corridas, vêm
as crianças, incônscias das agruras
da mãe: sofrer não ama a mente nova.


Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira.
Fonte: Eurípides. Medeia. Tradução de Flávio Ribeiro de Oliveira. São Paulo: Odysseus, 2006.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Prometeu Prisioneiro, vv.1-87 - Quatro traduções

Tradução de Jaime Bruna

(A cena é o pico duma montanha deserta. Chegam Poder e Vigor, que trazem preso Prometeu; segue-os, coxeando, Hefesto, carregando correntes, cravos e malha.)

Poder. Eis-nos chegados a um solo longínquo da terra, caminho da Cítia, deserto ínvio. Hefesto, é mister te desincumbas das ordens enviadas por teu pai, acorrentando este celerado, com liames inquebráveis de cadeias de aço, aos rochedos de escarpas abruptas. Ele roubou uma flor que era tua, o brilho do fogo, vital em todas as artes, e deu-a de presente aos mortais; é preciso que pague aos deuses a pena desse crime, para aprender a acatar o poder real de Zeus e renunciar o mau vezo de querer bem à humanidade.

Hefesto. Poder e Vigor, a incumbência de Zeus para vós está terminada; nada mais vos embarga. Eu, porém, não me animo a agrilhoar à força um deus meu parente a um píncaro aberto às intempéries. Todavia, é imperioso criar essa coragem; é grave negligenciar as ordens de meu pai. Filho de Têmis bem avisada, cheio de ousados intentos, vou, mau grado meu, mau grado teu, prender-te com cravos de bronze impossíveis de arrancar a este penhasco deserto, onde não ouvirás a voz nem verás o vulto de nenhum mortal. Crestado pela chama ardente do sol, perderás o viço da pele; o manto matizado da noite, para teu gáudio, virá cobrir a luz, e o sol dissipará de novo as brumas da aurora, mas serás triturado pelo acabrunhamento da desgraça, presente sempre, porque ainda está para nascer o teu libertador. Eis o que te rendeu o vezo de querer bem à humanidade. Tu, um deus, não te encolheste de medo à cólera dos deuses e entregaste, com violação da justiça, as suas prerrogativas aos mortais; em paga, montarás guarda a este penhasco desprazível, de pé, sem dormir, sem dobrar os joelhos. Debalde exalarás gemidos e ais sem fim, porque inexorável é o coração de Zeus; todo poder recente é implacável.

Poder.
Basta! Para que te atardares em lástimas perdidas? Por que não abominas o deus mais odioso aos deuses, que entregou aos mortais um privilégio teu?
Hefesto. O parentesco e a amizade são forças formidáveis.
Poder. Concordo, mas como se podem transgredir as ordens do teu pai? Isso não te infunde medo?
Hefesto. Tu és sempre cruel e audacioso.
Poder. Lamentos não curam os seus males; não te canses à toa em lástimas ineficaves.
Hefesto. Oh! Que ofício detestável!
Poder Detestável por quê? Tua arte, francamente, culpa nenhuma tem nestas aflições.
Hefesto. Ainda assim, oxalá fosse ela o quinhão dalgum outro.
Poder. Todos os quinhões foram negociados, menos o de comandar os deuses; ninguém é livre, senão Zeus.
Hefesto. Bem sei. A isso não posso replicar.
Poder. Então, mãos à obra! Envolve-o nas cadeias; que teu pai não te aviste parado.
Hefesto. Ele pode ver-me com as correntes na mão.
Poder. Põe-lhe as cadeias em torno dos braços, martela com toda a força e prega-o na rocha.
Hefesto. O trabalho avança e sai a contento.
Poder. Bate mais forte, aperta, não deixes folga. ele é hábil em descobrir saídas até onde não existem.
Hefesto. Este braço está preso, de não se poder soltar.
Poder. Fixa também este solidamente, para ele aprender que sua astúcia não é tão ágil como a de Zeus.
Hefesto. Ninguém poderá reclamar com razão de meu trabalho, exceto ele.
Poder. Agora, finca-lhe firmemente no peito o dente duro duma cunha de aço.
Hefesto. Ai! Prometeu, gemo baixinho por teus sofrimentos.
Poder. Estás outra vez remanchando e lastimando um inimigo de Zeus? Cuidado, não venhas um dia a chorar por ti mesmo!
Hefesto. Não estás vendo um espetáculo triste de ver?
Poder. Eu o vejo receber o que merece. Vamos, passa-lhe um cinto em torno dos flancos.
Hefesto. Não posso evitar de fazê-lo. Não precisas exortar-me.
Poder. Pois não só te exortarei, mas até instarei contigo. Desce e mete-lhe à força umas grilhetas nas pernas.
Hefesto. Pronto. Não deu muito trabalho.
Poder. Crava-lhe agora fortemente umas peias penetrantes; quem fiscaliza a obra é rigoroso.
Hefesto. Tua linguagem afina-se com tua figura.
Poder. Sê brando tu, mas não censures minha rigidez e a crueza de minha índole.
Hefesto. Podemos ir. Seus membros já estão amarrados.
Poder (a Prometeu). Abusa, agora! Furta aos deuses seus privilégios para entregá-los aos seres efêmeros. Que alívio te podem dar deste suplício os mortais? Errados andaram os deuses em te chamarem Prometeu; tu mesmo precisas de alguém que te prometa um meio de safar-te destes hábeis liames! (Retiram-se Poder, Vigor e Hefesto).

Tradução: Jaa Torrano

Poder:
Chegamos a longínquo e limítrofe chão
da terra, sendeiro cita, imortal solidão.
Hefesto, incumbe-te cuidar da missão
que o Pai te impôs: nestas pedras
precípites, dominar este facínora,
com infrágeis peias de cadeias de aço.
Teu adorno, brilho de artificioso fogo,
ele furtou e outorgou aos mortais. Por
um erro tal, ele deve pagar aos Deuses,
para aprender a anuir à tirania de Zeus
e abster-se de ser amigos de humanos.

Hefesto:
Poder e Violência, as ordens de Zeus
vós cumpristes, e nada vos retém,
mas eu não ouso prender, com Violência,
congênere Deus a precipício tempestuoso.
Mas isto é de toda necessidade que ouse,
pois descuidar das palavras do Pai é grave.
Filho de abrupto pensar da Lei de reto conselho,
contra mim e contra ti, com insolúveis bronzes
agrilhôo-te neste penedo longe dos homens,
onde voz nem forma de nenhum mortal
verás, e tostado por fúlgido fulgor do Sol
trocarás a flor da pele. E para teu júbilo
a Noite de variáveis vestes cobrirá a luz.
O sol de manhã espalhará geada de novo.
Sempre o peso da presente miséria há de
esgotar-te, pois o libertador ainda não surgiu.
Tal é tua colheita da amizade por humanos.
Sem te esquivares à ira dos Deuses, Deus
outorgaste aos mortais honras além do justo,
pelas qais sem prazer vigiarás esta pedra,
de pé, insone e sem curvar os joelhos.
Muitos prantos e lamúrias inúteis
balbuciarás, inexorável o ânimo de Zeus.
Todo áspero é quem tem recente o poder.

Poder:
Eia! Por que demoras e lamurias em vão,
e não abominas ao Deus inimigo dos Deuses,
que entregou aos mortais o teu privilégio?

Hefesto:
Terrível é o vínculo fraterno e o convívio.

Poder:
Concordo. E não ouvir as palavras do Pai
é possível? não tens disso maior temor?

Hefesto:
Sempre sem dó e cheio de ousadia és tu.

Poder:
Remédio nenhum é lamuriá-lo. Não te
fadigues em vão a serviço de nada.

Hefesto:
Ó muitas vezes odiada perícia das mãos!

Poder:
Por que a abominas? Pois, a bem dizer,
a arte não é a causa dos presentes males.

Hefesto:
Todavia,outro devesse tê-la no sorteio.

Poder:
Só não há ônus em ser rei de Deuses,
pois ninguém é livre, além de Zeus.

Hefesto:
Estou ciente, e nada tenho a replicar.

Poder:
Apressa-te a lançar sobre ele cadeias,
para que o Pai não te veja em repouso.

Hefesto:
Podem-se ver já prontos estes freios.

Poder:
Põe em volta dos punhos com potente força,
bate com martelo e crava nas pedras.

Hefesto:
Conclui-se este trabalho, e não em vão.

Poder:
Bate mais forte, aperta, não afrouxes.
Ele sae achar saída até do inextricável.

Hefesto:
Está fixo este braço, sem que se solte.

Poder:
Agora prega o outro, irresvalável, que
sofista se perceba mais lerdo que Zeus.

Hefesto:
Exceto ele, ninguém me faria justa censura.

Poder:
Agora crava a mandíbula obstinada
da cunha de aço firme através do peito.

Hefesto:
Aiaî, Prometeu, gemo por tuas dores!

Poder:
Tu hesitas e choras por inimigos de Zeus?
Cuida que o teu pranto não seja por ti!

Hefesto:
Vês esta visão insuportável aos olhos.

Poder:
Vejo que este alcança o merecimento.
Eia! Põe a cilha ao redor dos flancos.

Hefesto:
Fazer isso é fatal, não mandes demais.

Poder:
Sim, quero mandar e açular a mais.
Desce e prende pernas com Violência.

Hefesto:
Está feito o trabalho sem longo esforço.

Poder:
Agora bate com ímpeto perfurantes peias,
pois o supervisor do trabalho é severo.

Hefesto:
Símil à tua forma soa a tua língua.

Poder:
Agora aí transgride, e privilégios de Deuses
rouba e dá aos efêmeros. Que alívio
destas dores podem os mortais te trazer?
Falso nome os Numes te dão de Prometeu
pois precisas tu mesmo de um Prometeu
com jeito que te desenrole deste artifício.


Tradução: Ramiz Galvão

A FORÇA - Aos términos da terra enfim chegamos,
à Cítia - inacessível soledade.
Das ordens de teu pai, Hefesto, cuida,
e o criminoso prende às escarpadas
rochas co'algemas de aço, que não quebrem;
pois deu aos homens a tua flor - o fogo
omnipresente, que furtara. Cumpre
que tal delito expie feito aos deuses,
pra que saiba acatar de Zeus a força,
e o sestro deixe de ajudar os homens.

HEFESTO - Força e Violência, está por vós cumprido
o mandado de Zeus e nada resta.
falta-me contudo o ânimo de atá-lo,
um deus parente, à rocha procelosa.
Todavia é forçoso que me atreva,
pois grave é descurar paternas ordens,
Ó filho pensador da sábia Têmis,
pregar-te-ei nesta rocha desabrida,
onde não vejas voz nem forma humana,
crestado pelo sol na viva chama,
a tez mimosa fanarás; ansioso
pela noite de estrelas recamada,
que a luz te robe aos olhos; desejando
o sol, que funde as geadas matutinas.
Do mal presente a dor curtirás sempre,
pois inda não nasceu quem te liberte.
De tanto amar os homens tens o fruto.
Nume, a col'ra dos numes afrontando,
por honrar aos mortais além do justo
guardarás o penhasco pavoroso,
de pé, insone, sem curvar o joelho,
a soltar crebros ais e vãos gemidos;
que Zeus se não aplaca facilmente.
Rigor é próprio de imperantes novos.

A FORÇA - Pois bem; porque a demora e vãos lamentos?
Porque o deus mais odiado pelos deuses
não detestas, se aos homens deu teu lume?

HEFESTO - Muito podem o sangue e a convivência.

A FORÇA - Sim; mas como do Pai furta-te às ordens?
Deste Delito mais não te arreceias?

HEFESTO - És sempre inexorável e audaciosa!

A FORÇA - Lástimas nada curam; não porfies
em dó inútil, que de nada serve.

HEFESTO - Ó quanto te aborreço, ingrato ofício!

A FORÇA - Porque execrá-lo? Tua arte, certamente,
dos males que ora vemos não foi causa.

HEFESTO - A qualquer outro a sorte o cometesse!

A FORÇA - Tudo aos numes foi dado exceto o mando;
Ninguém é, senão Zeus, independente.

HEFESTO - Sei disto, e para opor-lhe nada tenho.

A FORÇA - Porque, pois, não te apressas a encadeá-lo,
pra que o Pai te não veja titubeante ?

HEFESTO - Dos braços os anéis aqui'stão prontos.

A FORÇA - À obra! Os pulsos cinge-lhe e, com malho
vigoroso, na rocha prega-os ambos.

HEFESTO - 'Stá feito, e não é vão o meu trabalho.

A FORÇA - Bate mais rijo, aperta, não afrouxes;
que ao astuto não faltam expedientes.

HEFESTO - Um braço está bem preso.

A FORÇA - E outro agora
liga seguro, para que ele aprenda
que Zeus mais vale.

HEFESTO - Com razão, só ele,
ninguém mais, censurar-me poderia.

A FORÇA - Agora enterra-lhje, por sobre os peitos,
da cunha de aço os arrogantes dentes.

HEFESTO - Ai! Prometeu, teu padecer deploro.

A FORÇA - Hesitas outra vez? Os inimigos
de Zeus lastimas ? Oxalá que um dia
a ti próprio não venhas lastimar-te.

HEFESTO - Vês horrendo espetáculo!

A FORÇA - Sim, vejo-o
punido qual merece; mas as cintas
de aço lança-lhe em torno das costelas.

HEFESTO - Força é cumpri-lo, porém basta de ordens.

A FORÇA - Mandarei sempre, excitar-te-ei com gritos:
Pra baixo! As pernas co'os anéis constringe.

HEFESTO - Está feito, e o esforço não foi grande.

A FORÇA - Agora com vigor crava as algemas;
que é severo quem julga teu trabalho.

HEFESTO - É rude o teu falar como o teu senho.

A FORÇA - Fraco sê tu, mas minha pertinácia
e da índole a rudeza não me increpes.

HEFESTO - Partamos; tem os membros enleados.

A FORÇA - Ultraja agora, e furta o dom divino
para dá-lo aos mortais. De que te valem
os homens pra aliviar-te os sofrimentos?
Errado nome - Prometeu - te deram
os deuses, quando um Prometeu precisas
tu próprio para livrar-te destas malhas.

Tradução de Trajano Vieira

(Entram Hefesto, Poder e Força, conduzindo Prometeu)

PODER - Termina o mundo e chega a terra cita.
homem nenhum, deserto inacessível.
Deves cumprir à risca, Hefesto, o édito
paterno: aprisionar o criminoso
com fortes cabos de aço no rochedo
íngreme. Ele roubou a tua flor
- brilho ígneo, matriz de toda técnica -,
passou-o a mãos humanas. Tal afronta
aos imortais requer castigo duro.
Que aprenda a dar valor à voz de Zeus
e refreie seus gestos filantrópicos.

HEFESTO - Poder e Força, o que Zeus vos ordena
termina aqui, sem outro contratempo.
Pregar no precipício um deus parente
exige uma coragem que eu não tenho.
Mas como pôr em xeque o Necessário?
Desdém à voz paterna é falha grave.
Filho da sábia Têmis, mente audaz:
contra nós dois, o bronze indissolúvel
te imobiliza nno penedo inóspito,
de onde não vês nem voz nem cor humana.
O sol aceso troca a flor da pele
queimada. Para teu alívio, a noite
encobre o lume com seu manto rútilo.
Um novo sol dissipa logo a bruma
e o mesmo fardo desta agrura volta:
não vive ainda quem te dê alívio.
Eis o fruto dos gestos filantrópicos.
Um deus desteme a ira de outros deuses,
honrando além do justo o ser humano.
Por isso velas sobre a rocha odiosa,
de pé, desperto, com os joelhos retos.
Não surtirão efeito os teus lamentos;
o coração de Zeus, nada o comove:
é duro quem exerce poder novo.

PODER - Por que demoras com lamúrias vãs?
Afagas quem os deuses mais odeiam?
Quem deu para os mortais a tua insígnia?

HEFESTO - Convívio e parentesco me constrangem.

PODER - Certo. Mas desprezas as decisões
do pai não traz mais riscos? Não te aflige?

HEFESTO - Não cabe nunca dó em tua audácia.

PODER - Não há remédio no lamento. Evita
gastar inultimente tua energia.

HEFESTO - Como odeio a perícia dos meus dedos!

PODER - Rancor estranho. O mal que sobre ti
se abate tem a ver com tua arte?

HEFESTO - Que fosse entregue a outro esse dote!

PODER - Os deuses tudo provam, salvo o mando;
somente Zeus conhece o livre arbítrio.

HEFESTO - Bem sei. É irrefutável esse fato.

PODER - Sem mais delonga, abraça-o com amarras.
Que o pai não presencie o teu marasmo.

HEFESTO - Em minhas mãos já vês as rédeas prontas.

PODER - Com toda a força envolve bem os punhos;
bate o martelo, prende-o firme às pedras.

HEFESTO - Pronto. Não falta nada à minha obra.

PODER - Não deixes nada frouxo, vai!, mais forte;
ele desfaz o emaranhado cego.

HEFESTO - Este braço duvido que desate.

PODER - Então ao outro. A rapidez sofística 
- saiba - jamais alcançará o Cronida.

HEFESTO - Só ele poderia criticar-me.

PODER - No meio o seu peito encrava agora
o dente afiado desta cunha de aço.

HEFESTO - Ai, Prometeu, deploro a tua pena.

PODER - De novo hesitas? Choras o inimigo
de Zeus? Não caia sobre ti teu pranto;

HEFESTO - A cena que tu vês corrói a vista.

PODER - Não. Vejo-o recebendo o merecido.
Aperta mais a cinta em torno aos rins.

HEFESTO - Sei bem o meu papel; não me pressiones.

PODER - Minha voz tem o timbre de um açoite.
Embaixo! Cinge com vigor a coxa.

HEFESTO - Missão cumprida e sem maior fadiga.

PODER - Perfura os pés com arrebites!
Quem avalia teu labor é duro.

HEFESTO - Tua língua repercute em tua figura.

PODER - Frouxo, não venhas reprovar-me a fibra,
tampouco meu temperamento cáustico.

HEFESTO - Vamos! Não movimenta mais os membros.

PODER - Insulta agora do alto! Furta prêmios
divinos e transfere-os aos efêmeros!
Abrandam os mortais a tua pena?
Os numes se equivocam no teu nome:
Prometeu? Quem te fez a vã promessa
de desatar o nó que te tolheu?

quinta-feira, setembro 23, 2010

Xenófanes - Elegias

Fragmento 3 W

Discípulos dos Lídios em seu fausto sem sentido
(longe da odiosa tirania, ainda),
acorriam à ágora na gala de túnicas púrpuras,
- e a turba ultrapassava mil!, -
cheios de si, soberbos em melenas lindas,
exalando arômatas sutis

Fragmento 6 W

Pelo envio da coxa de um cabrito,
recebeste um pernil supimpa de touro pingue,
digno de eternas loas em todos os rincões
helenos, enquanto houver a raça dos aedos helênicos.

Fragmento 8 W

Há sete anos já mais uns sessenta,
divulgo o meu pensar em solo grego,
além de vinte e outros cinco, desde que vim ao mundo,
se posso ser exato nesse assunto...

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releitura de Xenófanes. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa oficial, 2006

domingo, setembro 19, 2010

Xenófanes, 2 W

Se alguém, com pés turbinados, colhesse os louros de Nike,
ou no pentatlo, onde se localiza o templo de Zeus
à beira-Pisa, rio olímpio, ou na luta,
ou na estressante peleja de boxe,
ou na selvagem disputa denominada pancrácio,
cairia nas graças da coletividade,
assinalado por todos na tribuna de honra,
levando alimento às custas do erário,
e o regalo do prêmio, verdadeiro tesouro.
Mesmo no hipismo, receberia o acima descrito,
sem o merecer como eu: músculos e eqüinos,
a força bruta, ficam aquém da minha filosofia!
Esse hábito extrapola o razoável! É justo
optar pela força em detrimento da boa sabedoria?
Um representante do povo campeão de boxe,
ás no pentatlo, ouro na pugna,
expedito na pista (modalidade mais honrosa que o uso
da força nos jogos), não garante à pólis um norte.
Fugaz sera o prazer da cidade
se um filho seu ganhasse na fímbria do Pisa.
Isso não sobe os silos da pólis.

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releitura de Xenófanes. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa oficial do Estado de São Paulo. 2006

sexta-feira, setembro 17, 2010

Xenófanes, Fragmento 7a

Testemunha casual do açoite de um cão,
reagiu, coração partido - é o que dizem:
Pára! Chega de tortura! Pertence a um amigo
seu espírito. Reconheci-o pelo timbre do grito.

Trajano Vieira

VIEIRA, T. Xenofanias - releituras de Xenófanes. - Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo, SP: Imprensa oficial do Estado de São Paulo, 2006.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Xenófanes, Fr. 1 W

Agora o solo se depura, as mãos todas, os cálices;
alguém eleva à fronte a trança da coroa;
um outro infunde bálsamo no púcaro;
a cratera, plena, rejubila-se;
ultimam um vinho diverso - sua falta é inadmissível! - ,
docimel, arômata floral nos jarros;
espira sacra incensa o meio;
água pura, água-dulçor, frescor de água;
pronto o louro pão; fartura de queijo e mel
à mesa engalanada;
pétalas antológicas enchem o altar central;
vozes musicais ocupam a morada em festa.
Iniciar hinos ao deus é prerrogativa de homens felizes,
com seus mitos de augúrio, linguagens de catarse.
Finda a libação e o clamor pelo justo proceder
- eis o que a tudo precede! -
beber já não agride, quando permita o torna-lar
sem amparo no escravo, se idade não pesa...
Digno de nota é quem, pós-beberagem, revela temas de nobreza,
o tônus da memória no que é meritório,
não em episódios de refregas titânicas, gigânteas,
centáureas, invencionices do passado,
ou nas revoltas sanguinárias. Que vantagem nos trazem?
Dádiva é manter a mente nas deidades.

Trajano Vieira.

Fonte: VIEIRA, T. Xenofanias: releituras de Xenófanes. Editora da Unicamp, São Paulo, SP: Imprensa oficial do estado de São paulo, 2006.